Grupo político de Raquel Lyra avalia que apoio do PL traria desgaste eleitoral e comprometeria alianças construídas com Lula no estado
Aliados da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), avaliam que não deve prosperar a sinalização de apoio feita pelo senador Flávio Bolsonaro (PL) à sua eventual candidatura à reeleição em 2026. Anotações atribuídas ao parlamentar, com estratégias partidárias nos estados, indicam que o PL considera o nome da atual chefe do Executivo estadual como única opção competitiva para o governo pernambucano.
Apesar disso, a governadora evitou comentar o tema publicamente. Nos bastidores, porém, integrantes de seu grupo político afirmam que a proposta dificilmente avançará. Eles avaliam que uma aliança com o bolsonarismo não se encaixa no desenho eleitoral construído até agora. Além disso, temem desgaste junto ao eleitorado que rejeita o campo conservador no estado.
Esse posicionamento reflete uma estratégia pragmática. Pernambuco apresentou ampla vantagem para Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2022. O presidente derrotou Jair Bolsonaro no segundo turno por 67% a 33%, consolidando o estado como um dos principais redutos do campo progressista no Nordeste.
Proximidade com Lula orienta decisões políticas
Raquel Lyra mantém relação política próxima com Lula. Em reunião recente, ela reafirmou que apoiará a reeleição do presidente, desde que ele mantenha neutralidade na disputa estadual. Essa condição revela o delicado equilíbrio que a governadora tenta sustentar entre alianças nacionais e interesses locais.
Ao mesmo tempo, aliados e integrantes do próprio PL em Pernambuco avaliam que ela não deve fazer campanha para Flávio Bolsonaro. A leitura predominante é que o eleitorado pernambucano mantém forte resistência ao bolsonarismo. Portanto, uma associação direta poderia gerar custos políticos relevantes.
Por outro lado, entre bolsonaristas locais cresce a percepção de que Raquel seria a alternativa viável diante da rejeição ao prefeito do Recife, João Campos (PSB). O gestor municipal desponta como principal adversário da governadora e tende a formar palanque com o PT, fortalecendo a base de apoio a Lula no estado.
O deputado federal Coronel Meira (PL-PE) expressou essa visão ao declarar: “Tenho ressalvas em relação a ela, sobretudo na parte de segurança pública, mas os únicos candidatos no estado são Raquel e João. No segundo turno da eleição passada, votei nela”. A fala evidencia o pragmatismo de setores conservadores diante do cenário polarizado.
Disputa pelo Senado amplia incertezas no estado
As anotações atribuídas a Flávio Bolsonaro também revelam indefinição na corrida ao Senado em Pernambuco. Inicialmente, os nomes cogitados foram Anderson Ferreira (PL) e Miguel Coelho (União Brasil). Contudo, o nome de Anderson aparece riscado no documento, substituído por “Mendonça Filho (PL)”, indicando expectativa de mudança partidária.
Mendonça Filho não se manifestou sobre a possível filiação ao PL. A hipótese, entretanto, divide lideranças partidárias. Uma observação no documento registra: “Cel Meira gosta. Só Gilson não gosta”. Procurado, o ex-ministro do Turismo Gilson Machado (Podemos) contestou a anotação e afirmou: “Sou amigo de Mendonça, como vou ser contra?”.
Gilson acrescentou que é pré-candidato ao Senado ou à Câmara dos Deputados e que conta com o apoio de Jair Bolsonaro para disputar. Ainda assim, Mendonça é visto como nome competitivo. No momento, porém, ele trabalha com a perspectiva de tentar a reeleição à Câmara.
Esse impasse evidencia a fragmentação do campo conservador no estado. Enquanto isso, forças progressistas buscam consolidar alianças e ampliar a base eleitoral, mirando a manutenção da influência no Nordeste.
Estratégia nacional do PL revela disputas regionais
O rascunho atribuído a Flávio Bolsonaro percorre todos os estados brasileiros. O documento reúne avaliações sobre candidaturas ao governo, disputas ao Senado e possíveis composições partidárias. As anotações revelam um esforço do PL para estruturar palanques competitivos e ampliar sua presença regional.
Em Minas Gerais, há referência ao vice-governador Mateus Simões (PSD), pré-candidato ao governo. O texto aponta que ele “puxa para baixo”, interpretação associada ao compromisso com o governador Romeu Zema (Novo) na disputa presidencial. Mateus declarou: “Acho que minha relação com o PL local e com Nikolas [Ferreira] mostra que esse é um risco que podemos minimizar em um palanque ‘misto'”.
No Paraná, surge a possibilidade de palanque duplo caso o governador Ratinho Júnior (PSD) dispute a Presidência. Para o governo estadual, aparecem os nomes do secretário Guto Silva (PSD) e do senador Sergio Moro (União Brasil).
Na Bahia, o senador Flávio pretende procurar ACM Neto (União Brasil) antes de estruturar palanque. Já em Alagoas, as opções ao governo incluem o prefeito JHC (PL) e o deputado Alfredo Gaspar (União Brasil). Sobre Gaspar, consta a anotação: “Único que pedirá voto para mim”.
Nordeste segue como campo decisivo na disputa política
O conjunto de articulações evidencia que o Nordeste permanece central na estratégia eleitoral nacional. Estados como Pernambuco, Bahia e Alagoas concentram disputas simbólicas entre projetos políticos antagônicos. Ao mesmo tempo, a região apresenta forte inclinação ao campo progressista, o que impõe desafios adicionais ao bolsonarismo.
Nesse contexto, a recusa de aliados de Raquel Lyra em formalizar apoio a Flávio Bolsonaro sinaliza cautela. A governadora tenta preservar pontes com diferentes setores, mas evita comprometer sua base eleitoral. Essa postura reflete a complexidade do cenário político pernambucano, marcado por polarização, alianças fluidas e disputas internas.
Além disso, a tendência de aproximação entre PSB e PT no estado pode consolidar um palanque robusto para Lula, caso João Campos confirme candidatura. Essa possibilidade aumenta a pressão sobre Raquel, que busca manter competitividade sem romper com aliados estratégicos.
Cenário em construção e efeitos para 2026
Embora as definições ainda estejam em aberto, os movimentos atuais antecipam a disputa de 2026. A possível rejeição ao apoio do PL indica que alianças serão moldadas mais por identidade política e viabilidade eleitoral do que por conveniência momentânea.
Ao mesmo tempo, o cenário revela a tentativa do bolsonarismo de ampliar presença no Nordeste, região onde enfrenta forte resistência. Já o campo progressista aposta na manutenção de alianças e na defesa de políticas sociais para consolidar apoio popular.
Diante desse quadro, Pernambuco surge como território simbólico. A decisão de Raquel Lyra — equilibrando pragmatismo e coerência política — pode influenciar não apenas a eleição estadual, mas também o desenho das forças nacionais. O desfecho dessas articulações mostrará se a governadora conseguirá sustentar uma posição independente sem perder apoio em um ambiente político cada vez mais polarizado.
Com informações de Brasil 247*