André Videira: Quando o carnaval de rua do Rio de Janeiro decidiu ficar em casa

Foto: Divulgação/ Renan Oliveira

Blocos e ligas assinam manifesto “Carnaval 2021 é em casa”

Por André Videira de Figueiredo

Filho do entrudo, brincadeira na qual os participantes lançavam uns nos outros farinha, balões de água e “limões de cheiro”, o carnaval de rua sempre foi um campo de lutas em torno das representações da sociedade brasileira, da cidade periférica e em torno de si mesmo.

Em uma tensão secular com as forças da ordem, as energias populares que o animam resistem, desde sempre, à criminalização pelo Estado, às tentativas de normatização pelo cristianismo, à docilização burguesa da festa pelas elites e às formas de cooptação pelos interesses do Capital. 

O carnaval de rua se define por um conjunto de manifestações populares, espontâneas e lúdicas que se distinguem, no Rio de Janeiro, do chamado “carnaval de avenida”, dos desfiles das grandes escolas de samba.

Em contraposição a este carnaval de escolas, fundado em uma divisão rígida e fechada entre oficiantes e espectadores e orbitando em torno da disputa entre agremiações, ele pressupõe a participação ativa e livre do folião, que “brinca” a festa sem nenhum outro objetivo que não a diversão propriamente dita. 

No contexto de ditadura militar, nos anos 1960 e 1970, o carnaval de rua do Rio de Janeiro viveu um momento de retração, em razão da ênfase das forças da ordem na promoção do carnaval de avenida.

A segunda metade da década de 1980 testemunhou, entretanto, sua retomada, no contexto da redemocratização da sociedade brasileira. Em franco crescimento nas últimas três décadas, tornou-se novamente uma potência, culminando em uma expansão no espaço e no tempo, tomando a cidade.

Em alguns momentos, os blocos, ranchos e cordões resistiram de forma espontânea e anônima às tentativas de proibição. No mais célebre desses momentos de desobediência civil, em 1912, quando o carnaval foi transferido para abril em razão da morte do Barão do Rio Branco, os foliões cariocas fizeram dois carnavais, eternizando esse momento em uma debochada quadrinha: “o barão morreu/ teremos dois carnavá/ ai que bom, ai que gostoso/ se morresse o marechá”. 

Esse ano, entretanto, marcado tanto pelo advento de uma pandemia quanto pelo descaso deliberado do Governo Federal, blocos, ligas e outros grupos ligados ao carnaval de rua do Rio de Janeiro se uniram em uma decisão unânime: a de não saírem em cortejo pelas ruas da cidade.

A despeito da suspensão da festa oficial pela administração municipal, a manutenção do feriado, em fevereiro, é alvo de preocupação das agremiações. Amplia a preocupação a aprovação, pelo governador em exercício Cláudio Castro, do projeto que cria o “CarnaRio”, carnaval fora de época no estado, no mês de julho, de autoria do deputado estadual Dionísio Lins (PP).

 Esses coletivos carnavalescos iniciaram, na última semana, campanhas próprias em torno do “carnaval em casa”. Fazem agora, além disso, por meio de um manifesto unificado, um potente apelo aos foliões anônimos espalhados pelo Rio de Janeiro: fiquemos todos em casa. Não devemos, contudo, nos enganar; esse apelo nada mais é que uma manifestação do espírito de resistência que marca o carnaval de rua desde o anárquico entrudo. Explico.

O carnaval é momento de afirmação das ruas como exemplarmente “exusíacas”, como aponta Luiz Antonio Simas. Momento de desafio à racionalidade, de invenção e improviso, de imprevisibilidades e brechas, de inversão e subversão da ordem.

Mas a dimensão exusíaca do carnaval de rua é também, e sobretudo, uma forma de celebração da vida. Como Simas primorosamente define, Exú representa o triunfo da vida sobre a morte. O carnaval de rua, exusíaco em cada batuque, sorriso, beijo, fantasia e grito alucinado, é a manifestação potente da energia vital da cidade e de seus foliões e foliãs.

E se o carnaval, mais que um evento, é um espírito que habita a cidade e movimenta os coletivos, é ele que ergue, hoje, sua voz pela vida como um dos valores fundamentais que definem a humanidade como tal.

O carnaval de rua é a cidade tomada de assalto por flaneurs, boêmios, malandros, foliãs, pernaltas, batuqueiras, passistas, ambulantes, exus e pombagiras. É também a conformação do Rio de Janeiro em uma comuna, um terreiro, uma grande praça. É território de uma nacionalidade de muitas bandeiras.

O povo do carnaval se encontra nas ruas, apesar de suas segmentações, no eterno desafio às muitas fronteiras que definem a sociedade brasileira. Tudo o que pede encontro, pede cuidado. Esse cuidado se manifesta, por exemplo, nas pautas que os blocos e ligas incorporaram nos últimos anos, em uma política da rua que prima pela inclusão, pela diversidade, pelo respeito mútuo e pela empatia.

É assim que o manifesto pelo “carnaval em casa” é, fundamentalmente, uma forma de resistência às formas de poder que se caracterizam pelo celebração e pela gestão da morte.

Se a necropolítica é, como aponta Achille Mbembe, a expansão da lógica do biopoder, que transforma a política em administração da morte a determinados grupos sociais, o governo Bolsonaro, ao transformar o negacionismo em moeda eleitoral, torna a expansão da morte em um modelo de gestão da crise.

Num mundo organizado sob a lógica do Capital, onde o tempo é dividido funcionalmente entre trabalho e lazer, essa forma de governar pela morte se manifesta de forma ambivalente. Por um lado, no abandono governamental das massas trabalhadoras à sanha assassina dos interesses econômicos; por outro, no incentivo, sobretudo pelo discurso do presidente, propositadamente orientado pela desinformação, à irresponsabilidade no desfrute do lazer.

Diante disso, cabe ao carnaval de rua, reino de Exú, contra-afirmar o primado da vida. Espera-se do prefeito Eduardo Paes, para além de simpatias declaradas ao carnaval, o necessário apoio a trabalhadores e trabalhadoras expostos, como tantos outros, à voragem do Capital. Também seria demonstração de cuidado do prefeito recém-eleito a suspensão do feriado.

Esse é um momento precioso, no qual blocos, fanfarras, ligas e coletivos carnavalescos participam ativamente de uma redefinição do carnaval e, portanto, da própria cidade. Essa reinvenção é também afirmação de significados que, ano a ano, se manifestam nas ruas, nos “barracões”, nas conversas de botequim nas quais, diante de uma cerveja gelada, novos grupos são criados e novos sentidos políticos e culturais da festa são afirmados. Um jogo dialético de mudança constante e manutenção da tradição, no que as tradições têm de mais caras e fundamentais a um povo.

Vale a atenção, na lista de subscrições do manifesto, para a unidade histórica que a diversidade de agremiações afirma. Assinam o documento blocos que materializam, em suas cores e ritmos, a presença insistente do carnaval nas encruzilhadas de diversos Rios de Janeiro.

Está lá, com o centenário Cordão do Bola Preta, o carnaval que resistiu e atravessou a modernização da cidade à moda parisiense, no inícios do século XX. Está lá a cidade que sobreviveu aos anos de chumbo, afirmando o poder do povo sobre a máquina devoradora do autoritarismo. Estão lá, organizados em torno da Liga Sebastiana, os coletivos que, ao sentirem soprar a brisa da democracia, ocuparam as praças para pedir por eleiçoes diretas para presidente.

Está lá o carnaval que, animado pelo movimento do neofanfarrismo, explodiu nas esquinas da cidade, na contramão de um modelo de mercantilização da cultura. Trata-se – a lista não deixa dúvidas – de um patrimônio cultural imaterial do Rio, fundado na afirmação da rua como a parte mais importante da cidade, como disse Paulo Leminski.

Não é fácil, para nenhum destes herdeiros e herdeiras do entrudo, planejar um carnaval em casa. Mas é admirável o modo como fazem desse momento uma manifestação da vida pulsante, uma gestação de retorno, uma contagem regressiva para a explosão, quando estivermos todos e todas em segurança. Não há riscos nessa decisão. As ruas são de Exú, são do carnaval. São de seu povo. No carnaval, desse povo transformado em foliões. Voltaremos. 

Segue o texto do manifesto, acompanhado das agremiações e coletivos que o subscrevem:

O prefeito Eduardo Paes declarou que não haverá carnaval em julho, devido à ausência de condições para imunização total da população. No entanto, o feriado de fevereiro está mantido. 

O carnaval de rua é um movimento, uma força que resiste e ocupa, tomando de volta para as pessoas um espaço que lhes pertence. Este ano, porém, por mais paradoxal que possa parecer, ficar em casa será a nossa forma de resistência. A resistência ao negacionismo como instrumento de uma política de morte. É vital que marquemos uma posição firme.

Portanto, nós, blocos, ligas, fanfarras e movimentos do carnaval de rua do Rio de Janeiro, declaramos por meio desse manifesto que não desfilaremos em 2021. Fazemos a todos os cidadãos e cidadãs o apelo de que se juntem a nós nesse momento histórico tão difícil que vivemos. 

Quando estivermos todos seguros e imunizados, faremos a maior folia que essa cidade já viu. Neste momento, entretanto, estamos todos e todas unidos pela vida. Pedimos que não aglomerem e fiquem em casa. 

O carnaval vive e alimenta nossas almas. A hora em que ele sair, não vai ter quem segure.

Assinam esse manifesto:

Academicos do E. Dentro

Agytoê

Alegria de Quintino

Amigos da Cacilda

Amigos da Esquina

Atenta e Forte

Balanço do Jamelão

Balanço do Pinto

Banda de Ipanema

Banda do Mackenzie

Banda do Meier

Banda Galo do Meier

Banda Vai tomar no Azul

Baque Mulher

Besame Mucho

Bezerro Tolinho

Bloco 442

Bloco Aí Sim

Bloco Amigos da Joaquim Meier

Bloco Butano na Bureta

Bloco Chora 10

Bloco Cultural 7 de Paus

Bloco Cultural Mulheres Brilhantes

Bloco da Ansiedade

Bloco da Gravata Florida

Bloco D’Águas

Bloco das Carmelitas

Bloco das Divas

Bloco das Fridas

Bloco das Tubas

Bloco de Segunda

Bloco do AfroJazz

Bloco do Bagunço

Bloco do Barbas

Bloco Eficiente

Bloco Estratégia

Bloco Exagerado

Bloco Guri da Merck

Bloco Nada Deve Parecer Impossível de Mudar

Bloco Olha Pá Mim

Bloco Pipoca e Guaraná

Bloco Se For Deu

Bloco Seu Kuka

Bloco Superbacana

Bloco to Be Wild

Bloco TTT

Bloco Virtual

Blocobuster

Bloconcé

bLoka

Blonk

Boto Marinho

Brasilia Amarela

Brejeiro

Caetano Virado

Calcinhas Bélicas

Canários do Reino

Candybloco

Caramuela

Carimbloco

Cartela Nova

Cartola é do Cacete

Céu Na Terra

Charanga Talismã

Charanga Venenosa

Clubinho do Samba

Conjunto Habitacional Barangal

Cordão da Bola Preta

Cordão do Boi Tolo

Cordão do Boitatá

Cordão do Bola Laranja

Cordão do Prata Preta

Cortejo dos Signos

Dalí Saiu Mais Cedo

Derê

Desce Mas Não Sobe

Desliga dos Blocos

Dinossauros Nacionais

É Tudo ou Nada?!

Escravos da Mauá

Eu Sou Eu, Jacaré é Bicho d´Agua

Fanfarra Black Clube

Favela Brass

Filhotes Famintos

Fogo & Paixão

FoliON

Gigantes da Lira

Gigantes na Luta

Gota Serena

Ibrejinha

Ih, é Carnaval

Imprensa que eu gamo

Labirintos Públicos

LambaBloco

Liga Amigos do Zé Pereira

Liga Carnafolia

Liga CORETO 

Liga dos Blocos da Zona Portuária

Liga João Nogueira

Liga Sambare

Liga Sebastiana

Locomotiva da Baixada

Loucura Suburbana

Mais Carnaval, Menos Ódio

Manie Bloco

Maracutaia

Marcha Nerd

Maria Vem com as Outras

Me Enterra na Quarta

Metais Pesados

Meu Bem Volto Já

Meu Doce Acabou Hoje

Mistério Há de Pintar Por Aí

Monobloco

Mulheres de Chico

Mulheres Rodadas

Multibloco

Nada D+

Nem Muda, Nem Sai de Cima

New Kids on the Bloco

Noites do Norte

NossoBloco

O Baile Todo

Ocupa Carnaval

Orquestra Circônica

Orquestra Voadora

Os Biquínis de Ogodô Convidam as Sungas de Odara

Os Siderais

Perereca do Grajaú

Planta na Mente

Põe na Quentinha?

Que Merda é Essa

Que Pena, Amor

Rio Maracatu

Sargento Pimenta

Sem Pretensão

Sepulta Carnaval

Sereias da Guanabara

Simpatia é Quase Amor

Studio 69

Surdos e Mundos

Suvaco do Cristo

Tá Pirando, Pirado, Pirou

Tambores de Olokun

TechnoBrass

Thetheca do E.Dentro

Tigre da Travessa Miracema

Toco-Xona

Toques para Odudua

Traz a Caçamba

Trombetas Cósmicas do Jardim Elétrico

Tupife

Urubuzada

Vai Tomar na Cuia

Vamo, ET

Vem Cá, Minha Flor

Volta, Alice

Xêpa Gurmê

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