Os confrontos armados na região de Haut-Mbomou, no sudeste da República Centro-Africana, têm agravado uma das piores crises humanitárias do país. A área é marcada por disputas entre a milícia comunitária Azandé Ani Kpi Gbé (AAKG), a rebelião UPC, o exército nacional e mercenários do grupo Wagner, sob o olhar das forças de paz da ONU.
Uma avaliação conduzida pelo Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA), realizada na semana que incluiu o dia 24 de março de 2026, revelou que os embates recentes tornaram quase impossível o acesso de organizações de ajuda às populações afetadas. A missão percorreu os eixos que conectam a subprefeitura de Zemio a Mboki, no leste, e a Dembia, no oeste, identificando um aumento expressivo nos confrontos desde dezembro de 2025.
Representantes de diversas ONGs relataram que a violência impactou diretamente a capacidade de prestar assistência. Durante a operação, foram entrevistadas 6.500 pessoas em pequenos grupos, que descreveram violações graves de direitos humanos, como estupros e destruição de moradias por meio de incêndios. Muitos moradores foram forçados a abandonar suas casas, buscando refúgio em áreas remotas ou próximas a campos de deslocados.
As condições de vida na região são alarmantes. A população carece de abrigo, itens básicos de subsistência, purificadores de água e medicamentos essenciais. Um reflexo da gravidade da situação é o fechamento de todas as escolas no eixo Zémio-Mboki, privando crianças de educação em meio ao caos.
A missão humanitária veio na sequência de uma operação militar que expulsou milicianos zandé da periferia de Zemio, onde controlavam territórios desde o final de dezembro de 2025. A crise, no entanto, não se limita a Haut-Mbomou: o OCHA apontou que bases humanitárias estão sendo fechadas em várias partes da República Centro-Africana, sinalizando um preocupante desengajamento de ONGs em um momento em que 2,3 milhões de centro-africanos dependem de assistência urgente.
De acordo com informações divulgadas pelo portal RFI, mais de 120 escritórios de cerca de sessenta organizações humanitárias encerraram suas atividades no país desde 2025, agravando ainda mais o vazio de apoio. Declarações atribuídas a Pierre-Yves Bernard, ligado ao Médicos Sem Fronteiras (MSF), reforçam a urgência de ações coordenadas para reverter esse quadro.
A combinação de violência armada e retração de ajuda internacional coloca a população local em uma situação de vulnerabilidade extrema, com poucos sinais de melhora no horizonte. A presença de atores como o grupo Wagner, aliado ao governo centro-africano, levanta questões sobre a natureza dos conflitos e os interesses em jogo na região. Enquanto isso, as forças de paz da ONU enfrentam limitações para conter a escalada de violência e proteger civis. A crise em Haut-Mbomou é um lembrete brutal das consequências de guerras prolongadas em contextos de fragilidade estatal, onde a população civil paga o preço mais alto pela ausência de soluções políticas duradouras.