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Exclusivo! Delegado da PF manipulava investigação para arrancar propina de empresários da saúde

Por Miguel do Rosário

17 de dezembro de 2020 : 15h11

Essa é uma história que supera qualquer série do Netflix. 

Ao final de 2014, fizemos uma reportagem sobre o diretor regional dos Correios no Rio de Janeiro, Omar Moreira, que foi delatado por um de seus assessores. Moreira teve sua vida profissional destruída. Na época, quando ainda era muito rara qualquer crítica aos abusos cometidos pelas sucessivas operações de combate à corrupção, apontávamos para as graves inconsistências daquela delação. 

Hoje, alguns anos depois, o próprio Ministério Público, através da operação Tergiversação, descobriu que o delegado da Polícia Federal que encaminhou a delação contra Omar, o advogado que orientou o delator, e, possivelmente o próprio delator, faziam parte de um esquema para extorquir donos de hospital e empresários do ramo. Em troca de propina, o delegado, junto com seu escrivão, arquivava as investigações contra os verdadeiros corruptos.

No início de 2013, o gerente de saúde dos Correios detectou indícios de irregularidades na gestão do plano de saúde da estatal e informou ao diretor regional da empresa, Omar Moreira, que determinou imediatamente a abertura de procedimentos internos de investigação, e, em seguida, comunicou formalmente à Polícia Federal.

A PF, que tem um escritório dentro da sede dos Correios para reprimir crimes contra o serviço postal, começa a investigar e, alguns meses depois, em outubro de 2013, depara-se com um caso evidente, para não dizer grotesco, de fraude. João Maurício Gomes, então assessor da direção, publica em suas redes sociais fotos de si mesmo e de sua esposa, numa festinha de amigos. Acontece que, exatamente na mesma data, a mulher de João Maurício deveria estar internada num hospital em Laranjeiras, na zona sul do Rio. 

Após ser indiciado pelo delegado da PF que chefiava a investigação, Lorenzo Pompílio, e orientado pelo advogado Marcelo Guimarães, o assessor opta pela delação premiada. João Maurício, ao que tudo indica, foi cooptado nesse momento para participar de um esquema, montado às pressas, para extorquir os administradores do hospital Laranjeiras, onde a fraude tinha se dado. E ao invés de delatar os verdadeiros culpados, acusa o seu próprio superior, o diretor regional da estatal, Omar Moreira, um alvo vulnerável naquele momento político de caça às bruxas, por suas relações sindicais e partidárias. 

A delação de João Maurício não vem acompanhada de nenhuma prova do envolvimento de Omar em qualquer esquema; mas ele conseguiu duas testemunhas – um sobrinho e um amigo – para confirmar que viram ele mesmo, João Maurício, entregar um envelope a Omar, num posto de gasolina, à noite.  

O que seria, porém, mais uma triste história de injustiça e manipulação dos instrumentos de combate à corrupção, sofre uma reviravolta em meados de 2019. Uma outra operação do Ministério Público, a Tergiversação, começa a investigar indícios de que Lorenzo Pompílio, o delegado federal responsável pela Titanium, o seu escrivão Everton da Costa Ribeiro, além do advogado Marcelo Guimarães, que havia orientado o delator João Maurício, faziam parte de uma organização criminosa para extorquir donos de hospitais e empresários do ramo da saúde, em troca de abafamento ou manipulação das investigações iniciadas pela Titanium.  

Apesar de – estranhamente – ainda não ter sido denunciado, o delator João Maurício aparece frequentemente nos autos da Tergiversação como alguém muito próximo da quadrilha, e muito bem informado sobre seus métodos.

Foi encontrada, por exemplo, uma conversa de whatsapp entre o delator João Maurício e Marcelo Guimarães, o advogado que o orientava, e operador confesso do esquema de extorsão. Nessa conversa, João Maurício pergunta a Marcelo “se ainda há tempo para uma nova abordagem ao Hospital Balbino”, ao que Marcelo responde que “é preciso ter cuidado, pois já houve essa conversa”.

A conversa em questão é tratada nos autos a partir de mais de uma testemunha; um empresário do ramo da saúde, João Magalhães (dono do hospital em Laranjeiras onde foi detectada a fraude de João Maurício), que havia sido cooptado para a organização depois dele mesmo ter pago R$ 1 milhão à quadrilha, sugere aos donos do hospital Balbino que eles também deveriam pagar propina. Em caso contrário, as investigações contra eles iriam continuar, e haveria exposição de seus nomes na mídia, como de fato houve, pois os donos do Balbino não quiseram entrar no esquema, alegando não ter os mais de R$ 1 milhão exigidos pela quadrilha.

Essa conversa aconteceu depois da delação de João Maurício, e indica que o delator era íntimo o suficiente da organização criminosa, a ponto de ajudá-la a encontrar outros alvos. 

Há outras provas nos autos da Tergiversação que ligam o delator João Maurício ao núcleo duro da organização criminosa; por exemplo, um email, enviado por João Maurício ao escrivão da PF, Everton da Costa Ribeiro, e ao advogado Marcelo Guimarães, durante uma troca de emails sobre a existência de um “comentário num blog” que falava do esquema de extorsão praticado contra donos de hospitais. 

 

Há também uma conversa de whatsapp entre João Maurício e Marcelo Guimarães onde o delator, preocupado com sua situação, pergunta ao interlocutor se o delegado Lorenzo Pompílio não iria, conforme o combinado, “brecar” a investigação. 

As provas da Tergiversação são generosas, contando com a colaboração de vários empresários extorquidos e do próprio operador do esquema, Marcelo Guimarães. Elas oferecem fortes indícios de que o delegado, o escrivão e o advogado, conspiraram para inventar, com auxílio do delator João Maurício, versões fantasiosas para confundir o Ministério Público e manipular a opinião pública, incluindo aí as acusações contra o diretor regional dos Correios, Omar Moreira. 

Omar Moreira ainda aguarda a conclusão de seu processo. 

Miguel do Rosário

Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.

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