Ormuz encurrala os juros americanos

O banco central mais poderoso do planeta acaba de admitir que seu compasso depende também do petróleo, das rotas marítimas e da guerra.

Christopher Waller, diretor do Federal Reserve, fez uma admissão rara e reveladora ao dizer, em entrevista à CNBC, que chegou a considerar um corte imediato de juros nos Estados Unidos após os fracos dados de emprego de fevereiro.

Segundo o InfoMoney, a declaração mexeu com os mercados e reacendeu a expectativa de algum alívio monetário na maior economia do mundo.

Mas a hipótese perdeu força quando a inflação voltou a ocupar o centro da cena, agora impulsionada, nas palavras de Waller, pelas pressões associadas ao fechamento do Estreito de Ormuz.

O dirigente do Fed afirmou que a inflação se tornou "uma preocupação maior" diante desse choque externo. Com isso, um corredor estratégico para o petróleo global passou a influenciar diretamente a discussão sobre juros em Washington.

A fala tem peso porque explicita uma vulnerabilidade que costuma ser tratada com pudor pelo establishment econômico. A geopolítica do petróleo entrou de vez na sala do Comitê Federal de Mercado Aberto e impôs seus próprios limites à política monetária norte-americana.

Waller foi direto ao alertar que, se o preço do petróleo permanecer elevado por meses, em algum momento isso atingirá a inflação subjacente. Também afirmou que um choque petrolífero "alto e persistente" não pode ser ignorado pelo banco central e não deve ser tratado como algo meramente transitório.

A equação, portanto, é tão simples quanto perigosa. Tensão no Golfo Pérsico encarece o petróleo, o petróleo pressiona preços, e a inflação importada empurra os juros para cima por mais tempo.

Isso coloca o Fed diante de um dilema estratégico difícil de contornar. De um lado, a instituição tenta concluir o ciclo de combate à inflação e preparar uma normalização; de outro, vê sua margem de ação comprimida por eventos externos sobre os quais não exerce qualquer controle.

A tão celebrada autonomia da política monetária mostra, nesse ponto, seus limites concretos. A soberania do dólar encontra um freio na geografia dos estreitos e na instabilidade das rotas energéticas.

Waller procurou, ainda assim, preservar algum espaço para o otimismo. Ele disse que as expectativas de inflação dos mercados seguem ancoradas e avaliou que, superado o impacto inicial das tarifas comerciais, a pressão sobre os preços tende a perder força.

Na formulação do diretor, o Fed está avançando no controle da inflação, que pode estar próxima de 2% agora, mas continua mantida em patamar mais alto pelas tarifas. O problema é que essa leitura depende de uma calmaria geopolítica que, no momento, está longe de ser assegurada.

A menção às tarifas acrescenta uma segunda frente de incerteza, agora no terreno comercial. Waller afirmou acreditar que, se os efeitos dessas medidas protecionistas não diminuírem até o segundo semestre, a situação "ficará complicada".

A observação é relevante porque mostra que a inflação não está sendo pressionada apenas por choques energéticos. A política comercial conflituosa, com barreiras e retaliações, também encarece o ambiente econômico e dificulta o trabalho de um banco central que tenta esfriar preços sem asfixiar a atividade.

Diante desse quadro, a palavra de ordem passou a ser "maior cautela". Waller fez questão de esclarecer que isso não significa, necessariamente, manter os juros congelados até o fim do ano.

A porta para cortes continua entreaberta, mas sob condição. Segundo ele, pode voltar a defender reduções de juros mais adiante neste ano caso o emprego permaneça fraco, o que revela uma autoridade monetária dividida entre o combate à inflação e a sustentação do mercado de trabalho.

Ao mesmo tempo, o dirigente ofereceu um alívio parcial aos mercados ao descartar, por ora, qualquer discussão sobre nova alta de juros. O ciclo de aperto agressivo parece ter alcançado seu teto, e a questão deixou de ser se haverá flexibilização para se concentrar em quando e sob quais circunstâncias ela poderá começar.

Essa resposta dependerá não apenas dos indicadores domésticos dos Estados Unidos. Também será moldada pelos ventos que sopram do Oriente Médio, pelos preços da energia e pela persistência de uma tensão que nenhum modelo econométrico controla.

Para o Brasil e para o Sul Global, a fala de Waller tem implicações evidentes. A decisão do Copom de conduzir o corte da Selic com moderação, sempre atento aos riscos externos e ao comportamento das expectativas, encontra eco direto nessa cautela exibida pelo Fed.

Muitas críticas dirigidas ao Banco Central brasileiro partem da suposição de que o cenário internacional permitiria movimentos mais ousados. Mas, quando o próprio Fed admite estar travado por Ormuz, fica claro que a margem de manobra dos demais bancos centrais também encolhe.

A dependência do ciclo de juros norte-americano continua sendo um fato estrutural da economia mundial. E, quando esse ciclo passa a ser condicionado por uma crise de segurança em um estreito marítimo, a fragilidade do sistema internacional aparece sem disfarces.

A economia global navega, assim, em águas mais turbulentas. As decisões de política monetária já não respondem apenas a gráficos de inflação, emprego e atividade, mas também ao deslocamento de fragatas, ao risco sobre rotas comerciais e à instabilidade militar em pontos sensíveis do mapa.

Isso impõe um obstáculo adicional a projetos de reindustrialização e desenvolvimento nacional, como os defendidos por países como o Brasil. O custo do capital, decisivo para investimentos de longo prazo, permanece submetido a choques externos que nada têm de abstratos e muito menos de neutros.

A busca por soberania econômica esbarra, mais uma vez, na realidade de uma ordem financeira centrada no dólar e profundamente sensível à geopolítica do petróleo. O que se vende como técnica pura frequentemente chega contaminado por disputas de poder, controle de rotas e demonstrações de força militar.

Por isso, a fala de Christopher Waller vai muito além de um comentário técnico sobre juros. Ela funciona como documento de época, um registro de como guerra, comércio e energia se infiltram nos cálculos mais sofisticados dos banqueiros centrais.

A velha promessa de uma economia autônoma, governada por leis próprias e imune à política internacional, sofre aqui mais um desmentido. O banco central mais poderoso do mundo reconhece, ainda que nas entrelinhas, que seu principal instrumento depende de fatores que escapam à sua alçada.

No fundo, trata-se de uma humildade forçada pelos fatos. Enquanto o Estreito de Ormuz seguir como zona de tensão, a inflação no Ocidente carregará um componente bélico, e os juros continuarão a ter, além de uma justificativa técnica, uma justificativa geopolítica.

Redação:
Related Post

Privacidade e cookies: Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com seu uso.