O correspondente internacional do Brasil de Fato em Moscou, Marco Fernandes, acaba de publicar uma das entrevistas mais importantes dos últimos tempos. O ex-diplomata britânico e ex-agente de alto nível do MI6 Alastair Crooke — fundador do Conflicts Forum e um dos maiores especialistas vivos em geopolítica do Oriente Médio — abre o jogo sobre a guerra assimétrica que o Irã vem travando contra EUA e Israel.
Crooke, que mediou conflitos na Irlanda do Norte, África do Sul e Ásia Ocidental e foi conselheiro direto de Javier Solana na UE, fala como quem conhece o terreno, os atores e a história por dentro. Ele é autor do livro Resistance: The Essence of the Islamist Revolution.
Na entrevista, Crooke explica que o Irã planejou esta guerra assimétrica há décadas. Os iranianos aprenderam lições importantes com a invasão americana do Iraque em 2003, especialmente ao ver como o regime de Saddam Hussein colapsou em poucas semanas diante de um ataque aéreo massivo.
Em vez de tentar competir com força aérea convencional, o Irã decidiu investir pesadamente em mísseis. “Os mísseis podem se tornar a força aérea iraniana”, diz ele.
Outra lição foi proteger a infraestrutura militar. “Não se deixa toda a sua estrutura militar à vista para ser bombardeada. Isso é estúpido. Portanto, o que se deve fazer é enterrá-la, e enterrá-la profundamente”, explica Crooke, citando a Fortaleza de Saryazd, a mais de 500 metros de profundidade na montanha.
Crooke também fala sobre o mosaico da resistência. Esse sistema divide o Irã em comandos autônomos que continuam a guerra mesmo se o comando central for perdido.
Sobre a situação atual em Israel, o analista relata uma crise interna crescente. Generais israelenses teriam dito no gabinete de segurança que o país não está preparado para uma guerra prolongada em várias frentes.
Ele menciona ainda o avanço de forças xiitas na região. “O assassinato do Líder Supremo inflamou o xiismo em todos os lugares, especialmente no Iraque… Acho bastante provável que tomem o Kuwait e que o Irã tome o Bahrein”, avalia Crooke, referindo-se às milícias iraquianas e ao clima de mobilização.
Crooke avalia que o Irã está inaugurando um novo tipo de guerra. “Isso significa que todos os conceitos antigos que ainda persistem — muitos militares ocidentais ainda falam sobre a Tempestade no Deserto —, todas essas grandes doutrinas, estão realmente acabados agora.”
Ele também aponta o apoio técnico de China e Rússia ao Irã, especialmente no que diz respeito a sistemas de navegação por satélite e inteligência.
Trechos que merecem ser lidos com atenção:
Crooke revela como o Irã analisou em detalhes a invasão americana do Iraque em 2003 para evitar um colapso rápido como o de Saddam Hussein.
“Os estadunidenses fizeram essa guerra clássica, o que eu chamo de ‘atirar e fugir’. Você lança um ataque aéreo massivo e destrói o comando, as estruturas de comando de Saddam Hussein, suas estruturas militares, em três semanas. E os iranianos analisaram isso em profundidade e pensaram: bem, como evitamos isso?”
O ex-diplomata explica a escolha iraniana de esconder toda a capacidade militar em profundidade, longe dos olhos dos satélites.
“Não se deixa toda a sua estrutura militar à vista para ser bombardeada. Isso é estúpido. Portanto, o que se deve fazer é enterrá-la, e enterrá-la profundamente. Temos a Fortaleza de Saryazd, essa montanha enorme onde os grandes mísseis são gerenciados… a mais de 500 metros de profundidade.”
Ele descreve o clima de tensão dentro do gabinete de segurança israelense, onde generais de alto escalão alertaram que a campanha não pode continuar no ritmo atual.
“Não podemos continuar! Precisamos recrutar mais 400 mil homens. Estamos perdendo gente. Todo o plano está desmoronando!”
Crooke observa o efeito dominó provocado pelo assassinato do Líder Supremo, que inflamou o xiismo e colocou as milícias iraquianas em movimento rumo a uma possível escalada regional.
“O assassinato do Líder Supremo inflamou o xiismo em todos os lugares, especialmente no Iraque… Acho bastante provável que tomem o Kuwait e que o Irã tome o Bahrein.”
Por fim, o analista britânico conclui que a estratégia iraniana enterra de vez as antigas doutrinas militares ocidentais que ainda dominam o pensamento em Washington e Tel Aviv.
“Isso significa que todos os conceitos antigos que ainda persistem — muitos militares ocidentais ainda falam sobre a Tempestade no Deserto —, todas essas grandes doutrinas, estão realmente acabados agora.”
Leia a entrevista completa com Alastair Crooke no site do Brasil de Fato.