Haddad e Dilma em Belo Horizonte

Campanha no centro do Rio. Divulgação.

Os desafios da esquerda fluminense

Por Miguel do Rosário

13 de setembro de 2018 : 12h44

A última pesquisa Ibope no Rio de Janeiro, feita entre os dias 7 e 9 de setembro, acendeu a luz vermelha de todos os progressistas do Estado. Não há uma única notícia boa.

Na disputa presidencial, o Rio foi o estado onde Bolsonaro experimentou sua maior alta, após o atentado à faca que sofreu há uma semana: saiu de 25% na pesquisa de 20 de agosto para 33% agora.

Os candidatos progressistas, por sua vez, se mantiveram estagnados ou declinaram. Diferentemente do que ocorreu São Paulo, no Espírito Santo e em todo nordeste, Ciro não se moveu no Rio. Tem 10% das intenções de voto. E Marina oscilou 1 ponto para baixo, para 11%.

Haddad cresceu 3 pontos, mas seus 5% ainda são um percentual insignificante. Espera-se que cresça muito ainda, mas a realidade hoje é essa.

Na disputa para o Senado, os dois candidatos da direita, Flavio Bolsonaro e César Maia, se distanciaram de Lindbergh (PT) e Chico Alencar (PSOL). Lindbergh oscilou 2 pontos para cima, para 15%, e ainda está no jogo. Mas antes estava em segundo lugar, e hoje está em terceiro.

Chico Alencar, porém, ficou parado em 11% e pode ficar de fora.

A eleição para o governo do Estado, no entanto, traz o pior cenário para a esquerda organizada. Nenhum dos candidatos do campo conseguiu, até o momento, entusiasmar o eleitorado. Tarcísio Motta, do PSOL, o candidato progressista com melhor pontuação nas pesquisas, estacionou em 5%. Pedro Fernandes, do PDT, tem 2%.

Marcia Tiburi, a candidata indicada por Lula para representar um resgate ético e uma renovação política do PT fluminense, viu seus índices de intenção de voto caírem para 1%.

É de se perguntar: onde foi que erramos?

Onde está o Rio que deu vitória a Leonel Brizola por duas vezes nas eleições para governador, onde o PT sempre obteve relevantes vitórias nas eleições presidenciais?

Onde está o Rio que, em 2016, promoveu grandes manifestações contra o golpe, e que, em 2017, organizou enormes manifestações contra a reforma da previdência?

Onde está o Rio de Janeiro que, em 2013, testemunhou manifestações monstruosas contra os partidos tradicionais, em especial contra Sergio Cabral?

Esse é mesmo Rio que, depois de eleger Pezão, sucessor de Cabral, vai eleger Eduardo Paes, que apenas migrou para o DEM para simular descolamento do PMDB?

A situação é tão dramática que o campo progressista fluminense deve, antes de tudo, olhar para si mesmo com muita autocrítica e humildade.

É evidente que, para chegarmos a essa situação, inúmeros erros foram cometidos, alguns de boa fé, alguns inevitáveis, mas certamente há muitos erros que, sobretudo, podemos evitar que se repitam no futuro.

Se a esquerda fluminense quiser oferecer, ao resto do país, uma energia política mais positiva, tem de se reorganizar, e para isso precisará, mais que nunca, dos partidos políticos, porque para isso eles servem.

O PSOL vem crescendo, organizando-se e desenvolvendo vínculos com setores importantes da sociedade fluminense.

Eu queria muito falar sobre o PDT, um partido que ainda pode exercer um grande papel no estado, mas deixemos para outra oportunidade.

O PT merece uma atenção urgente, porque é notório que o nível de organização da legenda está muito abaixo de seu potencial político. O Datafolha nos informa que 18% dos eleitores fluminenses tem preferência partidária pelo PT. Onde estão essas pessoas?

Neste sentido, a candidatura de Marcia Tiburi pode ajudar o partido a se renovar. Um partido político de esquerda, por mais que tenha pretensões de ser um partido popular, de massa, precisa construir núcleos de inteligência.  Precisa organizar publicações, debates, encontros. Precisa de intelectuais. O PT nasceu do encontro entre intelectuais e sindicalistas. Daí surgiu a poderosa química que levou o partido a ganhar tantas eleições e se tornar um dos maiores partidos de esquerda do mundo democrático.

Quando o PT esqueceu essa química, e quando, no Rio, converteu-se num medíocre puxadinho do PMDB local,  ele cometeu suicídio político.

A mau desempenho eleitoral do partido se deve a essa sucessão de erros do passado, alguns dos quais, infelizmente, ainda não se livrou. Dias atrás, por exemplo, Lauro Jardim, do Globo, noticiou que um candidato a deputado pelo PT, Adilson Pires, está fazendo campanha para Eduardo Paes. Para que isso? Pires não vai ganhar a eleição, queimou-se com a Executiva nacional, e ainda trouxe prejuízos à campanha petista para o governo do estado.

Houve notícias também de que a própria direção do partido, através de Washington Quaquá, estaria já fazendo acordos com Eduardo Paes para o segundo turno, mas o próprio Quaquá veio a público negar peremptoriamente qualquer movimento neste sentido.

Eu sou do Rio, moro no Rio e tenho relações de amizade com alguns ativos e ativas militantes do PT. Muitos, sobretudo as mulheres, vêem em Marcia Tiburi, um sopro de esperança para modernizar a estrutura partidária no estado e na capital, deixando-a mais participativa, transparente e conectada com os movimentos de vanguarda.

Eleições são um momento fundamental para um partido político; seus bons resultados, porém, devem ser a consequência de um processo metódico, disciplinado e trabalhoso de organização.

Marcia Tiburi, por sua coragem em assumir a responsabilidade de ser candidata ao governo, num momento adverso, pode ser um bom nome para liderar um movimento de resgate ético e renovação política de uma legenda tão fundamental para a esquerda fluminense.

Talvez só após esse resgate e essa renovação, o PT volte a ter um peso político no estado mais condizente com sua história e seu destino.

 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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10 comentários

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Ana Cínica

14 de setembro de 2018 às 09h55

Nós que somos do Rio e conhecemos um pouco das entranhas políticas do esatdo nos últimos anos não temos esperança na dita “esquerda progressista”. O PT como aliado do PMDB nas secretarias de estado era um terror, demissões injustas, conchavos, funcionários indicados arrogantes e sem qualificação… Quaquá justifica o nome: é uma piada de mau gosto. PDT com Pedro “Profissional” Fernandes filhod e Rosa Fernandes, e político por herança, só fingiu trabalhar quando passou pelas secretarias estaduais: demitiu antigos funcionários de cargos de confiança não-partidários e colocou aliados e futuros colaboradores de campanha (disse que era para enxugar, e aumentou salários dos aliados…). O PSOL parece uma esperança, mas além da baixa penetração nas camadas populares, insiste em discursos muitas vezes vazios e longe do concreto. Tinha esperanças do Chico Alencar como senador, mas as lembranças nostálgicas de um Cesar Maia que parece melhor que um Crivela, e o filho de Bolsonaro, o herdeiro, de literalmente só tem sobrenome, arrasam com a nossa esperança de ter esquerda no senado.
Porém não vejo nenhum partido além do PSOL (com pouco esforço e vigor) falando das eleições de deputados e senadores, onde começaríamos a resolver os problemas… Que adianta sermos de esquerda, se a própria esquerda vira-se e revira-se entre direita, centro e “deita, rola”, como um cão vira-latas adestrado?
PS: aos que tem esteriótipos na mente, sou cristã, sou de esquerda, sou mulher, sou jovem, sou pobre. Não assumam o erro do RJ colocando tudo no caldo do “pobre, direita, evangélico”. É por isso que ninguém dialoga com a esquerda no Rio.

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Pedro Ribeiro

14 de setembro de 2018 às 00h45

O povo tem baixa autoestima intelectual e aí vem a Globo com fake news, os esses pastores evangélicos com a chave do céu na mão, o povão acaba achando que é dando grana pra igreja que a vida deles vai melhorar.

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    Alcantara

    14 de setembro de 2018 às 10h24

    Exato.

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Ademir

13 de setembro de 2018 às 21h51

A resposta é simples: o povo do Rio de Janeiro adora bandidos, faz parte do DNA de cada um que vota em Romário, Eduardo Paes, Pezão, Cesar Canaia; Rodrigo Canaia, Sergio Cabral, Eduardo Cunha…são tão safados quanto seus políticos…nasce um carioca, nasce um potencial bandido.

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Maicon

13 de setembro de 2018 às 16h54

https://www.youtube.com/watch?v=eQQn4CAl-Yw

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Gabriel

13 de setembro de 2018 às 15h02

Na boa, eu fiquei muito #@$& quando o PT lançou a Márcia Tiburi. Ela não é política, não é carioca, não conhece o Rio, não tem experiência, não tem proposta, só devaneios, ideias… a candidata ideal da esquerda maconheira da zona sul. Pra mim foi um tapa do PT na cara do fluminense. Sério, quem acreditou que ela teria chance??

O PT deveria ter lançado o Lindbergh pra governador, o cara tem experiência administrativa, e boa; e fechado com o Chico Alencar pra pegar uma das vagas do senado. Óbvio que o Boçal Jr. vai levar uma vaga… mas o PT não quer abrir mão do seu protagonismo pra nada, e vamos nós afundando o Brasil…

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Luiz

13 de setembro de 2018 às 15h02

Como disputar o discurso político contra o oligopólio midiático criminoso que fuzila o PT dia e noite, sem trégua? Quem destruiu o RJ não foi o PT. Esse discurso de violência pregado por Bolsonaro e seus asseclas não rendeu nenhum dividendo ao povo do RJ que elege esse acéfalo há anos. Seria bom perguntar ao “mito” qual solução para os graves problemas do RJ, ele, como Deputado há mais de 30 anos, resolveu. Essa pegunta deve ser respondida sem paixões. Caso contrário, a eleição de Bolsonaro se deve não há uma estratégia errado do PT, mas à insanidade mental de quem apoia um defensor da violência e do terror.

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Pacheco

13 de setembro de 2018 às 13h55

Ela com 1% no Rio e o Marinho com 4% em São paulo.
Aqui em São Paulo Marinho foi prefeito de São Bernardo umas das 3 cidades mais importantes do Estado onde praticamente estão todas as montadoras de veiculos. Nem assim vai
Chega a ser vergonhoso. Era melhor nao ter lançado candidato e ter apoiado alguem.

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Lucas Almeida

13 de setembro de 2018 às 13h39

E também fica um alerta pro PT se acha q o Haddad vai ganhar de graça os votos do lula. Aqui no Rio o Lula tinha uma votação alta, a Márcia faz toda campanha falando de Lula e não sai de 1%

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JOÃO BATISTA

13 de setembro de 2018 às 13h08

Um presidenre progressista precisará de pelo menos 30 progressistas no senado para evitar um novo golpe parlamentar, que, certamente, será buscado pela direita. O Rio precisa eleger pelo menos um progressista, das duas vagas para senadores nessa eleição. Em alguns estados a direita fará as duas em disputa, além de já ter a terceira vaga.
Quanto à situação do pt no Rio, é consequência do padrão lula de conciliação e republicanismo, em que os fins justificam os meios. Não por acaso, lula e cabral estão na cadeia.
E esse padrão lula de elasticidade moral infinita continua, como vimos nos episódios de Pernambuco, com a cassação da candidatura petista para beneficiar o golpista paulo câmara e seu psb; Alagoas, onde o pt está coligado ao mdb do golpista renan; e no Ceará, onde o pt apoia o golpista eunicio oliveira.

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