Discutir alianças para 2020 é botar o carro à frente dos bois

Segundo reportagem do Globo publicada hoje, o ex-presidente Lula tem orientado o partido a construir o máximo possível de candidaturas próprias, incluindo cidades onde havia negociações avançadas em torno de apoio a outras legendas, como no Rio de Janeiro.

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O raciocínio de Lula faz sentido, ainda mais para quem pensa como ele. Numa de suas primeiras entrevistas na prisão, o ex-presidente afirmou que o PT “é o único partido que existe nesse país. O resto é sigla de interesses eleitorais em momentos certos”.

Por outro lado, esse debate em torno de alianças sempre foi prematuro. Não faz sentido fechar alianças com mais de um ano de antecedência. 

O que os partidos poderiam fazer – e não estão fazendo – seria construir plataformas de debate, núcleos de estudo, clubes de leitura, centros de planejamento estratégico; desenvolver, enfim, ações de inteligência, que ajudassem o campo a entender melhor o estado de espírito das diferentes classes brasileiras, assim como desenhar soluções teóricas e práticas para os problemas nacionais.

Não há nenhuma iniciativa concreta para se levar diante um movimento de convergência programática, apenas algumas ações isoladas, palacianas, em que alguns líderes exibem selfies ou assinam juntos artigos de opinião (com as obviedades de sempre) para mostrar ao público.

O saudoso professor Wanderley Guilherme dos Santos, cujo corpo foi velado hoje no cemitério do Caju, explicava que uma das razões da massacrante derrota do PT nas eleições municipais de 2016 teria sido justamente a diminuição da oferta de candidaturas.

Então talvez seja mesmo melhor cada partido, hoje, desenvolver suas próprias estratégias eleitorais, mas deixando em aberto, para o futuro, eventuais alianças, no primeiro ou segundo turnos, a depender das circunstâncias de cada município. 

No caso do PT, a legenda enveredou por um caminho, já nas eleições de 2018, que lhe rendeu bons resultados, embora, com a vitória de Bolsonaro quase no primeiro turno, não se possa dizer o mesmo do país. Esse caminho, muito centrado em torno da campanha pela liberdade do ex-presidente Lula, cria algumas dificuldades para construir alianças com outras legendas.

Como, ao que tudo indica, Lula sairá da prisão em breve, os diálogos interpartidários ganharão outra química. Como dizia Jaguar, ao defender a legalidade do Partido Comunista (a citação é do Milton Temer), de que ele fazia isso para poder criticá-lo sem culpa, a liberdade do ex-presidente pode ter esse mesmo efeito salutar, de dessacralizar sua figura, permitindo que a crítica às suas escolhas seja encarada com mais normalidade.

 

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