A chave da vitória e os desafios de López Obrador

Mexican presidential candidate Andres Manuel Lopez Obrador waves to supporters during his closing campaign rally at the Azteca stadium, in Mexico City, Mexico June 27, 2018. REUTERS/Edgard Garrido

Publicado pelo portal Vermelho

A vitória do partido Morena (Movimento de Regeneração Nacional) e López Obrador é uma rebelião nas entranhas de uma estrutura democrática severamente destruída pelo corporativismo bi-partidário (PRI-PAN) e pro uma lista imensa de vícios e corruptelas que levaram à bancarrota institucional todo o aparato político. Uma rebelião assediada pela violência macabra desatada pro uma falsa guerra contra o “crime organizado” que na prática não te sido mais que a militarização “encoberta” de todo o território para colocar as riquezas nacionais a serviço das empresas transnacionais e seus cúmplices locais. Uma rebelião que enfrentou milhares de emboscadas em todos os repertórios odiosos da depauperação econômica e das guerras midático-psicológicas.

O México padece da virulência do neoliberalismo e os embates coloniais do império ianque. É um país sequestrado por gerentes – impostos pela via da fraude – para entregar recursos naturais, para oferecer mão de obra. No México até hoje ninguém garantiu ao povo a defesa do território e a defesa dos recursos naturais. Ninguém garantiu o exercício independente da justiça. Ninguém freou o crime organizado e sua metástase em toda as estruturas sociais e culturais do país.

Ninguém exerceu reitoria alguma em matéria de democracia comunicacional. Ninguém garantiu o direito à educação, o direito ao trabalho, o direito à saúde, o direito à alimentação… Ninguém assegurou dignidade às pessoas porque uma moral entreguista e rasteira, adoradora do império ianque, serve das formas mais ignominiosas à opressão. Neste contexto López Obrador vence as eleições.

Agora começa o mais difícil. López Obrador se propõe a pacificar o país; acabar com a corrupção e recompor a economia com dignificação trabalhista e salarial. Pretende incluir os mais postergados e a distribuir de forma equitativa os cargos federais. Isso implica derrotar as máfias que sequestraram o governo eo Estado para fazer justiça, por exemplo, aos estudantes de Ayotzinada, aos povos originários, e assegurar que estas ações perdurem para ampliar a participação social no governo mobilizado como organizador capaz de somar força que possa oferecer soluções à força popular que alcançou o triunfo.

Os desafios são muitos e são enormes num país que tem o tecido social profundamente desgastado, mas que, apesar dos pesares, se rebelou contra o establishment para fazer visível sua multiculturalidade e sua plurinacionalidade unidas às “classes médias” para somar a maior votação que nenhum presidente nunca tinha tido no México e que líder de esquerda algum havia conquistado.

O México enfrenta seu futuro imediato mobilizado como nunca, com as praças cheias, com as ruas tomadas, com uma mobilização magnífica que encuba ideias emancipatórias. Contra a fraude, contra o saqueio e contra a exploração históricas… é uma identidade nova, uma festa que começa de baixo, uma situação social inédita.

Bem, pode ser que o nascimento de um novo México, desta vez decidido pelo povo, com as armas de sua democracia em reparação, com uma moral renovada e muita claridade nos desafios, possa derrotar qualquer tentativa de regressão.

Por agora o México é um ponto de inflexão, um desafio à nossa capacidade de luta e unidade dentro e fora do país… Ponto de inflexão para que nos reconheçamos até a tomada do poder impulsionados com nossas próprias forças populares e os trabalhadores do campo e da cidade… para mudar o sistema e mudar a vida.

*Fernando Buen Abad é mexicano, diretor de cinema e especialista em Filosofia da Imagem, Filosofia da Comunicação, Crítica à Cultura, Estética e Semiótica

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