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Tudo é político no cinema de Marco Bellocchio

Por Victor Lages

23 de maio de 2019 : 17h34

Victor Lages, pela Fênix Filmes

“Tudo é político! Somos seres políticos independente do nosso engajamento ou não. Meus filmes não devem ser vistos como defesa política. Dentro da história dos personagens têm as questões políticas”, afirmou, certa vez, o cineasta Marco Bellocchio. Diretor da segunda fase do neorrealismo italiano (movimento cinematográfico-cultural caracterizado por histórias sobre a classe trabalhadora/política na Itália pós-Segunda Guerra Mundial, sendo um contraponto à estética fascista); contemporâneo de Bernardo Bertolucci; antigo apaixonado pela agitação provocativa e agora analista psicológico da consciência crítica italiana; 79 anos, sendo 54 de carreira; 50 filmes; atual concorrente à Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2019. São muitos os atributos de Bellocchio, assim como são muito profundas suas obras, as quais destacamos seis que mostram a artéria fundamental do seu cinema: a história, a vida, a política de seu país.

DE PUNHOS CERRADOS (1965), relançado pela Fênix Filmes no Brasil

Ele tinha apenas 25 anos quando criou seu primeiro filme, gravado sem experiência e sem recursos em sua própria casa, mas foi o suficiente para chocar e encantar os críticos do mundo inteiro. Ao trazer a história de um jovem epiléptico que odeia sua família e sonha com a morte de sua mãe cega, Bellocchio mostrou sua raiva juvenil e colocou em sua trama a proposta de abordar a “família disfuncional” enquanto pano de fundo que viraria o símbolo do cinema italiano. O interessante é ver como um pretenso diretor utilizou as possibilidades infinitas do audiovisual para mostrar aos jovens cineastas que só é preciso uma câmera para fazer um filme. “Estava esse roteiro e projeto de filme no qual queria destruir minha família. Por outro lado, precisava pedir dinheiro a meus pais para fazê-lo”, disse em entrevista. E, com essa obra, Roma nunca mais foi a mesma, sendo criado um movimento, um gênero, uma marca de um criador a partir de então, pois não bastava que os italianos fossem angustiados e infelizes; era preciso que eles fossem loucos varridos. Mas, com o tempo, a raiva deu espaço para a sabedoria, assim como suas inclinações esquerdistas dos anos 70 abriram margem para a dor alheia, o sentimento supremo de identificação com a compaixão, que levaram Bellocchio ao século XXI, para falar sobre eventos complicados da história da Itália.

BOM DIA, NOITE (2003)

O filme completou recentemente 15 anos de lançamento, mas a trama se passa na década sessentista, quando Aldo Moro, o líder da Democracia Cristã, foi sequestrado e morto pelo grupo extremista Brigada Vermelha. Mas, como já destacou, depura os elementos políticos o suficiente para enriquecer as histórias que tratam de pessoas; por isso, BOM DIA, NOITE recria o cativeiro de Moro pelo olhar e pela psicologia dos membros que o raptaram, mudando, assim, o foco da ação e evolução seu estilo narrativo.

VENCER (2009)

O mesmo acontece com VENCER, que volta à primeira metade do século do século XX para acompanhar a história real de Ida Dalser, amante de Benito Mussolini, conhecido ditador italiano. Aqui, a proposta do diretor não foi apenas narrar essa personalidade, mas questionar a lenda que o ditador era, partindo da ótica de uma mulher indomável, que não tinha medo de se opor a Mussolini num país dominada pelo tirano. O bonito é ver os pontos de convergência, como o próprio cineasta destaca: “fizeram uma comparação entre Ida e a Itália. Uma Itália encarcerada, ferida, humilhada, violentada”.

A BELA QUE DORME (2012)

Seguindo o estilo bellocchiano, o homem teve, mais uma vez, a audácia de provocar a Igreja e o Estado ao discutir a eutanásia. Aqui, o luto, a dor e a desesperança são contados a partir das vidas entranhadas ao redor de Eluana Englaro, jovem que só pôde ser livrada do coma após 17 anos internada. Dessa vez, focando na mídia, no Parlamento Italiano e na família da moça como seres gravitantes na trama, apresentando uma narrativa tão psicanalista, quanto pessimista que poderiam pertencer a várias “belas adormecidas” mundo afora.

SANGUE DO MEU SANGUE (2015), distribuído pela Fênix Filmes

Criticando igualmente a Igreja e a Itália, Bellocchio reuniu tradicionalismo e inovação para falar sobre Federico, um homem que é confundido com seu irmão gêmeo padre e é seduzido pela freira Benedetta, que acaba condenada a ser murada viva. Apesar de já termos visto isso em O CRIME DO PADRE AMARO e O NOME DA ROSA, o diretor consegue pegar uma história de padres livrando a instituição para demonizar uma relação de amor e culpa da mulher e dar uma estética belíssima de crítica ao moralismo doentio da religião e à sinistra aliança dos poderes mundanos.

O TRAIDOR (2019), coprodução entre Itália, Brasil, Alemanha e França, que será distribuído no Brasil pela Fênix Filmes e Pandora Filmes

Baseado na história real de Tommaso Buscetta, o longa conta a trajetória do mafioso, o primeiro do alto escalão a se transformar em informante no caso do Maxi-Processo contra a Cosa Nostra. Mas não se confunda. Esse é um filme legitimamente de Marco Bellocchio, que está concorrendo à Palma de Ouro no Festival de Cannes desse ano. Por isso mesmo, aqui, o que temos é uma investigação antropológica sobre a traição como um rito, como disse: “Não é o mafioso que me interessa. É o sujeito por trás dos crimes. Quero que O TRAIDOR seja um filme sobre escolhas e também um filme sobre as pessoas que pagam o preço pelas decisões que tomamos”.

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