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Fonte: Zintoline

BoJack Horseman não é desenho, é terapia

Por Victor Lages

21 de fevereiro de 2019 : 12h07

Victor Lages, pela Fênix Filmes

Fonte: Zintoline

Se você olhar para essa imagem que abre o texto, verá um cavalo vestindo roupas humanas em uma varanda. Mas o que pode parecer mais surreal ainda é perceber que esse cavalo está triste. E, dentre tantos absurdos que poderiam existir nessa imagem, perceber uma emoção em um animal é algo que não vimos desde “A revolução dos bichos”, de George Orwell. Pois bem, essa imagem é de BOJACK HORSEMAN, série animada da Netflix que, com 60 episódios lançados desde 2014, se provou mais que um desenho animado para adultos; são 60 sessões de terapia.

Quem acompanha o mundo das animações, já deve estar cansado de ver o politicamente incorreto em forma de desenho: Homer Simpson é um péssimo exemplo de pai; Peter Griffin de FAMILY GUY é irresponsável e imaturo; todos os personagens de SOUTH PARK xingam e fazem piada com religião. Há diversos exemplos de histórias animadas de pessoas que não possuem o menor senso de moral e ética e que não se importam em quebrar a alma dos demais personagens.

Então, por que BoJack é alguém diferente desses? Pela dor que carrega por ter machucado todas as pessoas ao seu redor em determinado ponto de sua vida e buscar redenção a cada momento, mesmo não conseguindo largar seu egoísmo e sua depressão. Por ser ator de Hollywood que fez sucesso nos anos 90 e, desde então, tentar recuperar sua fama, BoJack é um clássico narcisista do entretenimento. E isso se manifesta com a relação que mantem com seus amigos: Todd, um jovem preguiçoso que mora de favor em sua casa; Diane, uma escritora contratada para escrever sua biografia; Princess Carolyn, sua agente e ex-namorada; e Mr. Peanutbutter, outro ator dos anos 90 que sustenta a persona de ser o cara legal que tenta alegrar qualquer ambiente em que entra.

Fonte: Dotandline

O que contrasta BoJack dos demais exemplos dados anteriormente é sua consciência e o que ela consegue causar para si mesmo. Ele se odeia, olha-se no espelho e sente vergonha, sofre, mas não consegue abandonar suas causas e simplesmente buscar melhorar. Ele impede a própria felicidade e acaba se acostumando com o que é. Quando tenta acertar, faz apenas o que acredita que fará as pessoas gostarem dele. Ou seja, suas motivações são distorcidas pelas “boas” intenções maquiadas de uma necessidade absurda de aprovação constante.

A série acaba escondendo (por vezes, nem esconde) um coração sombrio e solitário, um dos retratos mais honestos da depressão que raramente se vê em outros meios audiovisuais. BoJack anseia por um dia em que toda a dor passe e tudo fique melhor, mas recorre a pílulas e álcool para amenizar seu sofrimento, num ciclo vicioso, tal qual um cavalo de corrida, que faz círculos ao redor e, não importa o quanto corra, sempre voltará ao mesmo ponto.

E talvez essa seja a razão de alguns personagens estarem personificados em animais antropomórficos: tudo é uma caricatura do mundo real, uma satirização do cotidiano de um grande complexo de saúde mental e do ambiente das celebridades. Tal qual Brecht falava sobre o teatro épico, tudo o que acontece em cena é para iludir os espectadores e destruir essas próprias ilusões ao mesmo tempo. Se um personagem usa drogas ou toma um porre em alguma cena, as seguintes são de constante paranoia e alucinações psicodélicas, com uma ressaca recheada de autocomiseração por seus atos.

E é por sua tendência autodestrutiva e baixíssima autoestima que é possível se solidarizar por esse tipo peculiar de anti-herói. Em algum momento da sua vida, você deve ter se sentido desconfortável consigo mesmo, com sentimento de pena por suas atitudes ou se sentindo incondizente no mundo. Por isso, é importante assistir a BOJACK HORSEMAN e quebrar paradigmas pessoais para ver além de animais e personagens híbridos. Se tratarmos cada episódio ambientado nesse universo surrealista apoiando-se nas questões existenciais que a história traz, poderemos encontrar respostas que há muito tempo procuramos.

Fonte: Alternativa42

Uma delas que a série se propõe a responder é que não existe algo como “sentido da vida”. Todos, no desenho e na vida real, estão em busca da felicidade infinita e algo que dê significado à hospedagem pessoal na Terra. BoJack prova que isso é uma grande falácia. Erramos, nos reconstruímos e percebemos o quanto somos imperfeitos.

Por vezes, erramos, não podemos consertar esses erros, mas seguimos, seja com culpa, seja com responsabilidade, seja dando de ombros para os problemas. O fato é que só podemos construir um sentido para as nossas vidas quando aceitamos quem somos e o que podemos fazer nas vidas alheias e dói admitir isso. Mas é esse desconforto de admitir nossas imperfeições que tanto a terapia, quanto BOJACK podem nos trazer.

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7 comentários

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Esdras Santos

03 de março de 2019 às 00h05

Adoro essa série. Bojack retrata bem um típico depressivo crônico, ou distímico, e isso o torna único.

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Pablo

23 de fevereiro de 2019 às 10h18

P.s: Li todo a enquete tomandk um cafe

Gostei muito de Bojack e algo que vc precisa se deixar surprender, pq muitas vezes a serie retrata exatamente como nos sentimos e vemos o mundo e isso e magico, poucas vezes vemos algo tao bem construido e desenvolvido no mundo do entreterimento hj em dia, quem n assistir assista, n vai lhe tornar uma pessoa melhor, na verdade ela nem chega a propor isso, mas com certeza vc vera o mundo de uma forma melhor e mais humanitaria, pq muitas vezes vemos só nossos problemas e esquecemos que tbm existem pessoas cm problema iguais ao nosso.. obg por ler ate aq kkk Paz 👐

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Karen Valentim

22 de fevereiro de 2019 às 05h02

Só eu que li todo o texto com a voz da Diane? 😂😂😂

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    Victor Lages

    22 de fevereiro de 2019 às 13h46

    Hahahaha não é algo surreal, acredite!

    Responder

Paulo

21 de fevereiro de 2019 às 21h36

Nunca assisti, mas parece legal. Só um detalhe, porém: não há hibridismo, o “cavalo” é humano. Percebi isso, nos desenhos de animais (tipo Pernalonga, Pica-pau, personagens Disney e outros), quando ouvi um comentário, não lembro de quem (um americano, talvez crítico de cinema), há uns 10 anos ou mais, que dizia que sentimos “empatia” pelos personagens de animação porque eles são, acima de qualquer caracterização “fenotípica”, humanos, em seus gestos, atos e sentimentos. Parabéns ao Blog por inserir uma matéria (ainda que breve, como deve ser, em um Blog) tão fora da curva da política e do cotidiano avassalador em que vivemos, no Brasil atual!

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Pedro Vítor

21 de fevereiro de 2019 às 20h30

Comecei a assistir a série recentemente, procurando dar um intervalo entre um episódio e outro e, desta forma, absorver tudo. É muito dolorido olhar – e admitir – pra nós mesmo nossas angústias, imperfeições, medos. Mas pode ser libertador. O processo terapêutico tem me ajudado muito e acompanhar a série, sempre me desperta o sentimento de empatia com cada um dos personagens. Gostei muito do seu texto!

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M Xavier

21 de fevereiro de 2019 às 19h04

Um texto maravilhoso sobre a melhor criação da Netflix.

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