Para Mohammad Marandi, professor da Universidade de Teerã, os EUA estão desesperadamente tentando preservar seu império
Logo após o sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro e da ex-primeira dama e deputada Cilia Flores, nos primeiros dias do ano, a Casa Branca direcionou sua máquina de “mudança de regime” para outra potência energética: o Irã. Prestes a completar 47 anos, a Revolução Islâmica sempre foi uma pedra no sapato dos EUA e, principalmente, de Israel.
Teerã é o maior apoiador da causa palestina no mundo e, na prática, o maior entrave ao projeto sionista da “Grande Israel”, que pressupõe a expulsão, ou o extermínio, do povo palestino de sua terra. Por isso, derrubar o governo revolucionário iraniano sempre esteve entre as prioridades de Washington e Tel Aviv.
Assim como Cuba, o Irã também é alvo de pesadas sanções do Ocidente, impostas em distintas ondas, desde a revolução que derrubou a ditadura do Xá Reza Pahlevi. Tais sanções vêm causando inúmeros danos à sua economia e ao seu povo e, desde outubro, elas foram agravadas por uma nova rodada delas, impostas por meio da Organização das Nações Unidas (ONU).
Além disso, os EUA admitiram ter operado ataques financeiros para desvalorizar a moeda iraniana nos últimos meses, causando enorme pressão econômica, que dispararam protestos populares legítimos e pacíficos, em um primeiro momento.
No entanto, após alguns dias, principalmente nos dias 8 e 9 de janeiro, tais protestos foram infiltrados por agentes organizados por forças externas dos EUA e de Israel (conforme admitidos por ambos publicamente), causando muita destruição e mortes nas ruas do país, e tendo sido fortemente reprimido pelas forças de segurança iranianas. Como reação popular, massivas mobilizações nas ruas em apoio ao governo aconteceram no dia 12 de janeiro.
Desde então, os EUA vêm deslocando inúmeras forças militares para a região e Trump passou dias ameaçando bombardear o Irã. Mas, nos últimos dias, parece ter recuado depois das ameaças iranianas de que um ataque estadunidense teria como consequência uma guerra regional. Uma primeira rodada de negociações entre EUA e Irã aconteceu na última sexta-feira (6), nos Emirados Árabes Unidos, aparentemente ainda sem resultados significativos. Mas ambos países declararam estar discutindo a possibilidade de uma segunda rodada de negociações.
Para analisar essa conjuntura, o Brasil de Fato conversou com o professor de literatura inglesa da Universidade de Teerã, Mohammad Marandi, uma das principais referências nas análises geopolíticas sobre o Irã em canais ocidentais.
Marandi é filho de uma importante figura do movimento revolucionário islâmico, o médico pediatra Alireza Marandi, que foi ministro da saúde da República Islâmica duas vezes. O professor nasceu nos EUA, onde viveu até os 13 anos de idade, pois sua família estava exilada para escapar da ditadura de Xá Pahlavi.
Pouco depois de retornar ao Irã, aos 16 anos, Marandi se voluntariou para lutar na guerra contra o Iraque, na qual escapou da morte quatro vezes – tendo sido baleado duas vezes e alvo de dois ataques químicos.
Confira a entrevista completa
Brasil de Fato: Nos últimos dias, os EUA enviaram sua marinha para a região do Golfo Pérsico e Trump ameaçou atacar o Irã, tentando forçar negociações para que o país suspenda seu programa nuclear, entregue seus mísseis balísticos e pare de apoiar a resistência palestina na região. Quais são as chances de negociação nesses termos? O que o governo iraniano está disposto a negociar?
Mohammad Marandi: A posição iraniana é bastante clara. Na verdade, está bastante claro que não vai negociar suas capacidades militares. Portanto, seu programa de mísseis está fora de cogitação. Também não vai negociar suas alianças regionais. Portanto, essas também estão fora de cogitação.
O programa nuclear é algo que o Irã está disposto a discutir, mas não o enriquecimento em si. Isso também está fora de questão. E o que pode ser negociado é um mecanismo para garantir que o programa nuclear do Irã seja pacífico. Isso é algo que já fizemos antes e que o próprio Trump destruiu. O JCPOA (Joint Comprehensive Plan of Action, ou Plano de Ação Conjunto Abrangente, em português), o acordo nuclear de 2015. Então, é isso que o Irã está disposto a negociar.
É claro que o Irã esperará, na mesa de negociações, um acordo muito melhor do que o de 2015. Porque o Irã avançou desde então e foi traído pela violação desse acordo pelos EUA. E o Irã sofreu por causa disso. Portanto, a única coisa realmente aberta para negociações é uma estrutura na qual o programa de enriquecimento de urânio do Irã possa funcionar e atender, ou ter em conta, as preocupações, ou potenciais preocupações, dos países ocidentais.
O governo iraniano respondeu nos últimos dias que qualquer ataque ao país será respondido com uma guerra regional contra os EUA e seus aliados. Se isso acontecer, quais são as possíveis consequências militares e econômicas de um conflito regional? O Wall Street Journal publicou um artigo afirmando que Trump recuou de um ataque neste momento devido à falta de defesa suficiente para seus aliados na região no caso de um contra-ataque iraniano. Como você avalia essa declaração?
Sim, essa é uma posição que os iranianos declararam e eles definitivamente cumprirão o que disseram que fariam. Se os Estados Unidos atacarem o Irã, mesmo que seja um ataque limitado, os iranianos responderão com força total. O Irã não aceitará agressões e não permitirá que os Estados Unidos sejam encorajados a cometer agressões. Portanto, se os Estados Unidos decidirem atacar o Irã, não há dúvida de que os Estados Unidos sofrerão um ataque muito forte.
Os recentes protestos, que começaram por uma questão econômica legítima – a desvalorização do rial –, foram claramente explorados por forças externas, como o Mossad (reconhecido tanto por Mike Pompeo quanto pelas autoridades israelenses), para desestabilizar o governo revolucionário. A mídia ocidental tem agitado um “escândalo” sobre as supostas milhares de mortes atribuídas à repressão aos protestos, mas nada é dito sobre o número de policiais e funcionários assassinados por agentes de inteligência estrangeiros. O que realmente aconteceu durante esses dias?
É bastante claro o que aconteceu. O Ocidente está inventando uma história. Eles realizaram uma conspiração contra o país, primeiro pressionando o rial, algo que o secretário do Tesouro dos EUA já admitiu duas vezes e até se gabou disso. Então, houve protestos pacíficos, que não tiveram prisões, nem perseguição policial. Mas, após alguns dias de protestos, que não foram muito grandes, vimos um influxo repentino de manifestantes, provocadores e terroristas muito bem treinados. Eles mataram um grande número de policiais na noite de quinta-feira, 8 de janeiro. E em 9 de janeiro, a polícia e as forças de segurança entraram em confronto com eles. E 3.117 pessoas foram mortas, incluindo policiais e muitos transeuntes inocentes que foram alvos desses terroristas porque eles queriam aumentar o número de vítimas para justificar a intervenção dos EUA.
E, claro, como você corretamente apontou, a Mossad admitiu seu papel. Eles emitiram uma declaração em persa dizendo que estão no local. [Mike] Pompeo [ex-secretário de estado do primeiro mandato de Trump] declarou duas vezes em um tuíte, e também no canal 13 de Israel, que os Estados Unidos e Israel estão nas ruas com os manifestantes. E, no canal 13 de notícias de Israel, ele disse que os EUA estão envolvidos. Além disso, o canal 14 de Israel disse que eles trouxeram armas para o Irã, o que resultou na morte de centenas de policiais.
Depois disso, vimos essa campanha da mídia ocidental com números ridículos, basicamente para justificar a guerra. Mas o governo iraniano divulgou o número de vítimas e os nomes de cada pessoa, juntamente com seus dados de identificação. E, em geral, a mídia ocidental ignorou isso, mesmo sem ter uma resposta para isso. Mas os Estados Unidos e o Ocidente não têm condições de fornecer números alternativos, porque simplesmente inventam números.
Recentemente, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, gabou-se publicamente de um ataque financeiro à moeda iraniana, que alegadamente causou a forte desvalorização do rial. Além desse suposto “ataque financeiro”, as novas sanções impostas pelos EUA e pela UE por meio da ONU, através do mecanismo de snapback relacionado ao fim das negociações do JCPOA (desde outubro), tiveram algum efeito, tornando o comércio exterior ainda mais difícil para o Irã? Quanto a guerra econômica imposta pelo Ocidente prejudicou a economia iraniana?
O mecanismo de snapback falhou em grande parte porque os russos e os chineses se recusaram a reconhecê-lo. Os Estados Unidos e os europeus coordenam-se entre si, e também com certos países da região, para exercer pressão sobre outras entidades, outros países. Então, temos décadas de sanções e sanções de pressão máxima. Nós também as tivemos durante anos. Mas este foi um esforço coordenado para derrubar repentinamente a moeda, a fim de iniciar e inflamar os distúrbios violentos.
Como eu disse, durante esses distúrbios, esses manifestantes eram como o Isis [Estado Islâmico]. Eles queimaram 15 pessoas vivas. Destruíram centenas de bancos. Em 48 horas, literalmente, destruíram centenas de ambulâncias e carros de bombeiros muito caros, ônibus públicos, centenas de centros educacionais e bibliotecas e centenas de mesquitas. Foi extraordinário o quão rápidos eles foram, o quão bem treinados estavam para realizar essa operação.
Afinal, por que os EUA insistem em querer derrubar o governo revolucionário islâmico após quase 50 anos, mesmo tendo fracassado até agora?
Na verdade, há duas razões. Uma é que, após a revolução, o Irã tornou-se independente tanto do bloco ocidental quanto do oriental, e essa independência era algo que nem o bloco liderado pelos EUA, nem a União Soviética e seu bloco, gostavam. Por isso, eles cooperaram juntos contra o país.
Após a queda da União Soviética, os Estados Unidos continuaram a antagonizar o Irã. Além disso, o apoio do Irã aos movimentos de libertação em todo o mundo, seja na África do Sul, na América Latina e, claro, na Palestina, também foi um dos principais motivos para sua hostilidade. O movimento de libertação que mais incomoda os americanos é o do povo palestino. Inclusive, no momento, esse é o maior motivo da hostilidade dos EUA em relação à Europa.
Tanto os governos ocidentais quanto a mídia promoveram o filho do ex-xá Reza Pahlavi como uma possível “opção” em uma eventual operação de mudança de regime. O Sr. Pahlavi está longe do Irã desde a revolução. Como está sua popularidade no país atualmente?
Ele não é popular no meio do povo iraniano. Ele nunca morou no país nos últimos 50 anos. Seu pai e seu avô eram extremamente corruptos, e seu pai criou a temida polícia secreta Savak [Organização de Segurança e Inteligência Nacional, em português]. Quando a revolução aconteceu, eles roubaram bilhões de dólares e levaram para o exterior. Hoje, ele é constantemente visto com Netanyahu e está pedindo aos israelenses e americanos que bombardeiem o Irã. Obviamente, uma pessoa como essa não terá apoio no povão. Ele também é um personagem meio ridículo, e sua família tem muitos problemas que são constantemente ridicularizados pelos iranianos comuns. Portanto, ele não tem legitimidade, nem apoio popular. Ele é apenas uma ferramenta do império para mobilizar seus recursos contra o país.
Qual tem sido o papel dos parceiros estratégicos do Irã, China e Rússia, durante as últimas semanas tensas de ataques dos EUA e do regime sionista? Eles estão apoiando o Irã economicamente ou militarmente? Até que ponto um ataque ao Irã neste momento pode ser interpretado como um ataque ao Brics?
Os russos, chineses e iranianos cooperam muito. Eles têm relações comerciais e empresariais extensas. Eles não fornecem assistência no sentido de darem algo ao Irã de graça. O Irã compra o que precisa da Rússia e da China e, em grande medida, especialmente da Rússia. A cooperação é muito estreita. A Rússia também compra o que precisa dos iranianos, tanto militar quanto civil. As rotas comerciais entre os três países também estão se expandindo. O corredor norte-sul entre o Irã e a Rússia e a Nova Rota da Seda, com a China. Tudo isso está avançando.
A relação com a Rússia evoluiu mais rapidamente em alguns aspectos, porque ambos os países estão totalmente sancionados e isso facilita a cooperação. Mas, devido ao peso da China, a relação com a China é, obviamente, muito importante. E, sim, não há dúvida de que um ataque ao Irã é um ataque ao Brics. É um ataque a um mundo multipolar. Os Estados Unidos estão tentando desesperadamente preservar seu império.
Uma crítica comum dos círculos progressistas e anti-imperialistas da América Latina ao Irã é rotular o país como uma chamada “teocracia”, já que o chefe de Estado é o Líder Supremo, um aiatolá. Ao mesmo tempo, o Irã tem eleições democráticas tanto para presidente – com rotação de diferentes orientações políticas – quanto para o Parlamento. Como você caracterizaria o sistema político iraniano?
Acho que na América Latina, a esquerda é frequentemente influenciada pelas narrativas ocidentais. E, portanto, eles se equivocam muito sobre o Irã. O Irã é uma república islâmica e, portanto, não é uma teocracia, é uma democracia islâmica. Todas as democracias têm suas limitações, e uma democracia islâmica também é uma democracia limitada. É claro que não considero os países ocidentais democráticos. E acho que, depois de Epstein, ficou muito claro que o Ocidente é governado pela “classe Epstein”. E a democracia é apenas uma fachada.
Mas no Irã, o próprio líder é escolhido por um conselho de especialistas. E ele pode ser destituído pelo conselho de especialistas. Temos o presidente e o parlamento, que são escolhidos pelo povo, e temos eleições locais para cidades e municípios. E também há eleições. Não é uma utopia, mas o Irã é muito mais aberto e democrático do que os aliados dos EUA em toda a nossa região. E, como eu disse, o Ocidente se expôs pelo que realmente é, especialmente depois de Epstein.
A revolução está perto de seu 50º aniversário e tem mostrado uma impressionante capacidade de resiliência, sendo alvo dos EUA desde o primeiro dia da vitória do movimento popular que levou à revolução. Veja-se, por exemplo, o desenvolvimento da ciência, em que o Irã apresenta muitas conquistas importantes (produtos farmacêuticos, militares, programa nuclear, etc.), apesar das pesadas sanções impostas pelo Ocidente. Quais você acha que são as principais conquistas da revolução para o povo iraniano após quase meio século de resistência e tentativas de construir um caminho soberano para o seu país?
O Irã conquistou muito sob as sanções de pressão máxima e a guerra que os EUA e o Ocidente impuseram ao Irã por meio de Saddam Hussein e, mais recentemente, por meio de Israel, e apesar do terrorismo que o Ocidente impôs ao país. Vemos que o país avançou muito em áreas de alta tecnologia e acho que suas capacidades de defesa refletem isso. O próprio fato de o Irã ter sido capaz de se defender contra os ataques conjuntos dos EUA e de Israel e ter sido capaz de responder de uma forma que os forçou a recuar mostra, na minha opinião, as capacidades mais amplas do Irã como um país tecnologicamente avançado.
A educação universal no Irã, que era muito baixa antes da revolução, especialmente para as mulheres, está agora entre as mais altas do mundo, tanto no nível escolar, quanto no universitário. E se não houvesse sanções, o Irã hoje provavelmente estaria à frente da maioria dos países mais desenvolvidos do Sul Global, e até mesmo de muitos dos países do Ocidente. Foi sob guerras, terrorismo e sanções que o Irã conquistou tanto. E então eu acho que, com a ascensão do Brics e o declínio do Império Ocidental, os próximos anos serão mais fáceis para os iranianos se desenvolverem e esperamos ter a oportunidade de lidar com as deficiências que possuímos hoje como resultado da hostilidade do poder global.
Publicado originalmente pelo Brasil de Fato em 09/02/2026
Por Marco Fernandes – Moscou (Rússia)
Edição: Maria Teresa Cruz