Boletim Focus prevê estabilidade macroeconômica até 2028

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As projeções do Boletim Focus, divulgadas esta semana (9 de fev de 2026) pelo Banco Central do Brasil, desmontam mais uma rodada do terrorismo fiscal que domina parte da cobertura econômica no país. O levantamento — que consolida as expectativas do próprio mercado financeiro — aponta queda da inflação, melhora gradual do resultado primário, redução do déficit nominal ao longo do tempo e estabilidade nos principais fundamentos macroeconômicos.

Começando pela inflação: a mediana das projeções para o IPCA de 2026 caiu novamente, de 3,99% para 3,97%, abaixo do centro da meta. Para 2027, 2028 e 2029, o mercado projeta inflação absolutamente estável em 3,8% e depois 3,5%, sem qualquer sinal de desancoragem. O discurso de perda de controle inflacionário simplesmente não encontra respaldo nos dados.

O crescimento econômico também permanece estável nas projeções. O PIB é estimado em 1,8% em 2026 e 2027, avançando para 2,0% em 2028 e 2029. Não é um crescimento exuberante, mas tampouco é recessivo — e, sobretudo, é incompatível com a narrativa de colapso fiscal iminente.

No campo fiscal, os dados são ainda mais reveladores. O resultado primário — que mede a diferença entre receitas e despesas do governo antes do pagamento de juros da dívida — apresenta trajetória de melhora contínua. O déficit primário projetado para 2026 caiu de -0,53% para -0,52% do PIB. Em 2027, o mercado projeta -0,40%, avançando para -0,20% em 2028 e equilíbrio (0,0%) em 2029.

Já o resultado nominal, que inclui os juros da dívida e costuma ser explorado de forma sensacionalista no debate público, também melhora gradualmente. O déficit nominal projetado cai de -8,6% do PIB em 2026 para -8,0% em 2027, -7,5% em 2028 e -7,2% em 2029.

Vale explicar: o resultado nominal é fortemente influenciado pelo nível da taxa de juros. Com a Selic ainda elevada em 2026 (12,25%), o peso dos juros segue alto. À medida que o mercado projeta juros menores nos anos seguintes, o déficit nominal tende a cair — mesmo sem qualquer ajuste fiscal draconiano.

É verdade que a dívida líquida do setor público apresenta alta gradual nas projeções, passando de 70,2% do PIB em 2026 para cerca de 79,3% em 2029. Mas essa trajetória precisa ser lida em conjunto com os demais indicadores. A combinação de resultado primário em melhora, déficit nominal em queda, inflação controlada e crescimento estável aponta para um processo de estabilização da dinâmica da dívida, não para uma espiral fora de controle.

No setor externo, o cenário é igualmente sólido. A balança comercial permanece robusta, com superávits projetados entre US$ 67,5 bilhões em 2026 e US$ 75 bilhões em 2029. A conta corrente segue deficitária, mas estável, enquanto o investimento direto no país permanece elevado e constante, em torno de US$ 74 bilhões a US$ 80 bilhões ao longo de todo o horizonte projetado.

Em resumo, o Boletim Focus — o mesmo instrumento frequentemente usado como arma retórica contra o governo — mostra agora um quadro de normalidade macroeconômica: inflação sob controle, crescimento previsível, setor externo sólido e ajuste fiscal gradual, sem choques recessivos.

Miguel do Rosário: Miguel do Rosário é jornalista e editor do blog O Cafezinho. Nasceu em 1975, no Rio de Janeiro, onde vive e trabalha até hoje.
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