Notas Internacionais (por Ana Prestes) – 30/11/20

– O presidente argentino, Alberto Fernández, e o brasileiro, Jair Bolsonaro, devem realizar hoje por videoconferência sua primeira reunião bilateral desde que Fernández assumiu o poder em dezembro do ano passado. Eles nunca se falaram, nem mesmo pelo telefone. O que se viu nesses meses foram os sistemáticos ataques de Bolsonaro e filhos ao presidente argentino e um silêncio da Casa Rosada sobre esses ataques, deixando as relações no nível operacional dos canais diplomáticos. Um dos últimos ataques foi quando Fernández apresentou ao congresso o projeto de descriminalização do aborto e Bolsonaro disse: “tiraram o Macri e o resultado é esse”. No entanto, houve avanços da relação bilateral no setor comercial no último período, tanto é que o Brasil voltou a ser o principal parceiro comercial da Argentina (havia sido passado pela China). O dia de hoje, 30 de novembro, é considerado Dia da Amizade Brasil-Argentina, 35 anos depois do encontro entre Raúl Alfonsín e José Sarney em Foz do Iguaçu, quando assinaram a Declaração de Iguaçu, primeiro passo para a criação do Mercosul. A reunião de hoje é vista também como fruto da articulação de Daniel Scioli, embaixador da Argentina no Brasil.

– A morte do físico nuclear iraniano Mohsen Fajrizade provocou reações de solidariedade em todo o mundo. No sábado (28), o chanceler do Irã, Mohamad Yavad Zarif fez um chamado no twitter à comunidade internacional para que “condene o terrorismo de Estado e se oponha em bloco ao aventureirismo que aumenta as tensões regionais”. Já o presidente iraniano Hasan Rohani, disse que o povo iraniano é “suficientemente sábio para não cair na armadilha do regime sionista (Israel) (…) e responderá ao martírio do cientista no momento apropriado”. O cientista, que era diretor do Departamento de Pesquisa e Inovação do Ministério da Defesa do Irã, foi morto em uma emboscada na sexta (27) quando seu veículo foi atacado nas ruas da cidade de Absard, nos arredores da capital Teerã. As autoridades iranianas acreditam com os EUA e Israel estão por trás do assassinato. Na sexta (27), o Irã apresenteou uma carta ao Conselho de Segurança da ONU como forma de denúncia do terrorismo de Estado que sofreu e disse que tomará as medidas necessárias contra os agressores. Alguns países como Cuba, Venezuela, Bélgica, Turquia, Rússia e Síria foram os primeiros a prestar solidariedade. O chefe da diplomacia europeia, Josef Borrel, também se manifestou e disse que o atentado foi um ato criminoso. Dos EUA, o senador democrata Bernie Sanders se pronunciou sobre o fato. Em sua conta no twitter disse que o assassinato de Fajrizade foi um ato “imprudente, provocador e ilegal” que busca minar a diplomacia entre a próxima administração estadunidense e o Irã.

– Em Cuba, um movimento chamado “Movimiento San Isidro” tem servido de instrumento de pressão sobre o governo do presidente Díaz-Canel. Segundo o presidente, em sua conta do twitter, há vínculos e sintonia “entre o denominado Movimento San Isidro com funcionários do governo dos EUA encarregados da atenção e abastecimento de sua base operacional em Cuba”. Nos últimos dias os membros do movimento se posicionaram em uma casa que mantém em Havana velha, entre a rua San Isidro e a Avenida del Puerto e fizeram greve de fome contra a prisão de um de seus integrantes, Denis Solís, por desacato a autoridade sentenciado a 8 meses de detenção. Eles chegaram a ser visitados por médicos, pois estavam em descumprimento das regras e cuidados com relação à pandemia do coronavírus. Ao ser confirmado que não cumpriam os protocolos, o sistema de saúde cubano esvaziou a casa e encaminhou os integrantes do movimento para a quarentena sanitária. O secretário de estado dos EUA, Mike Pompeo, já havia se pronunciado dias antes em apoio ao movimento e pela liberdade de Solís. O movimento San Isidro tem base na Flórida, nos EUA, de onde coordena as ações na ilha. Um de seus líderes vive no México. Vídeo do momento em que as autoridades sanitárias e polícia de Havana retiram os integrantes do movimento da casa em que se encontravam: https://tinyurl.com/yywp9kxy

– Oito países latinoamericanos (Argentina, Bolívia, Equador, El Salvador, Paraguai, Colômbia, México e Peru) liderados por México e Argentina estão promovendo a criação, no âmbito da CELAC, da Agência Latino-Americana e Caribenha do Espaço (Alce). Alguns países, como Colômbia e Peru entraram como observadores. O primeiro projeto será a criação de um nanosatélite para entrar em órbita em 2022 com a finalidade de monitorar oceanos e plantações agrícolas. A América Latina, uma região que abriga 600 milhões de pessoas, é totalmente dependente da tecnologia espacial norte-americana, europeia e asiática, que controlam todo o sistema de comunicação, tvs, telefonia móvel, dados do clima e intempéries da natureza. O Brasil não está mais na Celac, posto abandonado por Bolsonaro assim que assumiu a presidência. *CELAC – Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos. (com infos da agência Estado).

– A morte do astro do futebol argentino, Diego Maradona, balançou a Argentina e continua repercutindo muito. Após um velório conturbado e bastante curto perante a uma multidão inquieta para dar seu último adeus ao ídolo, em tempos de coronavírus, agora as atenções se voltam ao seu médico particular. Segundo a imprensa argentina, o médico Leopoldo Luque foi acusado formalmente por homicídio culposo. Como Maradona faleceu em casa, não há certidão de óbito e há suspeita do Ministério Público de negligência médica, principalmente quando da transferência do jogador da clínica onde passou por uma cirurgia na cabeça para a casa onde faleceu a 30 km de Buenos Aires. Há familiares dando entrevistas sobre supostas irregularidades.  

– Um vídeo gravado por uma adolescente norte-americana com seu celular foi peça importante na detonação dos maiores protestos antirracistas dos EUA desde os anos 60 do século passado. As imagens também ajudaram na responsabilização de Chauvin e os demais policiais envolvidos. Trata-se do vídeo de 10 minutos que mostra o George Floyd no chão, atrás de um carro de polícia, com policial Chauvin pressionando seu pescoço com o joelho, enquanto ele dizia não conseguir respirar. A jovem em questão é Darnella Frazier, de 17 anos, e será premiada por uma associação de defesa da liberdade de expressão dos EUA nos próximos dias. É o PEN/Benenson Courage Award. A vida da jovem que ainda é uma adolescente do ensino médio norte americano sofreu uma reviravolta após o vídeo, desde pessoas a acusando, pois ela “não teria feito nada para salvar Floyd” (sic) até pessoas dizendo que ela só queria ganhar fama na internet.

– O grupo terrorista Boko Haram continua fazendo vítimas na Nigéria. O último ataque foi no sábado (28) em um campo de arroz, enquanto os agricultores trabalhavam, na cidade de Koshobe, estado de Borno, nordeste do país. Os trabalhadores havia viajado 1000 quilômetros para encontrarem esse trabalho. Pelo menos 110 pessoas morreram e muitas ficaram feridas segundo o coordenador da ONU no país, Edward Kallon. Estavam ocorrendo pela primeira vez eleições municipais em Borno justamente no sábado. Calcula-se que cerca de 30 mil pessoas já morreram na região nos últimos 10 anos, desde que começou a atuação do Boko Haram e de seus dissidentes que atuam no ISWAP – Estado Islâmico da África Ocidental – na região (uma década). Perto de 2 milhões de pessoas já se deslocaram dos países com atuação do Boko Haram, além da Nigéria, o Niger, Chad e Camarões. Significado de Boko Haram: a educação não islâmica é pecado.

– “Podemos ter um surto sobre um surto” disse o infectologista Anthony Fauci ontem (29) sobre os efeitos previstos do deslocamento massivo de pessoas nos Estados Unidos por conta do feriado de ação de graças da última semana. Calcula-se que mais de um milhão de pessoas viajaram de avião pelo país, número recorde desde o início da pandemia. Fauci falou também das vacinas. A vacina produzida pela Pfizer/BioNTech já chegou ao país vinda da Bélgica. O país já possui mais de 266 mil mortos pelo vírus e mais de 13 milhões de casos. 

Ana Prestes: Ana Prestes Socióloga, mestre e doutora em Ciência Política pela UFMG. Autora da tese “Três estrelas do Sul Global: O Fórum Social Mundial em Mumbai, Nairóbi e Belém” e do livro infanto-juvenil “Mirela e o Dia Internacional da Mulher”. É membro do conselho curador da Fundação Maurício Grabois, dirigente nacional do PCdoB e atua profissionalmente como assessora internacional e assessora técnica de comissões na Câmara dos Deputados em Brasília.
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