A guerra contra o Irã pode se revelar o maior desastre estratégico dos Estados Unidos desde a invasão do Iraque.
Mesmo que Israel saia do conflito com ganhos militares claros, Washington corre o risco de ficar preso em um impasse prolongado cujos custos políticos, econômicos e geopolíticos se espalham muito além do Oriente Médio.
Na avaliação de Trita Parsi, do Quincy Institute e um dos principais especialistas em relações entre EUA e Irã, os cálculos estratégicos de Washington e de Tel Aviv são profundamente distintos. É justamente essa divergência que torna o conflito tão perigoso para os americanos.
Para o governo israelense, o objetivo central não é necessariamente derrubar o regime iraniano, mas degradar permanentemente a capacidade militar, econômica e estatal do país. A lógica é impedir que o Irã volte a se constituir como rival regional capaz de desafiar a supremacia de Israel.
Para os Estados Unidos, o cenário é muito mais complicado: mesmo que a Casa Branca declare o fim das hostilidades, não há garantia de que Teerã aceite encerrar a guerra. Pelo contrário, com infraestrutura energética destruída, economia estrangulada e sanções ainda mais duras, a liderança iraniana tem todos os incentivos para prolongar o conflito até que o custo para os adversários se torne insuportável.
Aceitar um cessar-fogo nessas condições significaria permanecer vulnerável a novas ofensivas no futuro. O cálculo estratégico de Teerã é transformar a guerra em um impasse caro e politicamente desgastante, de modo que uma nova intervenção militar se torne inviável.
O conflito já produz ondas de choque na economia global. Tensões no Golfo e danos à infraestrutura energética iraniana afetam diretamente o fluxo de petróleo, pressionam mercados internacionais e desorganizam cadeias de abastecimento.
Em algumas regiões da Ásia, governos chegaram a considerar redução de jornadas de trabalho e fechamento de escolas diante da escassez de combustível. A guerra no Irã, em outras palavras, já não é um problema regional. É um problema de todos.
Outro risco é o colapso interno do Estado iraniano. Se o país mergulhar em instabilidade profunda ou guerra civil, uma crise humanitária envolvendo mais de 90 milhões de pessoas poderia gerar fluxos migratórios massivos em direção à Europa. Experiências recentes mostram como poucos milhões de refugiados já foram suficientes para alterar radicalmente o cenário político europeu. Uma crise no Irã teria proporções incomparavelmente maiores.
O conflito também expõe uma mudança de percepção dentro do próprio Irã. Durante anos, parte da oposição acreditou que uma intervenção externa enfraqueceria o aparato repressivo do regime e abriria espaço para uma revolta popular. Mas bombardeios contra refinarias, redes elétricas e infraestrutura civil reforçam a percepção de que a guerra é contra o país, não apenas contra o governo.
Em vez de enfraquecer o regime, o efeito tende a ser o oposto: consolidar um sentimento de mobilização nacional diante da agressão externa.
A estratégia americana de “pressão máxima” por meio de sanções já havia produzido efeitos devastadores antes da guerra. Em poucos anos, milhões de iranianos foram empurrados para a pobreza, a classe média se deteriorou e o sentimento de desesperança alimentou a ilusão de que uma intervenção externa rápida derrubaria o regime.
A origem da crise está ligada à ruptura do acordo nuclear, que limitava o programa iraniano e criava mecanismos de monitoramento internacional. Com a retirada americana e a retomada das sanções, o equilíbrio diplomático começou a se desfazer, e a escalada militar substituiu um sistema que, embora imperfeito, mantinha as tensões sob algum grau de contenção.
O resultado é uma guerra que pode gerar ganhos táticos para Israel, ao degradar a capacidade militar iraniana, mas que promete custos duradouros e possivelmente irreversíveis para os Estados Unidos. Mais uma intervenção que Washington não sabe como terminar.

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