Live do Cafezinho (18h): o que acontecerá à Lava Jato?

Ocupações com maior intensidade em pesquisa (e maiores salários) perdem participação no Brasil

Por Redação

13 de fevereiro de 2020 : 12h40

SOBRE A MÁ ALOCAÇÃO DE RECURSOS E OUTRAS BOBAGENS

Por Nelson Marconi, economista da FGV

A equipe econômica continua mostrando a que veio e desmontando todas as possibilidades de crescimento sustentado com a geração de bons empregos. Nas últimas semanas anunciou que vai liberar o uso de imóveis como garantia de crédito (medida essa que contribuiu para a crise dos subprimes nos EUA); ofendeu e desmotivou todos os servidores públicos; aceitou a perda da condição de país em desenvolvimento na OCDE, o que nos concedia uma série de vantagens tarifárias e negociações comerciais; disse que vai desmontar um dos principais instrumentos de política industrial utilizado no mundo inteiro, as compras governamentais de produtos locais; e, não satisfeito, disse que o país vai voltar a crescer por tudo isso e porque não haverá mais a “má alocação de recursos” que o governo promove. De novo, estão querendo jogar o bebê fora junto com a água do banho.

Vamos conferir então o que configura, realmente, uma má alocação de recursos. A tabela abaixo mostra a evolução da participação percentual de cada setor no total de ocupações (conceito mais amplo que emprego) no Brasil entre 2010 e 2017, e o valor da remuneração média anual em cada um destes setores em 2017 (como os dados são das Contas Nacionais, não é possível mostrar dados mais recentes). Nota-se claramente que praticamente metade das ocupações encontra-se nos setores de serviços de baixa intensidade tecnológica (seguindo a classificação da OCDE) e que praticam, por consequência, baixas remunerações. Além disso, a participação das ocupações nestes setores tem crescido. Em contrapartida, os setores mais dinâmicos da economia (indústria de transformação de média-alta e alta tecnologia e serviços modernos) exibem pequena participação na ocupação, e ainda por cima decrescente nos últimos anos.

Essa sim é a má alocação de recursos e, a depender apenas do mercado, os recursos continuarão se direcionando aos setores mais rentáveis, que não são, no caso brasileiro, os mais dinâmicos citados acima. O que se vê no mundo inteiro é a retomada de políticas industriais para estimulem os ganhos e a rentabilidade dos setores que são mais importantes para cada economia, seja em relação à geração de tecnologia ou de empregos de qualidade de modo a expandir a chamada classe média. O que o nosso governo do atraso está fazendo é o contrário do que está ocorrendo no mundo: eles estão abrindo mão, de forma simplória, de qualquer intervenção do Estado na economia, ou em outras palavras, de uma estratégia de desenvolvimento que associe ações públicas e privadas e se faz necessária para um país em nosso estágio de estrutura produtiva e renda per capita. E ainda tem gente que acha lindo crescer 1% ao ano, situação em que nos encontramos há 3 anos, caminhando para o quarto; não, não, já faz muito tempo que a crise passou, não dá para continuar responsabilizando-a. Assumam que vocês preferem um país crescendo pouco desde que a ideologia conservadora prevaleça.

Publicado originalmente na página pessoal do autor.

Apoie O Cafezinho

Crowdfunding

Ajude o Cafezinho a continuar forte e independente, faça uma assinatura! Você pode contribuir mensalmente ou fazer uma doação de qualquer valor.

Veja como nos apoiar »

5 comentários

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do site O CAFEZINHO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie.

Escrever comentário »

Piolho de Bunda

14 de fevereiro de 2020 às 08h54

Capes anuncia corte de mais 5.613 bolsas de mestrado e doutorado
https://exame.abril.com.br/brasil/capes-anuncia-corte-de-mais-5-613-bolsas-de-mestrado-e-doutorado/

Cortes de verbas desmontam ciência brasileira
https://brasil.elpais.com/brasil/2019/09/03/politica/1567542296_718545.html

Corte orçamentário de 42% em ciência e tecnologia preocupa entidades
https://www1.folha.uol.com.br/ciencia/2019/04/corte-orcamentario-de-42-em-ciencia-e-tecnologia-preocupa-entidades.shtml

Responder

Paulo

13 de fevereiro de 2020 às 18h08

Mas tomar dinheiro do servidor público eles querem, pra gerar excedente. Em que vão usar, então, o produto do butim?

Responder

Roberto de Medeiros

13 de fevereiro de 2020 às 13h26

A construção cívil é o indicador dos indicadores desde sempre:

https://www.infomoney.com.br/consumo/lancamentos-e-vendas-de-imoveis-em-sp-crescem-quase-50-em-2019-estoque-dispara/

Responder

Alan C

13 de fevereiro de 2020 às 13h01

A bozolândia é contra a ciência e o progresso, exceto da milícia.

Responder

Andressa

13 de fevereiro de 2020 às 12h50

Hà no Brasil centenas de milhares de vagas (provavelmente milhoes) para emprego tecnico especializado mas nào hà pessoas capacitadas.

Responder

Deixe uma resposta