Quando um nome histórico da direita admite a força de Lula e lamenta o impeachment, o centro revela mais medo do vazio do que convicção própria.
Guilherme Afif Domingos, hoje secretário de Projetos Estratégicos de São Paulo, lançou aos 82 anos o livro Juntos Chegaremos Lá e aproveitou o momento para fazer duas afirmações politicamente relevantes: Lula segue como favorito e Dilma Rousseff foi vítima de uma injustiça.
A declaração, dada em entrevista à Folha de S.Paulo, chama atenção porque parte de um quadro que serviu a Paulo Guedes e integra a gestão de Tarcísio de Freitas.
Não se trata de elogio gratuito, mas de um reconhecimento pragmático de que o presidente mantém força política, capacidade de comunicação e o peso da máquina pública a seu favor.
Afif afirmou que Lula entra na próxima disputa como franco favorito, e esse diagnóstico tem peso justamente por vir de alguém situado fora do campo progressista. Quando um adversário histórico admite isso, a tese do esgotamento automático do lulismo perde força no debate público.
A fala também funciona como um recado para setores da direita e do centro que insistem em vender a ideia de que o ciclo político liderado por Lula estaria perto do fim. Afif, ao contrário, sugere que qualquer projeto alternativo precisará partir de um dado elementar: o presidente continua sendo o nome a ser batido.
Ao comentar o governo, o secretário usou a imagem de uma máquina que faz fumaça para se referir ao que considera uma crise fiscal. É a linguagem clássica de quem enxerga com preocupação a ampliação do papel do Estado e tenta recolocar o ajuste das contas no centro da disputa política.
Essa leitura, porém, não esgota o sentido do momento brasileiro.
Para os setores desenvolvimentistas, a tal fumaça pode ser lida de outro modo: como sinal de uma engrenagem pública que voltou a operar depois de anos de paralisia social e econômica. O que liberais classificam como excesso, outros veem como reativação de políticas públicas, investimento e distribuição de renda.
O ponto mais forte da entrevista, no entanto, foi sua defesa de Dilma Rousseff.
Afif, que foi ministro da Secretaria da Micro e Pequena Empresa no governo da ex-presidente, declarou que Dilma era uma mulher correta e lamentou o impeachment ocorrido há dez anos. O valor político dessa fala está no lugar de onde ela parte: não de um aliado orgânico do Partido dos Trabalhadores, mas de alguém hoje vinculado ao campo adversário.
Em um país ainda marcado pelas consequências institucionais daquele processo, esse tipo de reconhecimento tem peso histórico. Ele ajuda a corroer a narrativa que tentou naturalizar a derrubada de uma presidente sem crime de responsabilidade comprovado e expõe, ainda que tardiamente, a violência política embutida naquele episódio.
A entrevista também recupera traços antigos da trajetória de Afif.
Ele revisita a Constituinte, a fundação do Partido Social Democrático e a própria campanha presidencial de 1989, quando se tornou conhecido nacionalmente com o slogan que agora reaparece no título do livro. Nesse retorno ao passado, tenta reafirmar uma identidade política baseada menos em fidelidade partidária e mais na defesa dos pequenos empreendedores.
É essa linha que ele usa para explicar sua capacidade de circular entre governos distintos.
Afif sustenta que sempre teve como foco os pequenos empresários, os microempreendedores e os trabalhadores por conta própria. Segundo ele, essa agenda permitiu construir pontes com diferentes campos ideológicos, inclusive com Lula, que teria apoiado suas pautas desde os tempos da Constituinte.
Nessa chave, ele volta a defender o microempreendedor individual e o Simples Nacional como instrumentos centrais de inclusão econômica.
Ao falar do eleitorado, Afif aposta na ideia de um centro radical, expressão com a qual tenta descrever uma maioria social avessa a extremismos e mais interessada em soluções práticas para a vida cotidiana. Ele cita mulheres empreendedoras, como cabeleireiras e boleiras, para ilustrar um Brasil que quer crédito, menos burocracia e condições concretas de prosperar.
Essa formulação ajuda a entender sua leitura do presente.
Para Afif, o eleitor médio não se move por doutrinas rígidas, mas por resultados palpáveis na economia e no trabalho. É uma visão que busca capturar o chamado público dos batalhadores, grupo frequentemente disputado por projetos políticos distintos e decisivo em eleições nacionais.
Ao lembrar 1989, ele ainda menciona o episódio em que quase teve Silvio Santos como vice.
A lembrança não é apenas folclórica. Ela serve para reforçar sua percepção de que a política brasileira continua aberta a candidaturas fabricadas como novidade, capazes de atrair um eleitorado cansado das estruturas partidárias tradicionais e seduzido por figuras com forte apelo popular.
Essa observação se conecta ao presente da direita.
Afif cita Flávio Bolsonaro como nome competitivo, apoiado no peso eleitoral do sobrenome do pai, e elogia Paulo Guedes, reafirmando sua inclinação liberal na economia. Ao mesmo tempo, seu reconhecimento da força de Lula mostra que, mesmo entre quadros identificados com a direita, não há ilusão sobre a dificuldade de enfrentar um presidente com base social consolidada.
É aí que sua entrevista ganha dimensão mais ampla.
Ela sugere que parte do centro e da direita tenta se reposicionar sem romper totalmente com o discurso fiscalista nem se fundir por completo ao bolsonarismo. Trata-se de buscar um espaço intermediário, moderado na forma e liberal no conteúdo, capaz de dialogar com o eleitor que rejeita a radicalização, mas também não embarca automaticamente em aventuras antipetistas.
Nesse movimento, a defesa de Dilma e o reconhecimento de Lula cumprem dupla função.
De um lado, ajudam a normalizar um debate político que foi devastado por anos de ruptura institucional, judicialização abusiva e demonização seletiva da esquerda. De outro, revelam que até adversários experientes já perceberam que não haverá reorganização estável do sistema político sem encarar a centralidade do campo nacional-popular na vida brasileira.
A entrevista de Afif à Folha de S.Paulo, portanto, vale menos como confissão pessoal e mais como sintoma político.
Quando um nome histórico da centro-direita admite o favoritismo de Lula e lamenta o impeachment de Dilma, o que aparece não é conversão ideológica, mas realismo. E o realismo, neste caso, diz muito: a oposição ainda procura um caminho, enquanto Lula continua ocupando o centro do tabuleiro.
Curadoria: Augusto Gomes | Redação: Augusto Gomes | Revisão: Afonso Santos