Segundo levantamento do Pew Research Center divulgado nesta quarta-feira (15), com 42.151 pessoas entrevistadas em 36 países entre fevereiro e maio deste ano, a China passou a ser vista de forma mais favorável do que os Estados Unidos na maioria das nações pesquisadas — a primeira vez que isso acontece desde que o instituto começou a acompanhar sistematicamente o tema, há mais de duas décadas. Os Estados Unidos só mantêm vantagem em seis países, quatro deles na Ásia-Pacífico: Índia, Japão, Filipinas e Coreia do Sul.
Segundo pesquisadores do próprio Pew, a mudança tem duas origens que se somam: uma melhora real na imagem chinesa, que vinha de mínimas históricas durante a pandemia, e uma queda mais acentuada ainda na avaliação dos EUA — sendo esse segundo fator, segundo o instituto, o mais determinante para a inversão do quadro.
O que a narrativa “China venceu” deixa de fora
Aqui está o ponto que o texto do Global Times não aprofunda: a melhora da imagem chinesa não significa que a China seja hoje vista como um regime confiável ou admirado em todos os aspectos. O próprio Pew constatou que apenas 11 dos 37 países pesquisados acreditam que o governo chinês respeita as liberdades individuais de sua população — nos Estados Unidos, na quase totalidade da Europa, no Japão, na Coreia do Sul e na Austrália, cerca de três quartos ou mais dizem que a China não respeita essas liberdades. Preocupações com disputas territoriais na Ásia e com interferência chinesa em assuntos internos de outros países também seguem presentes, ainda que em queda em alguns países.
Ou seja: o que o levantamento capta não é necessariamente uma China mais admirada em termos absolutos, mas uma comparação relativa — e nessa comparação, o desgaste da imagem americana pesa tanto ou mais do que qualquer ganho chinês.
Por que os EUA perderam tanto terreno
O relatório atribui boa parte da queda americana à política externa mais volátil do governo Trump em seu segundo mandato — uso mais frequente de força militar, tarifas comerciais amplas contra aliados e adversários, e mudanças constantes de rumo diplomático. Uma pesquisadora do Pew, Laura Silver, resumiu a situação ao Washington Post como um momento em que algumas avaliações sobre os EUA estão em níveis historicamente baixos. O mesmo padrão aparece de forma acentuada entre aliados históricos de Washington: Reino Unido, Canadá, França e Alemanha, que até o ano passado ainda viam os EUA de forma mais positiva ou equivalente à China, agora pendem para o lado chinês.
O caso latino-americano: interferência pesa mais que ideologia
O recorte regional é particularmente relevante para o público brasileiro. Segundo o Pew, moradores de países latino-americanos são muito mais propensos a dizer que os Estados Unidos interferem nos assuntos internos de outras nações do que a fazer a mesma acusação contra a China — um dado que ajuda a explicar por que a imagem americana se deteriorou tanto na região, historicamente marcada por intervenções diretas ou indiretas de Washington. A China, em contraste, é vista como parceira mais previsível, sustentada por comércio, investimento em infraestrutura e ampliação de laços diplomáticos — sem que isso signifique, porém, que a população latino-americana veja a China como uma democracia ou um modelo político a ser seguido.
Um retrato de declínio relativo, não de vitória absoluta
O quadro mais preciso, portanto, é o de uma pesquisa que capta principalmente o desgaste da imagem americana no mundo — turbinado por decisões da própria política externa de Trump — mais do que uma ascensão triunfal e incontestada da imagem chinesa. A China segue enfrentando desconfiança substancial em temas como liberdades individuais e disputas territoriais, mesmo nos países onde hoje é vista com mais simpatia do que os Estados Unidos. É uma distinção que importa: a pesquisa mede opinião pública comparada num momento específico, não um veredito definitivo sobre qual das duas potências oferece, de fato, o modelo mais confiável de relação internacional.


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