Cafezinho 2 minutos: Posse de Bolsonaro e alegações finais contra Lula

O que diferencia os quatro projetos da esquerda brasileira em 2018?

Por Theo Rodrigues

06 de maio de 2018 : 08h00

Por Theófilo Rodrigues

Mantidas as atuais condições de temperatura e pressão, a eleição presidencial de 2018 contará com ao menos quatro candidaturas da esquerda ou, como preferem alguns, do campo progressista ou popular democrático. Ciro Gomes (PDT), Manuela D ´Ávila (PCdoB), Guilherme Boulos (PSOL) e Lula (ou outro candidato do PT) são as possibilidades dispostas na mesa até agora.

O primeiro deles é o do desenvolvimentismo. Esse projeto, que possui como elemento norteador a economia, tem Ciro Gomes como principal porta voz. Na síntese repetida à exaustão por Ciro, o projeto nacional de desenvolvimento necessário para o país passa por “um grande acordo entre quem produz e quem trabalha para confrontar o rentismo e a especulação financeira”. Em outras palavras, uma conciliação entre trabalhadores e burguesia industrial para enfrentar os bancos, a burguesia financeira. O pano de fundo para essa tese desenvolvimentista é o de que, diferente do que pregam os monetaristas, o problema do país não é a inflação, mas sim o desemprego e a falta de crescimento econômico. Diga-se de passagem, essa ênfase exacerbada no desenvolvimentismo também faz parte do repertório discursivo de Aldo Rebelo, candidato pelo Solidariedade. Grosso modo, Rebelo resume assim o debate: (1) a prioridade é a redução do desemprego; (2) sem crescimento econômico nenhuma outra política pública é possível.

Um outro projeto bem distinto é o apresentado pelo PSOL através da candidatura de Guilherme Boulos. Absolutamente crítico do desenvolvimentismo, o partido aposta na “superação do modelo neodesenvolvimentista extrativista executado pelo lulopetismo”. Para o PSOL, não existe a possibilidade da aliança entre trabalho e produção, cerne do projeto desenvolvimentista. Apoio do Estado para a dinâmica do desenvolvimento econômico via BNDES, grandes obras de infraestrutura e parcerias público-privado não fazem parte do vocabulário do partido de Boulos. A ênfase programática está nas políticas identitárias e na defesa das minorias como tribos indígenas, LGBT, mulheres, negros etc. É essa determinação identitária, multiculturalista, que faz o partido repudiar, por exemplo, a aposta dos desenvolvimentistas em obras infra estruturais como a hidrelétrica de Belo Monte. Ilustra bem essa linha programática a ideia de Marcelo Freixo de que “a luta por direitos humanos é a essência da nova luta de classes”.

Um caminho do meio por entre o desenvolvimentismo de Ciro e Aldo e o identitarismo do PSOL foi tentado inicialmente pelo PT nos governos Lula e Dilma, entre 2003 e 2015. Ao mesmo tempo em que incentivou o papel interventor do Estado, via BNDES, para impulsionar a burguesia industrial e garantir baixos índices de desemprego, os governos do PT também deram protagonismo para políticas identitárias ao apostar em ações afirmativas e na representatividade. Além de criar ministérios para mulheres, juventude e igualdade racial, também investiu em políticas como as cotas raciais nas universidades públicas. No entanto, esse projeto do lulismo, como definiu André Singer, um dos mais argutos intérpretes desse período, foi marcado por um reformismo fraco, gradual. Esse reformismo fraco pode ser traduzido assim: um projeto moderado do desenvolvimentismo de Ciro e Aldo aliado a um projeto moderado do identitarismo do PSOL.

Por fim, o quarto e último projeto da esquerda apresentado para 2018 consiste em uma possível síntese dialética desses três projetos anteriores. Trata-se do programa formulado pelo PCdoB e representado pela candidatura de Manuela D´Ávila. A comunista busca construir um caminho alternativo que agregue tanto o desenvolvimentismo quanto as políticas identitárias. “A desigualdade no Brasil é estruturada sobre gênero e raça. Enquanto não entendermos isso, não teremos um país com um projeto nacional de desenvolvimento soberano”, explica Manuela. Contudo, diferente do lulismo e do PT, essa via não pode ser a de um “reformismo fraco”, como aquele descrito por Singer, mas sim forte, estrutural de fato. Há aqui uma semelhança clara com aquilo que Ernesto Laclau e Chantal Mouffe conceituaram como “democracia radical”. A aproximação teórica também se dá com o que Nancy Fraser definiu como uma aliança entre redistribuição e reconhecimento. O lugar dessa narrativa de Manuela é orgânico e legítimo. Do ponto de vista da luta pelo reconhecimento, ou seja, das políticas identitárias, o seu partido tem muito o que dizer: o PCdoB possui uma presidenta nacional que é mulher e negra, a deputada Luciana Santos; metade de sua bancada parlamentar é formada por mulheres, mais alto índice no país; o líder da bancada é um deputado negro, Orlando Silva; e foi uma comunista quem aprovou a mais importante política pública para mulheres nos últimos anos, a Lei Maria da Penha, da deputada Jandira Feghali. Do ponto de vista do desenvolvimentismo econômico o PCdoB também tem lugar de fala. Pelo menos desde 2009 o partido tem propagandeado um programa intitulado “novo projeto de desenvolvimento nacional”, cuja base são reformas estruturais (agrária, urbana, tributária, educacional, política etc) e a forte intervenção estatal na economia e na infraestrutura do país. Um programa que nasceu ao fim do governo Lula, justamente da avaliação de que o reformismo fraco do lulismo precisaria ser substituído. O principal cartão de visitas de Manuela é o portfólio de políticas públicas instituídas nos últimos anos pelo governo de seu correligionário, Flávio Dino, no Maranhão.

Como se vê, a esquerda brasileira não é homogênea. Há pelo menos quatro narrativas, quatro projetos distintos em disputa e que informam todo o debate eleitoral desse campo político para 2018. No entanto, o risco de que, separados, nenhum deles alcance o segundo turno da eleição presidencial é grande, o que seria uma pena para o debate público no país. Mas ainda há tempo para o diálogo, para a unidade e, quem sabe, para a aceitação de um programa que construa um consenso dialético entre as quatro visões de mundo. Seria, no mínimo, a vitória da política.

Theófilo Rodrigues é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ.

Theo Rodrigues

Theo Rodrigues é professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ.

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26 comentários

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Joana Pinho

08 de maio de 2018 às 07h05

O Brasil precisa é de mais liberalismo, deixar os empresarios criarem empregos e os empregados se desenvolverem financeiramente sem serem sufocados por esse nosso governo ganancioso e pidao. Noruega, Suécia, Alemanha, Inglaterra e EUA estao entre os mais liberais do mundo, na verdade todos os paises mais ricos sao os mais liberais.
https://www.heritage.org/index/ranking
Nosso Brasil é o 173° do rank. Essa nossa atual estratégia em que o governo arranca tudo do povo, até as penas, para depois ajudar com esmolas nao funciona em lugar nenhum. Menos impostos, menos burocracia, menos leis, mais desenvolvimento e empregos

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renner malta

07 de maio de 2018 às 14h37

ciro ta viajando. ainda axa q existe uma burguesia nacional.

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Thiago Araujo

07 de maio de 2018 às 14h09

Especificamente sobre essa matéria ” o que diferencia… ?”, me pareceu que o ambiente está igual a uma torcida de futebol:
Ninguém é técnico, todo mundo dá palpite e sabe a solução do esquema tático.
Escolhe os zagueiros, o líbero, os pontas e o goleiro…
Não deixa de fora o centro-avante.
Bota o time em campo e ele PERDE.
Xiiii… !!! Ninguém se preocupou com a condição de cada jogador!
É… vivemos mesmo no País do FUTEBOL!!!
Como diria Sherlock Holmes: “ELEMENTAR, MEU CARO WATSON !!!!!!

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Vitor

07 de maio de 2018 às 12h28

Desculpa, mas não dá pra levar a sério um texto que coloca o Ciro na esquerda e igual a política econômica dos Governos Lula e Dilma. É muita alienação…

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Uagnis. Sousa

07 de maio de 2018 às 08h51

Não. Entendo. Como pode. Chamar. O. Ciro. Gomes. De. Esquerdista. Pois. O. Povo. O. Vê. Como. Um. Coronelao. Do. Nordeste. Bruto. Valentão oriundo. De. Feudo. Nordestino usurpador. Também. Não. Entendi quando. Dos bque. Esquerdista. É. Progressista. Pois. No. Governo. Do. Fez. Roubar. Acumular. Patrimônio e. Distribuir. Bolsa. Como. Forma. De. Comprar. Voto. E. Patmanecer. No. Poder. Isto. Segundo. Marx. E. Uma. Ditadura. Terrível. E. Perpétua

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Marco Ferreira

07 de maio de 2018 às 07h49

O que esperar de um professor que fala presidenta. Será que alguma estudanta dele entende este comentário como sério?

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Diplomata

06 de maio de 2018 às 16h56

https://www.youtube.com/watch?v=eNebF8wsMV0

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Oswald

06 de maio de 2018 às 16h48

Enquanto a esquerda bate cabeça o fascismo avança.

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Elvis

06 de maio de 2018 às 15h52

Pela amor de deus editor, escolha melhor os textos
e os comentários.

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Beto Castro

06 de maio de 2018 às 13h26

A análise do articulista é bem fundamentada e com pouco ranço ideológico ou quase nada. Esqueceu de enfatizar o realismo do PT diante de uma burguesia rentista e parasita que vive de renda e rendimentos financeiros. No Brasil a quantidade de comunistas marxistas é zero ou quase zero. As ideologias radicais do tipo PSOL, PCO, PSTU e PCdoB que desejam replicar aqui os diversos grupos soviéticos, Chinês, Cubano e Albanês não tem respaldo na realidade. Este radicalismo do espectro ideológico na ponta canhota é coisa da primeira metade do século 20, tendo sido já superado com o desmoronamento dos países que optaram pela utopia da tirania, com a morte do último capitalista por enforcamento com a tripa do último padre. Tirar os poderes da classe produtiva dos empresários e os substituir pela nomenclatura do Estado Patrão não tem a menor viabilidade em nenhum lugar do mundo. A Nação tem que evoluir através de um educação emancipacionista, a diminuição das disparidades regionais e familiares, uma boa gestão do seu território e suas riquezas numa perspectiva da apropriação dos excedentes pelos nacionais, mas também remunerando os investimentos internacionais sem subserviência como fazem os chineses. A China, a Índia e Rússia fazem assim, inclusive os países da comunidade europeia e os escandinavos. Não existe mais espaço para as ideologias radicais da ponta da corda (fascismo patronal e fascismo burocrata) que estão extintos pelo avanço dos diversos sincretismos ideológicos – Comunismo Capitalista (China), Capitalismo Socialista (Rússia e Índia)), Capitalismo Sócio-Tributarista (Escandinávia) e Capitalismo Colonial do Wellfare (União Europeia). Esta é a tendência do mundo no confronto com o domínio da Banca e das Bolsas (EUA e caterva). Mesmo sendo o programa mais realista nesta conjuntura gradual e conciliatória, os adeptos do proxenetismo colonial não aceitaram, porquanto reforça a nacionalidade através da expansão educacional e a diminuição dos desequilíbrios regionais, apesar de inevitável (São Paulo versus o resto). Seria bom frisar que o PT e aliados nacionalistas não tocaram nem de leve naqueles itens que são responsáveis pelo atraso da Nação – Uma educação moderna com ênfase no domínio da ciência e da tecnologia de ponta, a organização territorial planejada e o fortalecimento das empresas genuinamente nacionais. Mesmo assim, o pouco que foi feito em tão pouco tempo, por fortalecer os grandes grupos nacionais pela capitalização rápida e forte e preparar a infraestrutura educacional, mesmo ainda precária, irritou profundamente os proxenetas coloniais que perpetraram o golpe – todos ligados aos interesse hegemônicos estrangeiros do Rio e São Paulo. Lula plantou a semente do emancipacionismo internacional nos corações e mentes de milhões de brasileiros, que mesmo com as pernas quebradas, avançará aos trancos e barrancos. A destruição de todas as conquistas trabalhistas à toque de golpe levará décadas, talvez, para ser recuperada. Com os ativos patrimoniais doados e as riquezas acopladas, lá se vão a ciência e tecnologia entranhada (embeded) que tem valores monetários e de capital humano cem vezes superiores aos objetos doados.

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    Rubens

    06 de maio de 2018 às 15h53

    Acorda proto coxinha.

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      Beto Castro

      07 de maio de 2018 às 14h28

      A carapuça do marxismo velhaco, ultrapassado, anacrônico e sepultado com a queda do muro de Berlin caiu como uma luva no alucinado invejoso das ditaduras do proletariado. Deve ser algum psolhento, pimenteiro ou comunista de cobertura. O projeto de Lula era exatamente este que sugeri. Estratégico, lento, gradual e realista. O Comunismo Capitalista Chinês sob controle do Comitê do Partido Comunista Chinês prova que não existe Pátria sem uma economia eficiente e dinâmica. Algo que burocratas stalinistas asnos são incapazes de realizar.

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    Francisco

    07 de maio de 2018 às 00h48

    Voce diz que o que tem de marxista no Brasil não enche uma Kombi e por isso, projetos calçados na maior atuação do mercado não devem nem ser tentados. Mau argumento. Quantos liberais tem no país? Te respondo:não enchem uma Kombi. O que tem muito no país é oligarca.
    Proposta boa é proposta que resolve, que encanta a maioria da sociedade e que, principalmente, blinda a democracia. Digo principalmente, porque se não blindar a democracia… tanto faz como tanto fez: vamos todos parar no cárcere de Curitiba…

    Responder

NeoTupi

06 de maio de 2018 às 12h57

Só existem dois projetos viáveis em disputa para 2018: lulismo x golpismo (continuidade do governo Temer). Boulos entendeu. Manuela também. Candidato que não entender isso (Ciro é um deles), vai ser engolido ou pelo lulismo ou pelo golpismo. Antes das eleições (no caso do lulismo prevalecer) ou depois das eleições se o lulismo perder qualquer que seja o candidato, mesmo de “esquerda” (a governabilidade jogará o candidato que vencer o lulismo nas mãos da direita inexoravelmente, ainda que façam pequenas concessões sociais para aliviar a pressão popular, porém muito aquém do lulismo).

O suposto projeto nacional do Ciro no papel é bom (é Getúlio Vargas de 1937 a 1954, diga-se, porém Ciro não é Getúlio que criou o PTB para ter maioria no Congresso a partir de 1950, nem tem apoio das FFAA para fazer o Estado Novo com Congresso fechado). Mas esse projeto é o que levou Dilma a ser sabotada desde o segundo semestre de 2012, quando Dilma lutou para vencer rentismo usando os bancos públicos para baixar juros e com a economia feita na conta de juros, despejar no orçamento capital no BNDES para financiar e alavancar o investimento proidutivo, o desenvolvimento. Deu certo parcialmente (construção civil, infraestrutura, política industrial de conteúdo nacional foram bem e geraram empregos), mas a própria Dilma depois que caiu traçou o diagnóstico de que os próprios empresários produtivos (desenvolvimentistas) estavam entrelaçados com o rentismo (bancos são acionistas ou controlam o fluxo de investidores que controlam as empresas produtivas), então onde ela deveria receber apoio pelos interesses produtivos atendidos, acabou sofrendo resistência, o que levou gradativamente ao golpe.

Não existe condições objetivas para Ciro impor esse projeto a partir do andar de ciman (não existe burguesia nacionalista com cacife, como Dilma experimentou e provou), e Ciro não tem liderança para impor a partir do andar de baixo (só o lulismo tem esse cacife, hoje). Grandes empresas “nacionais” hoje são controladas direta ou indiretamente pelos bancos, e quando crescem estão mais interessadas em ganhar dinheiro globalmente do que em qualquer projeto nacional. Daí a venda da Embraer, a venda da Amil para UnitedHealth, etc. Ciro não vai convencer empresários a agirem diferente.

Outra coisa é geopolítica. Ciro, se eleito, fortalece a geopolítica dos EUA. Lula fortalece os BRICS e a liderança brasileira no América Latina e na África. Essas forças de apoio internacional pesa na política interna também.

Responder

    Benoit

    07 de maio de 2018 às 07h17

    Ótimo, o problema é que voce não disse o que é que o Lulismo é e qual a diferença entre ele e o Ciro para além de alguns pontos relativos à política exterior. Voce apontou uma oposição entre o Ciro e o Lulismo sem dizer no que ela consiste e como os dois se distinguem um do outro. O seu comentário dá a impressão de ser uma tomada de lado e de partido sem grande substância ou reflexão.

    Não entendo porque voce acha que a Dilma foi sabotada pela elite econômica ao mesmo tempo que o Lula não seria. Acho que é o tal do mito do Lula, de que o Lula seria infalível, resolveria todos os problemas do Brasil de repente só por ser o Lula e teria poderes sobrehumanos. É um mito perigoso porque ele pode derrubar a esquerda no Brasil. A Dilma Rousseff também é do PT e foi escolhida pelo Lula para ser o sucessor dele. Portanto o Lula tem uma certa responsabilidade pelo que ela fez e se ela falhou, ele também poderia ter falhado. O Lula também fez muitos compromissos para poder governar, não vejo qual a grande diferença com o Ciro.

    Quanto à política externa, realmente é importante estimular um projeto sul americano comum. Mas tem-se que ver que muitas coisas mudaram no mundo desde o tempo do Lula. O que é que o Bric significa hoje? A India parece se alinhar decididamente com o Ocidente. A economia brasileira passa por dificuldadesbgrandes. A Rússia foi submetida a um regime de sanções duras, a China surge como adversária do Ocidente tratada com a maior desconfiança possível. Não vejo como voltar a formar um bloco firme movido e motivado por uma dinâmica econômica comum com países em situaçõs e com interesses tão diferentes. Achar também que o Brasil pode repetir a performance chinesa com facilidade é ingenuidade. A China aproveitou as condições de uma época e de uma situação diferentes. Ninguém queria ficar de fora do mercado chinês por causa das dimensões dele, todo mundo estava disposto a investir na China mesmo quando as condições eram desfavoráveis. Isso não vai acontecer de novo com o Brasil.

    De um modo geral me parece ser um equívoco ver todo mundo para lá do Lula como golpistas ou como irrelevantes, embora alguns sejam irrelevantes e outros golpistas. Não acho que exista uma grande direita golpista que abrange quase tudo no Brasil. O Temer e o PMDB só aderiram ao golpe porque acharam que era a melhor maneira de se salvar da justiça, partes do PSDB talvez tenham agido por oportunismo momentâneo e partes do setor econômico talvez estivessem descontentes num certo momento com o governo acreditando em condições melhores com um outro governo. Isso tudo facilitou o golpe. Mas quem realmente queria o golpe por razões ideológicas eram a extrema direita, as mídias que se alinharam com ela e a justiça aloprada. Esses grupos conseguiram carregar o país com eles, conseguiram convencer com boas campanhas de propaganda de longa duração partes da classe média a odiar o PT e o Lula. Seria bom se o “lulismo” não se tornasse uma força contra o Lula a reforçar essa direção política pelo lado da esquerda e no fim perder as eleições e fracassar completamente.

    Responder

      NeoTupi

      07 de maio de 2018 às 11h44

      A polarização lulismo x golpismo é como o eleitor vê. Ciro diferencia do lulismo sobretudo pela correlação de forças políticas anti-lulista onde ele busca apoio, e no discurso onde busca se diferenciar e distanciar do lulismo (justamente para atrair apoios de setores golpistas). Ora, se for eleito com a força do golpe, é o golpe quem vai mandar no governo, por mais que Ciro diga que não. Simples assim.
      Ciro não tem base de apoio de movimentos sociais, não tem base de apoio trabalhista (pelegos não contam, pois isso até o Aécio arranjou), não tem base de apoio de raiz popular. Ele não construiu o que Lula e o PT construíram ao longo de 35 anos.
      Não adianta analisar programas de governo de forma acadêmica procurando similaridades, quando na política real quem manda é quem elege. O lulismo buscou ao longo do tempo apoios na elite econômica também para se eleger, mas esse apoio nunca foi maior do que a base de apoio popular. Com Ciro é o contrário. Tanto é que Ciro já está oferecendo ao mercado a reforma da previdência do Temer, o ajuste fiscal do Meirelles, e privatizações de algumas estatais “não essenciais” (em 1994, quando ministro da fazenda de Itamar, Ciro foi o primeiro a defender a privatização da Vale e consumou a privatização da Embraer).
      -x-x-
      Lula não fez o discurso do 1o. de maio de 2012 que Dilma fez convocando a população a boicotar o Itaú, o Bradesco e o Santander se não abaixassem os juros. Procure no Youtube que está lá. A Febraban (Federação de Bancos) chamou aquilo de declaração de guerra. E a guerra veio contra Dilma. Logo em seguida veio a capa da Veja com a inflação tomate, o projeto da Rede de Marina foi tirado do papel, a elite econômica incentivou Eduardo Campos a sair candidato, no ano seguinte a Globo convocou manifestações anti-Copa, financiaram a bancada do Eduardo Cunha, e o resto você sabe no que deu.
      Lula e Dilma viveram momentos e desafios diferentes. Lula foi mais conciliador por sua natureza e porque pegou o país quebrado e precisava recuperar a economia, o desenvolvimento e o emprego. Dilma pegou os desafios seguintes de tentar dar um salto na oferta da produção nacional (aumentar taxa de investimento, industrialização) para suprir sem inflação o consumo das famílias que ascenderam socialmente no governo Lula e para aumentar a renda das famílias com maior qualificação do trabalho, e comprou briga com o modelo rentista. Não estou dizendo que Lula teria capacidade de fazer o que Dilma não conseguiu só por ser um liderança maior. Mas digo que não é Ciro, nem ninguém, que vai conseguir enfrentar o rentismo de forma voluntariosa. A base popular do lulismo tem mais condições de pressionar a elite econômica a fazer concessões do que Ciro tendo como base de apoio justamente a elite econômica.
      -x-x-
      Os BRICS tirando o Brasil, tem progredido mais do que EUA e Europa. Os embargos dos EUA e Europa à Rússia fez aumentar o comércio entre Rússia e China, inclusive em moedas próprias, sem depender do dólar. Inclua nessa países como o Irã, que também sofre embargos. Até a extrema-direita italiana já está contra os embargos à Rússia, porque perdeu mercado de exportações para a China. O Brasil só tem a ganhar caso se integre mais às cadeias produtivas globalizadas dos BRICS, e só tem a perder se deixar o bonde da história passar mais uma vez.
      -x-x-
      Disse tudo isso, mas é dispensável, porque há 6 meses das eleições mais desmobilizadas e anti-políticas da história, o que importa é como o eleitor vê o que está posto na mesa para escolher: ele vai escolher entre quem defende o lulismo (que ele conhece do governo Lula) e quem defende o golpismo (que ele também já conhece do governo Temer). Ciro escolheu não estar do lado do lulismo. A sorte está lançada.

      Responder

      Benoit

      07 de maio de 2018 às 20h03

      A função de resposta parece não está funcionando direito e por isso é possível que a minha resposta não apareça no lugar certo. De qualquer modo o meu comentário agora será breve. Acho que a sua distinção entre o Lula e o Ciro é muito forçada, o que quer dizer que ela não reflete a realidade. Voce acredita que se tenha podido sabotar a Dilma, que se tenha podido por o Lula na prisão, que se possa também comprometer um governo do Ciro, mas que isso não aconteceria com o Lula por causa do apoio popular dele. Ora, então por que o Lula está agora na prisão e talvez não saia se os tribunais não tiverem vontade de o soltarem? Se o PT resolver apoiar o Ciro em torno de um bom programa de governo, por que o Ciro não conseguiria o mesmo apoio popular que o PT poderia ter? No final, caso o Ciro viesse a ser eleito, o que contaria seria o resultado eleitoral alcançado por ele muito mais do que conversas dele com setores sociais ou empresariais. É claro que o PT também poderia apresentar um candidato deles caso o Lula não possa disputar as eleições, talvez até um bom candidato, ou candidata. Mas o fato é que no momento ninguém do PT se dispõe a isso e que o Ciro aparece como o candidato mais forte da esquerda. Não sigo tudo muito de perto, mas não acredito que alguns dos outros candidatos da esquerda tivessem a menor chance real de se elegerem. Então talvez o Ciro venha a ser o único candidato da esquerda que poderia ganhar as eleições. Para mencionar um ponto a respeito do qual pode haver dúvidas: o Ciro disse que iria reverter algumas privatizações, o que parece positivo. Também parece ser o caso que o Lula gostaria de receber a visita do Ciro na prisão, a qual foi negada por uma senhora encarregada de decidir o assunto. Sem um certo compromisso e entendimento entre os partidos de esquerda, a situação não evoluirá positivamente.

      Responder

Cris

06 de maio de 2018 às 12h51

Vamos companheiro Guilherme Boulos, o que está esperando para mandar invadir a mansão do seu pai em bairro nobre, na Vila Mariana? A mansão está abandonada e faz tempo. Sendo assim haja !

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José Ruiz

06 de maio de 2018 às 11h15

uau.. ciro e rebelo (do solidariedade, partido do paulinho da força, apoiou o golpe) são projetos de esquerda??

uau.. uau..

Agora o as condições em que deram o golpe estão ficando mais claras..

Responder

Redson Mello

06 de maio de 2018 às 10h49

Ciro como candidato de esquerda é uma piada. É sem a menor graça

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    Ultra Mario

    06 de maio de 2018 às 13h13

    O que é ser de esquerda pra você?

    Responder

Daniel

06 de maio de 2018 às 10h27

Ciro nao e’ de esquerda nao force a barra.

Responder

Ultra Mario

06 de maio de 2018 às 10h23

Odeio esse tipo de esquerdismo inocente e identidário do PSOL. A melhor defesa que você dá a uma minoria é a oportunidade de estudar e ter um bom emprego, e isso custa dinheiro.

O empresariado do Brasil não é malvadão que só quer explorar o trabalhador… ele é burro e imediatista. Temos que puxar essa gente pro nosso lado e não o contrário.

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Antonio Passos

06 de maio de 2018 às 10h20

Plano B é LEGITIMAR O GOLPE !

Plano B é aceitar que o povo NÃO pode escolher quem ele quer.

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Jose carlos lima

06 de maio de 2018 às 08h31

na disputa pela prefeitura em SP a Erundina foi para um canto e o Haddad pra outro.
Como apontou Nicolelis, a campanha de 2016 deveria ter sido usada para de unciar o golpe mas optaram por disputar fazendo de conta que era uma campanha normal ou seja dentro do jogo da democracia apesar da midia atuando em unissono contra o PT…..

que esta campanha sirva pelo menos para que se denuncie o golpe

Responder

Carlos Barbalho

06 de maio de 2018 às 08h28

Bem, achei excelente é oportuno o artigo. No entanto, não sei se por falta de uma melhor compreensão de minha parte. Porém, senti falta de nos esclarecer qual o atual pojeto do PT. É ainda o mesmo do passado, citado no artigo, ou houve mudanças decorrentes da experiência passada? Há, por exemplo, clara manifestação acerca da Lei dos Médios, Reforma do Judiciário, Reforma Política. Essas evidentemente fundamentais para que um partido de esquerda possa governar. O que dizer da economia? Haverá a manutenção do fracassafo acordo com as elites, via Carta ao Povo Brasileiro?

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