O pré-candidato à Presidência Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, intensificou nesta semana as críticas simultâneas ao presidente Lula (PT) e ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pela forma como ambos lidam com a escalada de tarifas contra as exportações brasileiras — um ataque duplo que também funciona como estratégia de posicionamento pessoal, na tentativa de Caiado se apresentar como alternativa “acima da rixa” entre os dois principais nomes da corrida presidencial.
“Farinha do mesmo saco”
Em vídeo divulgado ainda na semana passada, Caiado classificou os dois adversários de forma direta: “os 2 são farinha do mesmo saco” — argumentando que tanto Lula quanto Flávio colocam interesse eleitoral pessoal à frente do interesse nacional na condução da crise comercial. Segundo ele, Lula usaria o discurso de soberania para se beneficiar politicamente do confronto com os Estados Unidos, sem de fato agir para reverter as tarifas, enquanto Flávio teria ido a Washington defender uma tese que classificou como absurda: adiar a decisão sobre a sobretaxa para depois das eleições brasileiras de outubro.
Um “ataque triplo” ao agronegócio que ninguém, segundo ele, está enfrentando
Nesta quarta-feira (15), já com a confirmação oficial do tarifaço de 25% dos EUA, Caiado ampliou a crítica para além da relação bilateral com Washington, apontando o que descreveu como uma ofensiva simultânea de três frentes contra o agronegócio brasileiro: a tarifa americana, o veto da União Europeia à carne bovina brasileira e uma taxação chinesa de 55% sobre o mesmo produto — motivada, segundo Pequim, pelo fato de as importações terem superado a cota anual estabelecida. Para Caiado, esse conjunto de barreiras comerciais simultâneas está sendo tratado pelo governo com “cuidados paliativos”, em vez de uma resposta efetiva.
A crítica mais afiada: um documento que “confessa” prioridade eleitoral
O ponto mais contundente da crítica de Caiado ao senador do PL foi a existência do próprio documento protocolado por Flávio junto ao USTR — no qual o senador pediu explicitamente que a decisão sobre a tarifa fosse adiada até depois do pleito de outubro. Para o pré-candidato do PSD, esse pedido formal equivale a uma admissão pública de que o agronegócio brasileiro poderia continuar sofrendo os efeitos da tarifa, desde que a resolução do problema só viesse depois da eleição — uma crítica que ecoa, em essência, o mesmo ponto que pesquisas recentes já vinham captando na opinião pública, com a maioria dos brasileiros atribuindo a Flávio parcela relevante da responsabilidade pelo tarifaço.
A dupla função do ataque
Vale notar que essa ofensiva de Caiado contra os dois principais concorrentes cumpre uma função estratégica clara para sua própria candidatura: ao criticar simultaneamente o governo e o principal nome da oposição bolsonarista, o ex-governador tenta se posicionar como alternativa “de cima” ao embate polarizado entre lulismo e bolsonarismo — mesma lógica que pesquisas recentes já vinham identificando num eleitorado crescente (hoje próximo de 27%, segundo levantamentos como o BTG/Nexus) que se diz insatisfeito com ambos os campos e aberto a uma “terceira via”. O problema é que essa mesma pesquisa mostra Caiado ainda com desempenho pouco expressivo nos cenários eleitorais testados — o que sugere que, por ora, o discurso de equidistância ainda não se traduziu em ganho real de competitividade para sua própria candidatura, mesmo capitalizando o desgaste simultâneo de seus dois principais rivais.


Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!