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Foto: Reprodução

Muito prazer, eu sou Thaís Ferreira

Por Redação

28 de agosto de 2020 : 17h26

A suplente de deputada estadual do PSOL na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), Thaís Ferreira, enviou uma nota após a publicação feita pelo Cafezinho sobre a decisão do PDT e PSOL de proibir candidaturas de pessoas que passaram pelos movimentos RenovaBR, RAPS e Acredito.

Como direito de resposta, o Cafezinho concedeu esse espaço para a suplente psolista.

Leia a nota completa na íntegra!

Sou Thais Ferreira, filha de Neide, mãe de João, Athos e madrasta do Zion, primeira suplente de Deputada Estadual pelo PSOL no Rio de Janeiro.

Não vou mentir pra vocês. Fiquei bastante impressionada com a coincidência de saírem tantas matérias falando equívocos sobre mim em jornais da direita nesta véspera de eleição.

Eu sabia que o ambiente eleitoral era competitivo, e que ele ainda poderia piorar depois de eu ter quase sido eleita, com mais de 24 mil votos. Mas neste nível?! Uma matéria quase igual a outra, a cada dois dias, em veículos de grande porte? Nunca achei que isso aconteceria.

Quero aproveitar esse espaço aqui para desfazer alguns nós. Acredito que as comparações ruins feitas a meu respeito talvez possam ter sido por falta de um conhecimento sobre de onde eu venho e o que eu realmente faço. Então eu vou tentar fazer um resumo.

Eu nasci no Rio de Janeiro, em setembro de 1988. Nasci negra, como minha bisavó Lucíola (parteira e liderança comunitária da Mangueira do começo do século passado), como minha avó Haynee (que, de uma organização comunitária de quintal, garantiu comida, roupa, cuidado e estudo para a família e muitas outras pessoas da vizinhança de seu barraco em Vaz Lobo), e negra como minha mãe Neide (que até os 10 anos dormiu no chão do barraco, assustada com ratos e porcos, mas que conseguiu lutar por melhores oportunidades e ser aprovada em concurso público da Eletronuclear, onde militou no sindicato).

Sou filha ainda de Ilton, criança abandonada no Rio, que morou sozinho na rua dos 8 aos 13 anos, vendendo alho e laranja para sobreviver. Sou ainda sobrinha de tias que “foram pegas” ainda na infância, como se dizia, para trabalhar como domésticas em casas de família e para serem exploradas sexualmente. São todas pessoas negras e pobres, que lutaram pela existência de nossa família e de nosso povo. Costumo dizer que sou filha de uma família que sempre fez política de emergência no cotidiano.

Aos 12 anos, influenciada pela cena cultural de Madureira, me envolvi no hip-hop. Desse encontro de cultura, ativismo e política do dia a dia, percebi a importância da afirmação positiva através da arte e o potencial de comunicação e transformação a partir da cultura negra. Dos 13 aos 21 anos de idade, formei e participei da formação de vários grupos de RAP e até abrimos um show dos Racionais MC, em 2006. Em 2010 fundei a MALUNGA banda autoral de música de protesto, cujo objetivo central era utilizar a música para aproximar jovens de críticas sociais. Eu percebi cedo que todos nós podemos ser potentes agentes de transformação social.

Aspas para uma das minhas letras. “Um grito pela paz que nunca existiu/ Ecoa agora em qualquer canto do Brasil/ Nossa infância perde a fome e ainda sente frio/ E a novela mostra como a pátria é gentil/ Invadem nossas casas com os seus valores/ Ensinam que o dinheiro acalma nossas dores/ Nossos heróis se tornam seus temores/ E aplaudimos de pé a esse show de horrores.” NADA NOVO, BANDA MALUNGA. Fecha aspas.

Além disso, me dedico a pesquisar e disseminar saberes pretos em todos os cantos. Ainda no Orkut, criei a comunidade Crespíssimos, que deu origem a vários grupos de debate sobre a estética negra, como Meninas Black Power, muito ativo até hoje. A partir dessas experiências, entendi que moda é comportamento e política, então busquei graduação e especialização nesta área, sempre investigando como poderia utilizar meu conhecimento formal e profissional para pensar como combater as opressões e romper com padrões tóxicos da sociedade.

Na internet, lancei um canal de Youtube, chamado THA BONITA?, no qual criticava as exclusões e omissões do mundo da moda e de seus valores estéticos. Trabalho desde os meus 16 anos e atuei em empresas como Midas Informática, CALL Tecnologias, XSITE, Atelier Milena Cimini, Lucidez, Osklen e Riachuelo. Dentro dessas empresas, sempre estive dedicada a, também, defender os direitos de todos nós, trabalhadores pobres.

A partir de 2013, ao lado de muita gente correria do subúrbio do Rio, montei um ESPAÇO PÚBLICO E GRATUITO PARA CULTURA DE COMIDA DE RUA no Largo do Bicão, na Vilada Penha. Criamos ali um coletivo de mulheres trabalhadoras da Zona Norte, chamado RENORTEIA, focado no empreendedorismo popular de sobrevivência, apoiado nos princípios da economia circular e criativa, para ajudar fazedores das adjacências nos desafios diários de sobreviver na informalidade em ambientes de escassez.

Outra passagem fundamental da minha vida é a maternidade e minha luta pelas infâncias. Ainda adolescente, quando coloquei o bebê de uma prima para dormir pela primeira vez, fui invadida por uma onda muito forte de afeto, que veio a explodir em amor quando engravidei do meu primeiro filho, em 2011. Com 34 semanas de gestação, eu perdi este filho. O caso ocorreu em um hospital da rede suplementar, onde fui muito mal atendida, com omissões e negligências. Em 2012, peregrinei por diversos médicos e unidades de saúde para descobrir o que havia acontecido.

Comecei a investigar por conta própria o meu próprio caso. Foi aí que um mundo de conhecimento sobre as infâncias e saúde da mulher se abriu na minha vida. Finalmente descobri que eu havia tido complicações devido à trombofilia. Medicada, sete meses depois, engravidei pela segunda vez. Já apropriada dos direitos das mulheres mães, me tornei a primeira gestante a ter o acompanhamento de uma doula em parto no Hospital Federal dos Servidores do Estado, onde nasceu meu amado e sensível Athos.

Começamos assim, em especial na zona norte do Rio, um movimento por educação em saúde para maternidades e infâncias. Percorremos hospitais e clínicas da família coletando informações, nos aprofundando em política públicas (e em suas ausências) e, assim, construímos o projeto Mãe&Mais, que, em 03 anos de funcionamento, alcançou mais de 700 mulheres e mais de 1500 crianças dos 0 aos 06 anos.

Ficou muito evidente a necessidade de pensar o fortalecimento do SUS de maneira integrada, colocando pacientes, mães e crianças como protagonistas de sua saúde na relação com profissionais e a rede de saúde. Montamos ações itinerantes em locais populares do Rio, com ações em diversos eixos, como atendimento médico, educação em saúde e atividades de desenvolvimento infantil.

Em 2017, o Mãe&Mais participou e foi premiado em diversos programas de inovação social, como o Pense Grande, Universidade da Correria, Instituto Artemisia, Social Good Brasil, entre outros. O projeto recebeu auxílio da Brazil Foundation e da Fundação Telefônica Vivo. Eu percebi, com toda força, que a experiência de nosso programa poderia virar referência para políticas públicas em saúde. Fui chamada para falar sobre o projeto no TEDx SãoPaulo, para um público de 1.300 pessoas, outra experiência marcante.

No ano seguinte, começou com uma transição importante na maneira de enxergar o meu ativismo, partindo dos projetos sociais para pensar na política institucional. Queria encontrar viabilidade para o Mãe&Mais e me aprofundar na análise sobre a conjuntura política da época.

Me inscrevi em diversos programas de formação, como OCUPA POLÍTICA, Campanha de Mulher, Instituto Update, RAPS e, entre eles, o RenovaBR, que concedia, uma bolsa de estudos para a realização do curso. Eu, logo de princípio, percebi as contradições embutidas nessas iniciativas. São contradições que expus sempre que tive espaço para a fala nestes locais. No entanto, minha história de vida me ensinou que era fundamental desafiar as bolhas.

Eu sempre fui anticapitalista e antifascista, claro. Por isso, encontrei em Marielle Franco, vereadora do Rio, uma grande referência, uma grande inspiração. Interessada no projeto que acompanhei puxado por ela, o Mulheres na Política, a procurei no início de 2018 para conversar sobre a minha necessidade de organização, e ela me fez o convite para entrar no PSOL. A presença e a confiança que haviam naquela mulher negra me convenceram que o PSOL era o caminho certo para eu seguir na minha estruturação como agente política no Rio de Janeiro.

A partir de então, planejei minha primeira candidatura em 2018, a deputada estadual do Rio de Janeiro com as pessoas que sempre construíram comigo nas ruas, em sua imensa maioria mulheres negras e jovens, que não paravam de chegar (mães, doulas, agentes culturais, jornalistas, arquitetas, enfermeiras, administradoras). Nos dedicamos a aprender sobre campanhas políticas, comunicação, autoconhecimento, estratégias e mídias sociais.

Muita gente profissional, algumas delas quadros do próprio PSOL, também fizeram campanhas lindíssimas. Na internet, a equipe de comunicação conseguiu criar uma forte empatia com os futuros eleitores, me mostrando como candidata em toda a minha essência, uma mulher negra pobre, mãe de três, em luta pela infância saudável de seus filhos.

Com o mote “Nossos problemas, nossas soluções”, a campanha se comunicou com pessoas que, em muitas interpretações, não conseguem ser alcançadas pela esquerda, em alguns dos bairros mais pobres da cidade. Sem recursos do PSOL, nossa equipe montou um plano de captação para a nossa campanha, e o dinheiro arrecadado encontrou seu melhor destino na estrutura humilde, mas muito organizada da nossa campanha.

No dia da eleição, nosso trabalho sério foi recompensado com a confiança de mais de 24 mil e 700 votos. Fui a sexta mais votada do partido, ficando com a primeira vaga de suplência. Faltaram apenas três mil votos para eleição, uma lástima que foi amenizada pela alegria sem medida de ver três mulheres negras, como eu, entre os cinco eleitos do partido.

Se estou recapitulando tudo isso é porque acredito, sim, que me conhecendo um pouco melhor as pessoas vão pensar pelo menos duas vezes antes de espalhar mentiras sobre mim ou tentar me reduzir em jornais. Fico na minha trajetória apenas por aqui. E convido quem mais quiser realmente saber quem é Thaís Ferreira a nos dar o benefício da dúvida e a oportunidade de nos apresentarmos corretamente. Sigo morando na zona norte, as ruas sabem quem eu sou.

Mais de 600 pessoas declararam solidariedade com nossa campanha através de um manifesto online, incluindo Anielle Franco, Rodrigo França, Tainá de Paula, Verônica Lima, Jean Wyllys, além das notas que recebemos do Movimento Negro Unificado (MNU), do Fórum de Mulheres Negras, do Odarah Cultura e Missão, da UNEGRO, do Favela Brasil, da Nova Frente Negra Brasileira, da Alternativa Popular, do Black Bom e o Mães e Crias na Luta. Como dá para perceber, eu não caminho sozinha.

Qualquer coisa é só perguntar,
Thaís Ferreira.

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