Lançamento do livro “Lawfare: uma introdução”, com Lula

Arte: Dafne Ramos

Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará

Por Pedro Breier

06 de julho de 2019 : 17h28

O karma é um conceito mais complexo do que é comumente entendido. Segundo a linha budista theravada, por exemplo, o que sentimos diante de determinado acontecimento é o karma, e não o acontecimento em si.
Porém, o entendimento popular, manifestado em ditados como “tudo que vai volta”, “o plantio é livre mas a colheita é obrigatória” ou “quem semeia vento colhe tempestade”, não se afasta tanto assim do conceito mais aprofundado.

É quase inevitável pensar no karma quando se contempla a explosão atômica provocada pela Vaza Jato. As ações agora reveladas de Sergio Moro, Deltan Dallagnol, Carlos Santos Lima e outros agentes públicos os colocaram na incômoda posição de vítimas de procedimentos dos quais usaram e abusaram – ênfase no abusaram. É como diz aquele outro ditado popular que remete ao karma, “quem com vazamento fere, com vazamento será ferido”.

Há, entretanto, uma brutal diferença de qualidade entre os vazamentos clandestinos rotineiros na Lava Jato e a divulgação do material feita pelo The Intercept Brasil: enquanto a Lava Jato violava a Constituição e as leis ao vazar delações não homologadas e sem provas dos fatos, a Vaza Jato está protegida pela Lei Maior, que garante o sigilo da fonte e a liberdade de imprensa.

Outro exemplo de que os ex-heróis estão provando do próprio veneno é a maneira escolhida por Glenn Greenwald e sua equipe para divulgar o material: um torturante conta-gotas. A Lava Jato acostumou-se a comandar a agenda política nacional com espalhafatosas operações – “Não é muito tempo sem operação?”, pergunta Moro a Dallagnol em uma das primeiras conversas reveladas. Agora é o Intercept quem controla o tempo da política brasileira. Melhor dizendo, com a divisão do material com outros veículos como Folha e Veja, é a Vaza Jato quem dita o ritmo da luta política.

A questão da autenticidade do material já estava resolvida com a reação de Moro e Dallagnol. Reparem neste trecho da primeira nota de Sergio Moro sobre as conversas reveladas:

Quanto ao conteúdo das mensagens que me citam, não se vislumbra qualquer anormalidade ou direcionamento da atuação enquanto magistrado, apesar de terem sido retiradas de contexto e do sensacionalismo das matérias, que ignoram o gigantesco esquema de corrupção revelado pela Operação Lava Jato.

As insinuações de que o conteúdo das mensagens poderia ter sido alterado viriam somente mais tarde. De todo modo, o fato de Moro e Deltan sustentarem que não há nada de mais em suas conversas flagrantemente promíscuas e ilegais é, por si só, uma forte evidência da autenticidade do material. Ao minimizar o conteúdo, a dupla dinâmica admite ao menos que pode ter conversado nos termos íntimos revelados pelo vazamento – o que já é um escândalo. Tanto é assim que Moro insiste em dizer que “não lembra” e jamais nega o conteúdo.

Vão surgindo, contudo, evidências incontestáveis de que o material é verdadeiro.

* A Folha afirmou, após ter acesso aos arquivos, que não detectou qualquer indício de que as conversas possam ter sido adulteradas. Ainda, repórteres do jornal conferiram seus históricos de mensagens e afirmaram que suas conversas batem com trechos constantes nos arquivos obtidos pelo Intercept. 

* A revista Veja, em matéria divulgada na última sexta (5), é peremptória: “Palavra por palavra, as comunicações examinadas pela equipe são verdadeiras e a apuração mostra que o caso é ainda mais grave. Moro cometeu, sim, irregularidades”. Assim como na Folha, repórteres da Veja conferiram suas trocas de mensagens com procuradores e as conversas coincidiram “palavra por palavra”. Outra confirmação que aparece na reportagem, esta bastante inusitada, é a de Fausto Silva. Sim, em um surreal plot twist, o apresentador da Globo aparece nos diálogos. Moro escreveu a Deltan o seguinte: “Ele (Faustão) disse que vcs nas entrevistas ou nas coletivas precisam usar uma linguagem mais simples. Para todo mundo entender. Para o povão. Disse que transmitiria o recado. Conselho de quem está a (sic) 28/anos na TV. Pensem nisso”. Procurado pela Veja, Faustão confirmou que teve a referida conversa com Moro. Ô loco, meu. 

* Há atos da Lava Jato que coincidem, temporalmente, com as orientações de Moro a Deltan Dallagnol. Por exemplo: a procuradora Laura Tessler, após ser criticada por Moro em mensagem privada a Dallagnol, não mais participou de audiências relacionadas ao processo do tríplex do Guarujá. Dallagnol correu a falar sobre a crítica de Moro ao procurador Carlos Santos Lima. Ambos combinam de não mencioná-la na próxima reunião sobre estratégia de inquirição e, como fossem um casal que recém trocou nudes, apagam as mensagens, avisando-se mutuamente. Na matéria da Veja linkada no parágrafo anterior, ficou demonstrado de forma cabal que diversas orientações de Moro sobre datas de operações, prazos processuais e até mesmo provas faltantes (!) foram seguidas à risca pelos procuradores da Lava Jato. 

* Após a oitava matéria do Intercept sobre a Vaza Jato, na qual são reveladas críticas de procuradores da Lava Jato a Moro, um procurador falou ao Correio Braziliense, sob a condição de anonimato, que as mensagens divulgadas são verdadeiras.

Não esqueçamos que, segundo Glenn, há muito mais munição de onde vieram as primeiras bombas; as confirmações de veracidade tendem a aumentar na mesma proporção.

Vencidas as preliminares, passemos ao mérito.

São constrangedoras as declarações (nem tão) antigas de Moro e Dallagnol as quais depõem contra sua patética tentativa, em conjunto com a Rede Globo, de transformar o vazamento, e não o material vazado, em notícia. Antes, o interesse público pelas informações suplantava o direito à privacidade dos alvos da revelação. Agora que os algozes viraram alvos, o conteúdo não importa, mas sim a ação de um suposto hacker. 

Refresquemos nossa memória.

No dia 16 de março de 2016, Dilma anunciou a nomeação de Lula para o ministério da Casa Civil. Algumas horas depois, Sergio Moro levantou o sigilo sobre áudios de Lula que haviam sido captados por meio de grampo. Inclusive o áudio que envolvia a presidenta da República, o qual Moro não tinha competência legal para divulgar por ser um simples juiz de primeiro grau. Além disso, o áudio entre Lula e Dilma foi captado após o despacho do próprio Moro que ordenava a suspensão dos grampos. Ou seja, não havia mais autorização judicial para a interceptação. 

À noite, ainda naquele fatídico 16 de março, o Jornal Nacional apresentou uma de suas edições mais canalhas da história – um feito, considerando a forte concorrência – com Willian Bonner e Renata Vasconcellos fazendo caras e bocas para lerem uma infinidade de diálogos privados de Lula, muitos dos quais sem nenhuma relevância política ou jurídica. O objetivo da interpretação canastrona dos atores improvisados era passar a imagem de que Lula agia para barrar a Justiça, personificada então no herói Moro. 

A patacoada deu certo.

Uma histeria antipetista violenta tomou as ruas de algumas grandes cidades e o clima ficou propício para Gilmar Mendes, à época baluarte da direita, barrar a nomeação de Lula e matar no nascedouro a última jogada que tinha alguma chance de evitar a queda do governo eleito pelas urnas em 2014.  

O problema não era a captação do diálogo e a divulgação do diálogo, mas o conteúdo do diálogo em si

, disse Moro em uma entrevista a Pedro Bial sobre o famigerado áudio entre Lula e Dilma. O conteúdo do diálogo com Dilma era uma conversa sobre o termo de posse, interpretada elasticamente para caber na narrativa novelesca em que Lula era um vilão em fuga. A captação e a divulgação do diálogo tinham, na verdade, diversos problemas. Do contrário, Moro não pediria “escusas” ao STF pouco tempo depois. 

Quanto ao material que incrimina Moro, não consta que há autoridade incompetente por trás da sua divulgação. O conteúdo, por sua vez, é a prova escancarada do conluio abjeto entre acusação e julgador no caso Lula, conforme denunciado incessantemente há anos por inúmeros sites e blogs não alinhados à grande mídia. Enquanto veículos como O Cafezinho e tantos outros eram atacados como “petistas” ou “defensores de corruptos” por não se calarem diante do arbítrio e da injustiça – por fazerem jornalismo, enfim – a grande mídia agia como sócia da Lava Jato no seu projeto político disfarçado de operação policial. Em conluio com Moro e com os procuradores, que vazavam delações a torto e a direito para que a reputação dos políticos inimigos fosse assassinada aos poucos, a imprensa conservadora avalizou as atrocidades cometidas em Curitiba para, por meio de um golpe e da prisão de Lula, recolocar os amigos no poder central.

Acho questionável pois melindra alguém cujo apoio é importante

, escreveu Moro a Dallagnol sobre uma possível operação que atingisse Fernando Henrique Cardoso. Os amigos de Moro, dos procuradores e da imprensa de direita eram, que surpresa, os tucanos. E o ex-juiz tem a cara de pau de dizer que não vê nada de mais em aberrações morais e jurídicas desse naipe. Se a hipocrisia e o cinismo tiverem um filho, o nome dele será Sergio Moro.

Ao final, não foram os amigos do PSDB que chegaram lá. Quem pegou o atalho para o poder – aberto a golpes de autoritarismo pela Lava Jato – foi o indizível Jair Bolsonaro. Não se pode usar ódio, golpismo, mentira e autoritarismo como armas na guerra política e pretender controlar os resultados. 

Há alguns dias, Moro posou de erudito no Twitter em mais uma tentativa de minimizar as revelações da Vaza Jato: “Um pouco de cultura. Do latim, direto de Horácio, parturiunt montes, nascetur ridiculus mus”. A montanha pariu um rato. Na entrevista que deu a Pedro Bial, perguntado sobre qual último livro que leu, Moro franziu a testa, sorriu amarelo, fez força mas não se recordou. Assim como não se recorda dos diálogos travados com seu amigo íntimo Deltan – alguém providencie fosfosol para o rapaz.

Embrigado por sua ambição desmedida, Moro não se fez de rogado e aceitou o cargo de ministro do governo de extrema direita eleito em 2018. Não se importou em tornar ainda mais evidente a politicagem que sempre infestou a Lava Jato como cupins infestam madeira velha – preocupação manifestada por procuradores na mais recente reportagem da Vaza Jato publicada pelo Intercept. O fato de a esposa de Moro ter comemorado a vitória de Bolsonaro nas redes sociais é definido como “erro crasso” pelo procurador José Robalinho Cavalcanti, que complementa: “Compromete moro. E muito”. Pois é. 

Se, em vez de tentar parecer culto, Moro dirigisse seu esforço para o hábito de ler, talvez pudesse aprender com os mitos da história da humanidade e, assim, ter mais cautela. Na mitologia grega, Ícaro escapou do labirinto de Creta voando, com asas construídas por seu pai, que também estava preso. Seu pai lhe alertou para não voar perto do sol, pois as penas das asas estavam coladas com cera de abelha e o sol as derreteria. Ícaro não deu ouvidos ao conselho do pai e quis voar mais e mais alto. Como costuma acontecer com aqueles que são dominados pela ambição, despencou.

A maioria dos veículos de mídia conservadores, os quais ajudaram a construir o mito do super herói do combate à corrupção, perceberam o tamanho da queda que se avizinha e pularam fora. Folha e Veja inclusive juntaram-se ao Intercept na análise e divulgação do gigantesco arquivo vazado.

Quem permanece abraçada a Moro, por enquanto, é a Rede Globo. Uma postura definitivamente arriscada, diante da gravidade das revelações e da provável enxurrada de mensagens comprometedoras que ainda virá à tona.

Mas por que a Globo estaria adotando esta linha?

Pode ser uma questão de controle de narrativa. A Globo, comandante das hostes midiáticas da direita, é a grande responsável pela ascensão de Moro. É razoável supor que a empresa dos Marinho só abandonará a sua cria quando não houver outra alternativa. Além disso, ficar a reboque das revelações de um site esquerdista – que promete monopolizar a agenda política pelos próximos meses – deve ser um acinte para quem está acostumado a direcionar a atenção do público para onde lhe interessa política e economicamente.

Pode ser também que a Globo esteja com medo de que o material em poder de Gleen Greenwald respingue nela. Com sua ligação umbilical com a Lava Jato, não é um devaneio imaginar que há mensagens comprometedoras para a vênus platinada. Um indício que fortalece esta hipótese é um trecho de uma nota publicada no The Intercept por Leandro Demori e Glenn Greenwald, especulando sobre as razões pelas quais a Globo embarcaria na narrativa dos “hackers criminosos”:

Já imaginou se toda a imprensa entrasse numa cruzada para tentar descobrir as fontes das reportagens de todo mundo? A quem serve esse desvio de rota? Por enquanto nós vamos chamar só de mau jornalismo, mas talvez muito em breve tudo seja esclarecido. Nós já vimos o futuro, e as respostas estão lá.

Os mandachuvas da Globo devem ter sentido calafrios ao lerem este singelo parágrafo.

Nesta semana, Moro compareceu à Câmara dos Deputados para dar explicações e seguiu com sua estratégia “atirar pra todo lado”. Os vazamentos são criminosos, ele não lembra se falou o que está sendo divulgado mas, se falou, não há nada de mais nos diálogos. Patético.

Em um áudio enviado aos integrantes do MBL – a quem Moro chamou de”tontos” em uma conversa na qual pedia para Dallagnol conter as ações tresloucadas do grupo – o ex-juiz demonstra todo o ridículo de sua estratégia de defesa. Ouça clicando aqui e sinta uma das maiores vergonhas alheias da sua vida. “Consta ali um termo que não sei se usei mesmo, acredito que não, pode ter sido adulterado, mas queria dizer, assim, pedir minhas escusas se eu eventualmente utilizei”. Me vejo obrigado a repetir o adjetivo porque ele define com exatidão esse “pedido de escusas”: patético.

Se Moro é um gatinho manhoso com o MBL, com Glenn o ministro ameaça colocar suas garras de fora. O site Antagonista, porta-voz da Lava Jato e de Moro, divulgou que a Polícia Federal pediu ao COAF um relatório das atividades financeiras de Glenn Greenwald. Perguntado sobre o assunto quando esteve na Câmara, Moro não respondeu. Se confirmado, é um caso clássico de um poderoso usando seu cargo público para perseguir um desafeto político. Quem imaginaria que o medieval juiz Moro faria algo assim quando investido de mais poder, não é mesmo?

Deixar ainda mais evidente sua face autoritária é uma atitude positivamente estúpida e que demonstra bem o grau do desespero que acomete Moro. Desespero este que ficou patente desde a primeira vez em que o ministro disse que não havia nada de mais no conteúdo dos diálogos.

Basta uma superficial leitura dos diálogos entre Moro e Dallagnol para perceber que sua relação é íntima: “Ficou ótima a decisão”, diz Deltan a Moro. Promíscua: “Diante dos últimos desdobramentos talvez fosse o caso de inverter o ordem da duas (operações) planejadas”, diz Moro a Dallagnol. Pornográfica: “O que acha dessas notas malucas do diretório nacional do PT? Deveríamos rebater oficialmente?”, pergunta Moro ao seu parceiro. “E parabéns pelo imenso apoio público hoje. Você hoje não é mais apenas um juiz, mas um grande líder brasileiro”, baba Deltan. Que lindos. Um é tornozelo, o outro pogobol, como diz a canção

Considerando que Dallagnol representa a acusação, ou seja, uma das partes do processo, e Moro é o juiz, que, conforme a lei e o mais rudimentar bom senso, deve ser imparcial, afirmar que não há nada de mais nessa simbiose entre juiz e acusação é puro e simples desespero. Como a imagem de Moro foi construída sobre o antagonismo com Lula, uma das tarefas principais do campo democrático é explicar para as pessoas o quão absurda é  uma tabelinha entre o juiz e uma das partes do processo. 

Perguntado pelo Estadão se também repassou informações à defesa, Moro disse o seguinte:

Chegavam muitas informações, aquilo lá tinha virado uma caixa de ressonância pela publicidade das informações. Tudo que chegava que era relevante, ou a gente encaminhava para a polícia ou Ministério Público, seja lá se a informação eventualmente beneficiava defesa ou acusação. O que importa é o descobrimento da verdade.

Ou seja, não passou. Mas nem precisava admitir dessa forma. Abordar o procurador Carlos Santos Lima horas após o depoimento de Lula e sugerir que o MPF soltasse uma nota, além de escrever jocosamente que a “a defesa já fez o showzinho dela”, é suficiente para que a manutenção de sua pose de imparcialidade seja apenas ridícula. Lula foi condenado por um juízo viciado, parcial, político.

Em bom futebolês, por um juiz ladrão, como bem definiu o deputado Glauber Braga. Penso ser esta a melhor analogia para tratarmos da questão com a parcela da população que está em disputa. Quem era morista mas foi capaz de adotar uma postura minimamente ponderada diante dos últimos acontecimentos já pulou da canoa furada lavajatense. Os fanatizados, por sua vez, tendem a manter sua posição – inclusive se Moro admitir seus crimes e pedir “escusas”. Há um enorme contingente de pessoas, contudo, que ainda crê na santidade de Moro por não perceber o grave problema da tabelinha entre juiz e acusação. Discorrer sobre o assunto usando a clássica figura futebolística do juiz ladrão me parece uma boa estratégia argumentativa.

O partidarismo dos integrantes da Lava Jato – incompatível com suas funções públicas e com seu discurso – fica patente em diversos outros trechos do material divulgado. Um dos mais abjetos é quando Deltan sugere uma denúncia contra o petista Jaques Wagner “por questão simbólica”. A abertura de um processo penal é dos atos mais gravosos que o Estado pode cometer contra um cidadão. Embora fosse presumível, a comprovação de que agentes públicos agem com tamanha leviandade é chocante.

Deltan tinha pressa porque Wagner seria empossado senador e a Lava Jato deixaria de ter competência para processá-lo. “Isso é urgentíssimo. Tipo agora ou nunca kkkkk”, escreveu Deltan em um grupo de procuradores. Uma pessoa processada criminalmente por capricho político de um servidor público é engraçado demais, não é? Toda a desmoralização, o abalo na reputação (ainda mais sendo uma pessoa pública), os danos psicológicos para si e para família. “Kkkkk”.

Em outro trecho revelado de conversas entre membros do Ministério Público, o procurador Paulo Galvão fala para seu colega Roberson Pozzobon sobre a data da operação pedida pelo “Russo” – apelido de Moro decifrado por Rogerio Dultra dos Santos – nos seguintes termos: “uma grande operação por volta desta data seria o ideal. Ainda é próximo da proclamação da república. rsrs”. A Lava Jato de fato usava datas como a da proclamação da República para incrementar o simbolismo de suas operações. Risos, muitos risos.

De um lado, jogadas combinadas, uso da justiça para perseguição política e risadinhas. De outro, e como resultado, um governo democraticamente eleito deposto por um golpe, grandes empresas e cadeias produtivas quebradas, o desmoronamento da economia, milhões de empregos ceifados, milhões de pessoas sofrendo com a pobreza e a miséria e, cereja do bolo, a ascensão da extrema direita ao poder. A Lava Jato é, sem sombra de dúvidas, um dos episódios mais sinistros da história brasileira.

Este artigo já está bastante longo, eu sei, mas não posso deixar de citar mais duas gracinhas desmistificadoras dos integrantes da Lava Jato.

A primeira, a relação com os ministros do STF Luiz Fux e Edson Fachin. Deltan conversou com os dois, ficou animado e foi, é claro, correndo contar para os parceiros. “In Fux we trust”, exultou Moro. Sobre Fachin, Dallagnol escreveu para seus colegas procuradores um constrangedor “Aha uhu o Fachin é nosso”. A molecagem desmonta o argumento de que tribunais superiores validaram as decisões de Moro. Qual a isenção de ministros como Fux e Fachin para revisar os processos da Lava Jato?

Outra peripécia da dupla dinâmica foi a conversa sobre a delação de Eduardo Cunha, que teria um evidente potencial explosivo. Moro deixa bem claro para Dallagnol que é “contra”, muito embora não tenha atribuição legal para se intrometer na negociação das delações. Deltan, sempre obediente, não fechou a delação com Cunha. A narrativa do paladino do combate à corrupção ganha um profundo arranhão com a revelação desta história.

Muitos outros detalhes escabrosos foram divulgados e muitos mais ainda serão. Mesmo que soubéssemos há tempos dos crimes (mal) escamoteados sob a aura pura da Lava Jato que foi vendida à sociedade, é assustador constatar o nível estratosférico da promiscuidade.

E quanto ao futuro? 

Uma primeira questão é quando Sergio Moro cairá. Não estivéssemos sob o governo de um completo desqualificado, isso já teria acontecido. Pelo mesmo motivo é complicado prever quando e até mesmo se o ministro da Justiça será demitido. A divulgação de áudios pode ser um momento chave. Glenn Greenwald, que teve acesso a todo o material, vem afirmando que acha difícil que Moro permaneça no cargo.

O foco da esquerda, todavia, deve ser mais profundo e consequente do que a queda do ministro – esta indispensável, por óbvio. Dois eixos principais de combate se impõem a partir dos escombros da Lava Jato: mudanças no quadro jurídico e democratização da mídia.

Há que se pensar em mecanismos legais para evitar que seja possível a um simples juiz de primeiro grau causar tamanho estrago na vida política, econômica e democrática do nosso país. Um bom exemplo é a adoção do juiz das garantias, um magistrado que atue na fase de investigação e seja impedido de participar do processo após oferecida a denúncia pelo Ministério Público. A ideia é que dois juízes atuem no processo criminal: o juiz da fase de coleta de provas e o que dará a sentença são diferentes. Justamente para evitar que o juiz que vai julgar o caso se envolva demais nas diligências e acabe tomando partido antecipadamente.

Não que este mecanismo legal fosse capaz de deter o furor tucanobolsonarista de Moro; no entanto, os danos causados pelo ativista de direita disfarçado de juiz seriam consideravelmente menores se ele não fosse o responsável por todas as fases do processo. Além disso, Sergio certamente figuraria no topo de um hipotético ranking da parcialidade de juízes, ou seja, a figura do juiz de garantias deve funcionar como um reforço à imparcialidade para a maioria dos magistrados.

A Câmara resolveu retomar o andamento do projeto de lei sobre o tema após a Vaza Jato, por motivos óbvios. Moro é contra, por motivos igualmente óbvios. 

A velha e boa democratização da mídia se mostra igualmente fulcral. Até quando a sociedade brasileira aceitará que a Globo e demais órgãos de imprensa conservadores manipulem a opinião pública a seu bel prazer, sempre de acordo com seus interesses radicalmente antipopulares? Sem o poderio do oligopólio midiático, que atuou em conluio com a Lava Jato com força, peso e decisão, uma corrupção desta monta do sistema de justiça não seria possível.

Pois é, corrupção. Esta palavra – que, de tão usada para fins escusos, foi se tornando banal e surrada – aplica-se à perfeição para o que a Lava Jato fez com o sistema de justiça. Como costuma acontecer na história da humanidade, os moralistas são, na verdade, os grandes corruptos e corruptores. Assim cantava Vinicius de Moares no Canto de Ossanha: “O homem que diz sou / Não é / Porque quem é mesmo é / Não sou”.

Estamos há alguns anos imersos em uma torrente de acontecimentos políticos históricos. Estar no olho do furacão dificulta análises de longo prazo, mas sobre a Vaza Jato podemos afirmar, sem medo de errar, que trata-se de um escândalo divisor de águas. O abalo sísmico provocado no discurso da direita é tamanho a ponto de ter potencial para ser o marco de uma inflexão na disputa entre os espectros políticos. Talvez estejamos presenciando o início da derrocada do discurso protofascista – e a velocidade do desmoronamento (sem trocadilho) dependerá da qualidade das estratégias adotadas pela esquerda.

Muitas tradições espirituais e esotéricas afirmam que estamos vivendo uma época de profundas mudanças no planeta, um período em que nada pode permanecer nas sombras por muito tempo. Talvez esteja aí o motivo pelo qual o karma atuou de forma tão diligente em relação à Lava Jato.

Uma explicação mais cética seria o fato de que vivemos em um mundo quase que inteiramente conectado pela internet. Num tempo em que as tecnologias de comunicação interpenetram quase todos os espaços das nossas vidas, o que antes era feito às escondidas tornou-se quase impossível de ser mantido fora do alcance do público. 

De qualquer forma, acredite você em karma ou não, a verdade parece mesmo ser uma força da natureza que, cedo ou tarde, se impõe. E, qualquer que seja a explicação adotada, assistir à exposição das podres entranhas da Lava Jato, uma operação que desencadeou tantas desgraças em nosso país, é de lavar a alma.

Bolsonaro usou cinicamente, na eleição de 2018, a frase “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. O original é de outro messias, Jesus Cristo, quase um oposto perfeito do Jair Messias.

Um messias às avessas só poderia fazer uma profecia invertida. A verdade nos libertará da hipocrisia, da injustiça e do autoritarismo tão bem representados na figura lamentável de Sergio Moro.

 

 

Pedro Breier

Pedro Breier é graduado em direito pela UFRGS e colunista do blog O Cafezinho.

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11 comentários

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Admar

07 de julho de 2019 às 12h35

Rato Moro comete crimes e a culpa é de quem denuncia ele!!!😝😛🤑😂😖🐦😳😡😤

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Alexandre Neres

07 de julho de 2019 às 10h59

Sem comentários. Nada a declarar. Falou e disse. Voto com o relator.

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Marcelo Correa

07 de julho de 2019 às 08h56

A lógica dos vermelhos é que tudo é valido para libertar um criminoso da quadrilha petista, inclusive transformar vazamentos clandestinos, divulgados por mídias esquerdistas, em vazamentos legais. Pouco importa que Glenn seja um agente criminoso e um mentiroso a serviço da libertação de Lula.

Responder

    Wellington Muniz

    09 de julho de 2019 às 09h12

    Marcelo. Você tenta escorregar como o próprio Moro, que é o personagem principal da matéria. Passarinho que voa com morcego dorme pendurado também. Arrependa-se: o fim de vocês, hipócritas, está mais próximo agora.

    Responder

    Jardel

    11 de julho de 2019 às 00h54

    Bem, cidadão, pra que chama a Veja, a Folha de SP, a Bandnews e o Correio Brasiliense de “midias esquerdistas” não dá pra dar atenção. Desculpe.

    Responder

Jardel

07 de julho de 2019 às 05h38

Parabéns pela excelente matéria!
Moro não quis melindrar o FHC e nem saber da delação do Cunha, antes mesmo de sequer conhecer o conteúdo da delação.
Que cazzo de “combate à corrupção” seria esse?
Moro é um FARSANTE IRRESPONSÁVEL!
Com essa “brincadeira” a D. Marisa morreu e o Brasil não teve o direito de eleger seu candidato preferido.
Pra completar a tragédia, ignorantes elegeram um fascista débil mental que promete levar o país ao abismo.

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João Diógenes

07 de julho de 2019 às 04h22

Valeu ler cada palavra.

Responder

    Benoit

    07 de julho de 2019 às 09h23

    Concordo inteiramente. O juiz e o decorrer do julgamento foi um dos meus principais temas aqui durante muito tempo. Fiz uma vez uma lista dos prêmios e homenagens que ele recebeu durante esse tempo, o que me parece inacreditável. Os prêmios eram políticos e ele recebia as homenagens e os prêmios em função da perseguição que ele movia contra o Lula. Um juiz não pode aceitar nada disso. A partir desse momento ele tinha um interesse na condenação do réu porque era ela que justificava todos os prêmios. Era claro que ele tinha ambições pessoais, que estava promovendo a sua carreira. Mas ao mesmo tempo a sua carreira era de natureza política. Por isso a perseguição ao Lula culminou com um posto de ministro em um governo de extrema direita que era inimigo declarado do Lula e que se definia primariamente a partir dessa inimizade. Com o posto de ministro ele realizava a síntese das suas ambições pessoais e políticas.

    Não há dúvidas, a passagem de Moro de juiz de provincia de primeira instância para ministro da justiça se deve ao processo e à condenação do Lula. O processo nunca foi um processo aberto com resultado imprevisível. Ele não foi conduzido por um juiz isento e imparcial simplesmente cumprindo a sua tarefa profissional, mas sim por um juiz militante atuando politicamente. O resultado já estava decidido de antemão, o que ficava claro na atitude hostil do juiz, nas diversas irregularidades que foram sendo cometidas durante o processo. Não era preciso esperar os vazamentos do G.G. para ver isso.

    Também sempre disse que os julgamentos eram simplesmente inválidos e tinham que ser anulados.

    Responder

    Pedro Breier

    08 de julho de 2019 às 17h36

    Muito obrigado, João!

    Responder

Marcio

06 de julho de 2019 às 21h54

Barbudinho… passou da hora de você começar a se achar ridiculo…vai te fazer bem.

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Admar

06 de julho de 2019 às 21h41

Como se diz no Sul: Esse juiz e seus procuradores são verdadeiros “Porra Loucas”!

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