O embate entre Brasília e Washington ganhou um novo capítulo direto nesta quinta-feira (16): o governo Lula (PT) reagiu às declarações do secretário de Estado americano, Marco Rubio, de que o Brasil não teria negociado de boa-fé o tarifaço, apresentando uma lista detalhada de 30 reuniões realizadas com autoridades dos Estados Unidos ao longo do último ano para tentar evitar a sobretaxa. A informação foi publicada pelo jornalista Gustavo Uribe, da CNN Brasil.
A acusação de Rubio e a resposta do Planalto
Na quarta-feira (15), Rubio foi direto ao atribuir a Lula e ao seu governo a responsabilidade pela imposição das tarifas: “não haja confusão sobre o motivo: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé”. A resposta brasileira veio rápida e municiada de dados: segundo o levantamento apresentado pelo Planalto, os 30 contatos catalogados desde 2025 incluíram reuniões presenciais e virtuais em nível técnico e ministerial — dos quais 11 ocorreram diretamente com o próprio Rubio ou com o representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, os dois nomes mais centrais da política comercial americana em relação ao Brasil.
Curiosamente, o próprio Greer já havia reconhecido a extensão dessas negociações, ainda que sem admitir má-fé por parte de nenhum dos lados: “as extensas negociações com o Brasil ao longo do último ano não resolveram essas questões, mas continuamos abertos a prosseguir com as negociações com o Brasil”. A contradição entre o tom de Rubio — que nega boa-fé brasileira — e o de Greer — que reconhece as negociações, apenas sem sucesso — expõe uma possível divergência de estratégia dentro do próprio governo americano sobre como justificar publicamente o impasse.
Uma nova escalada pode estar a caminho
O timing da disputa retórica é particularmente tenso: segundo notícia relacionada divulgada no mesmo dia pelo Brasil 247, os Estados Unidos já avaliam aplicar uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros, além dos 25% já confirmados — o que elevaria a sobretaxa total a 37,5% caso a medida avance. Nesse contexto, o Itamaraty classificou o conjunto da ofensiva tarifária como caso de “politização evidente”, reforçando a leitura de que a motivação da Casa Branca seria mais política do que estritamente comercial.
Um recado duplo: diplomacia aberta, mas retaliação pronta
Apesar do tom mais azedo da troca de farpas, o governo brasileiro sinaliza que pretende manter os canais de negociação abertos com Washington — mesmo classificando publicamente as acusações de má-fé como infundadas. Ao mesmo tempo, o Planalto reforça que pode acionar a Lei de Reciprocidade Econômica, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, para responder de forma proporcional a qualquer nova escalada tarifária americana.
O que essa disputa de narrativas revela
O episódio ilustra bem o momento atual da relação bilateral: cada lado tenta controlar a versão pública sobre quem é o responsável pelo impasse, num contexto em que qualquer nova tarifa adicional tende a aprofundar ainda mais o desgaste econômico já sentido por setores exportadores brasileiros. A lista de 30 reuniões apresentada por Brasília funciona como contra-narrativa direta à tese de “falta de diálogo” sustentada por Rubio — mas, como mostra a possível tarifa extra de 12,5% em avaliação, o histórico de conversas extensas não impediu, até aqui, que a relação comercial entre os dois países seguisse se deteriorando, com efeitos que já se refletem tanto na economia quanto, como mostram pesquisas recentes, na percepção política interna sobre quem carrega a culpa por esse desgaste.


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