Live do Cafezinho: balanço dos partidos de esquerda

Arte: @yurilueska

Basta

Por Pedro Breier

21 de novembro de 2020 : 19h39

A morte de João Alberto Silveira Freitas, que foi espancado por dois seguranças do Carrefour, desencadeou protestos em frente a supermercados da marca em algumas cidades do Brasil. Em alguns desses protestos a revolta descambou em quebradeira nas lojas. Houve também repressão da PM, o que dá uma manchete ironicamente macabra: polícia ataca manifestantes negros que protestavam contra a violência racista.

Os negacionistas de sempre estão arrumando justificativas para o assassinato brutal de mais uma pessoa negra. Ou então tentando retirar o evidente elemento de racismo no caso. A evidência de racismo pode ser extraída tanto da estatística como do senso comum: negros e negras estão muito mais sujeitos à violência, tanto estatal quanto privada, do que brancos. O que torna as manifestações do presidente e do vice-presidente do país no sentido de que não há racismo no Brasil cínicas, desprezíveis e estúpidas.

O simbolismo do assassinato ter acontecido na véspera do dia da consciência negra é forte. Quem sabe o caldo de revolta engrossa a ponto de provocar alguma mudança significativa nas estruturas legais e sociais que mantêm e se alimentam do racismo?

Os protestos diante das lojas e o boicote ao Carrefour me parecem boas iniciativas – inclusive porque a rede é reincidente em casos de racismo e desprezo à vida. Identificar os donos da marca, como faz o jornalista Alceu Castilho em seu Facebook, também é importante, para que a responsabilização se dê sobre pessoas reais, e não apenas sobre algo etéreo como uma rede de mercados:

O Bank of America Merrill Lynch tem 8,03% das ações do Carrefour, não apenas “uma rede francesa”. Entre os acionistas do banco está Warren Buffett, o homem mais rico do mundo em 2008. O Grupo Arnault e o Cervínia Europe, do mesmo conglomerado, somam 5,5% das ações da rede. A família Arnault é a dona da LVMH, a maior empresa global de artigos de luxo. Marca mais conhecida: Louis Vitton. Outra: Moët et Chandon. A Galfa tem 12,62% do Carrefour, que se diz “contra qualquer tipo de discriminação”. Galfa significa família Moulin. É a dona das Galerias Lafayette, um ícone parisiense. (Imaginem um branco sendo espancado até a morte nas Galerias Lafayette.)
Mas sim, essa roda que não pode parar também tem sua face local. A terceira maior acionista da rede, a Peninsula Europe, pertence a um dos dez homens mais ricos do Brasil: Abílio Diniz.
Ele será ouvido pela imprensa brasileira sobre João Alberto, segundo o Carrefour tratado “de forma inadequada”? Sobre Moisés, o morto sob os guarda-sóis, ele não foi.
Quem está por trás dos cadáveres, muito além da empresa de segurança de plantão, quem assina estruturalmente a violência, a indiferença e o racismo?

Um dos espancadores de João é um policial militar, algo comum nas empresas de segurança privada. O modus operandi é semelhante: tanto policiais quanto seguranças privados muitas vezes assumem o papel simultâneo de juiz e carrasco, como se vivêssemos em um mundo sem leis.

Esta é, portanto, uma pauta fundamental para as próximas semanas: uma profunda reforma nas polícias, que possivelmente devem ser desmilitarizadas – não faz sentido uma polícia treinada para guerrear contra a população -, assim como nas empresas de segurança privada, que devem obedecer a um regramento rígido e ser fiscalizadas com afinco pelo poder público, para que deixem de ser os aberrantes aparelhos de violência privada no qual muitas vezes se transformam.

Quase sempre quando a vítima é negra.

Basta.

Pedro Breier

Pedro Breier nasceu no Rio Grande do Sul e hoje vive em São Paulo. É formado em direito e escreve n'O Cafezinho desde 2016, sendo atualmente um dos editores do blog.

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14 comentários

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Bosta

23 de novembro de 2020 às 13h00

Não sei não, mas pela quantidade baixa de comentários nos posts desse assunto, parece q os censores do cafezinho estão trabalhando bastante.

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Dutra

23 de novembro de 2020 às 00h02

Tão racista quanto quem agride um preto só por ele ser preto é quem vê racismo em tudo.

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ermes

22 de novembro de 2020 às 20h17

O sujeito tinha antecedentes como agressao, porte de armas e droga, ameaças inclusive a muulheres, etc…no shopping ameaçou uma atendente da loja, os seguranças foram chamados e o acompanharam tranquilamente para fora do shopping, na hora de sair resolveru dar um soco em um dos dois e fez partir a briga que causou a morte. E’ pura incivildade e violencia como hà milhares de casos no Brasil todos os dias.

Nada justifica claramente mas o racismo nao tem nada a ver com o caso…sò na cabeçad de alguns poucos idiotas que propositalmente tentam explorar politicamente o acontecido.

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    Andressa

    23 de novembro de 2020 às 01h05

    Exato, foi total racismo e tem que tacar fogo no Carrefour mesmo.

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Alan C

22 de novembro de 2020 às 07h31

Bozo virou aquele bobalhão da turma que ninguém mais presta atenção quando fala. Não consegue nem chocar mais, é um pária, um nada. O mundo só está esperando pra ver quem será o novo presidente em 2022.

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Garrincha

22 de novembro de 2020 às 00h34

Estava claro desde o principio que o racismo não tinha nada a ver com o acontecido e a delegada responsável do caso descartou a hipótese …o resto são besteiras.

No Brasil há tudo que é raça e esses episódios de “racismo” estranhamente acontecem somente entre brasileiros.

Alguém já viu isso acontecer com chineses por exemplo ? Libaneses ? Bolivianos ? Japoneses ? Haitianos ?

Os haitianos são um bom exemplo… tem muitos no Brasil, são miseráveis tanto quanto ou mais que os brasileiros, são bem pretinhos, trabalham, não enchem o saco dos outros, são educados, não mexem com droga ou crime em geral, não são violentos… não morrem a toa.

O problema é o de sempre…o brasileirismo.

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Fulano

22 de novembro de 2020 às 00h13

Que nojo q tenho desses racistas q vêem racismo em tudo.

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Ronei

22 de novembro de 2020 às 00h00

O episódio nada tem a ver com racismo, já foi comprovado que é maís uma tentativa de manipulação politica.

Por curiosidade onde estavam esses humanistas de ocasião quando uma mulher foi espancada e algemada em praça pública ? Onde estavam quándo as lojas de trabalhadores negros que precisam levar o pão de cada dia para os filhos foram fechadas e soldadas por prefeitos ?

Onde estavam esses democratas de ocasião e defensores da liberdade de expressão quando o STF mandou prender, calar jornalistas (entre os quais negros e pardos) e ainda contínua até hoje com claras intimidações e sem direito de defesa?

Onde estavam esses pseudo defensores da classe trabalhadora quándo um maluco subiu uma escavadeira e tentou esmagar um grupo de manifestantes entre os quais havia pessoas que são catalogadas como negras segundo esses mesmos animais ?

Sinto muito mas narrativa não está colando mais prezados sub humanos… acabou.

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Jerson

21 de novembro de 2020 às 23h45

Basta mesmo, basta fomentar o racismo Pedro Breier, faça esse favor aos brasileiros.

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Paulo

21 de novembro de 2020 às 23h01

É incrível como os brasileiros macaqueiam tudo que vem dos EUA (só o que há de ruim). “Black Lives Matter”! Nada mais importa, mas somente importar é o que importa, parafraseando, às avessas, velho lema da Ditadura Militar brasileira…

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Alexandre Neres

21 de novembro de 2020 às 22h31

Caro Pedro, excelente o texto! Parabéns pela lucidez e pela coragem. É triste ver os párias internacionais que nos tornamos, conforme relato do grande jornalista Jamil Chade sobre o discurso chinfrim do Bolsonero no G-20. Dá até pena da falta de compostura, não tem a minima noção da liturgia do cargo e de como um presidente deve se portar. A garantia dele para manter seu mandato é seu vice, que, apesar de alguns quererem diferenciá-lo do capetão, mostrou mais uma vez pelo teor da sua fala que no frigir dos ovos é outro beócio racista. Racismo é coisa dos EUA, aqui os homens “de cor” têm a alma branca.

Enquanto escrevo, não tem nenhum comentário publicado. A qualidade do seu texto vai poder ser medida de forma inversamente proporcional às críticas dos bolsominions que pululam por este blogue. Foi muito feliz também ao tocar no ponto fulcral da desmilitarização das polícias que deveriam também ser unificadas.

No mais, fogo nos racistas!

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    Luan

    22 de novembro de 2020 às 00h36

    Basta de apologia ao racismo… já deu.

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      ermes

      22 de novembro de 2020 às 20h22

      Concordo, o texto dessa “materia” o esse comentario sao apologia clara ao racismo.

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      Francisco

      22 de novembro de 2020 às 23h28

      No persistente ‘Sertões’ no Brasil do século XXI, com licença divina, ‘o adestrado é antes de tudo, um coitado’, não tem direito sequer a só, pensar, ao não pensar só.

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