Criar um mecanismo de apoio financeiro e acadêmico para que a pluralidade cultural, regional e social dentro da Unicamp contribua para a transformação da sociedade brasileira. Com esse objetivo, a Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP), por meio do Fundo de Apoio ao Ensino, Pesquisa e Extensão (Faepex), abriu um novo edital (nº 43/2026) voltado ao incentivo de projetos de pesquisa desenvolvidos por estudantes indígenas de graduação. A iniciativa “Pesquisadores Indígenas: Primeiros Projetos”, que está em sua segunda edição, busca ampliar o acesso à pesquisa por parte desse grupo.
O novo edital também chega com o aumento no número de projetos contemplados, passando de 8 na edição anterior para um número maior nesta. O edital é, dentro da perspectiva das ações afirmativas, um estímulo à inserção de estudantes ingressantes pelo Vestibular Indígena no sistema de iniciação científica, além de fortalecer a atuação acadêmica desses alunos em suas comunidades de origem. A proposta também busca ampliar a participação de estudantes indígenas em grupos e laboratórios de pesquisa da Universidade, promovendo projetos com impacto social e caráter intercultural.
Podem participar estudantes cuja graduação esteja prevista para dezembro de 2027 ou depois. As propostas devem ser submetidas por orientadores vinculados à Universidade e podem se enquadrar em duas modalidades: projetos com impacto direto nas comunidades indígenas, que prevê, além da bolsa, recursos adicionais para execução, e projetos em qualquer área do conhecimento, com concessão exclusiva de bolsa de iniciação científica. O investimento total previsto é de R$ 170,4 mil. Cada proposta da primeira modalidade poderá solicitar até R$ 20 mil, enquanto as projetos generalistas têm teto de R$ 8,4 mil. Em ambos os casos, os estudantes contemplados receberão bolsa mensal de R$ 700 ao longo de 12 meses.
“Mais uma vez, escutamos a demanda da comunidade acadêmica e reformulamos o edital visando a contemplar, adicionalmente, alunos indígenas ligados a grupos que realizam suas pesquisas nos campi da Unicamp”, afirma Ana Maria Frattini Fileti, pró-reitora de Pesquisa (PRP).
“O edital surge a partir de um diagnóstico institucional que apontou uma menor taxa de sucesso de estudantes indígenas na obtenção de bolsas de iniciação científica. Dados internos indicam que menos de 40% das propostas submetidas por esses alunos são aprovadas, proporção inferior à de outros grupos”, aponta Eduardo José Marandola Júnior, assessor docente da Pró-Reitoria de Pesquisa (PRP). “Esse cenário está relacionado a uma série de desafios enfrentados por estudantes indígenas no ambiente universitário. Entre eles estão a adaptação a um novo contexto cultural e acadêmico, a distância das comunidades de origem — muitas vezes localizadas a milhares de quilômetros — e diferenças nos sistemas de ensino de formação básica”, acrescenta o professor.
Ainda de acordo com Marandola, a nova edição do edital traz melhorias significativas.
“Outro destaque é a antecipação do cronograma, pensada para atender às exigências éticas específicas de pesquisas em comunidades indígenas. Projetos dessa natureza precisam passar por diferentes instâncias de aprovação, o que pode prolongar o início das atividades. Com o novo calendário, a expectativa é garantir tempo adequado para essas etapas e evitar atrasos no desenvolvimento das pesquisas”, justifica Marandola.
A professora Jamille da Silva Lima-Payayá, da Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA), em Limeira, participa ativamente da primeira edição do edital.
Para a docente, a proposta vai além de uma inclusão numérica e contribui para a construção de um ambiente acadêmico mais plural. Ela destaca que a presença indígena nas pesquisas promove uma troca rica de experiências e saberes, com impactos que se estendem também ao ensino e à extensão universitária.
“A pesquisa atua como um meio de conexão, e não como uma concessão. Não se trata de ‘dar voz’, porque essas vozes já existem. O que está em jogo é criar espaços de diálogo e participação efetiva, reconhecendo que a universidade, historicamente, não foi pensada para incluir essas epistemologias”, explica.
Ela também enfatiza a importância de valorizar diferentes formas de conhecimento. Segundo Jamille, há uma hierarquização histórica entre saberes, e a entrada de epistemologias indígenas na Universidade contribui para questionar essas estruturas e renovar o ambiente acadêmico. “Esse movimento traz uma oxigenação necessária para a universidade. Permite que o conhecimento seja mais dinâmico e que novas formas de pensar sejam incorporadas”, afirma.
Outro ponto destacado é que a participação de estudantes indígenas na pesquisa não deve se restringir a temas relacionados às suas origens. Para ela, é fundamental que esses estudantes tenham liberdade para atuar em qualquer área do conhecimento. “Limitar o estudante indígena a determinados temas também é uma forma de preconceito. Eles podem e devem estar em todas as áreas, contribuindo com suas perspectivas, independentemente do tema da pesquisa”, pontua a docente, que tem origem indígena e integra o Programa Formativo Intercultural para Ingressantes pelo Vestibular Indígena (ProFIIVI).
O aluno de Administração Sidney Cordeiro (de nome indígena Diami), do povo Baré, teve sua pesquisa contemplada na primeira edição do edital. “Minha pesquisa, que está em andamento e tem prazo de finalização para outubro, fala sobre a vulnerabilidade presente nas comunidades indígenas. As terras são constantemente invadidas por pessoas que vão atrás dos recursos naturais e as questões da segurança alimentar e proteção propriamente dita são importantes ali. Já fiz uma viagem de apresentação do projeto”, conta Cordeiro, que retornará para a coleta de campo após o resultado da apreciação ética de sua pesquisa.
O estudante comenta ainda que há um projeto de criar uma sala de extensão na comunidade. “A ideia é levar a universidade para perto da comunidade. A maior parte dos estudantes indígenas na Unicamp vem de São Gabriel da Cachoeira. Assim, acho importante que a universidade se aproxime do local onde a maior parte de seus estudantes está”, diz. Cordeiro pretende dar sequência aos estudos e fazer uma pós-graduação. “Quando tudo acabar, vou voltar para a minha comunidade. É o que se espera dos alunos que vêm para cá que eles retornem e ajudem as suas comunidades”, afirma.
Para a professora Ciça Veiga, do ProFIIVI, Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) e coordenadora da Comissão Assessora de Inclusão Acadêmica dos Povos Indígenas (Caiapi), além de ampliar o acesso, a iniciativa contribui para transformar a própria produção de conhecimento. “Isso porque muitos estudantes indígenas desenvolvem pesquisas conectadas a seus territórios e comunidades, abordando temas como educação, tecnologia, saúde e fortalecimento cultural. Esses estudantes enfrentam desafios no ambiente acadêmico, mas também trazem novas formas de aprender e produzir conhecimento”, diz. “Quanto mais oportunidades, mais a universidade se torna plural e representativa da sociedade brasileira.”
Já o professor Adriano Luiz Tonetti, da Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (Fecfau), é orientador de uma estudante indígena que desenvolve pesquisa sobre saneamento básico em sua comunidade de São Gabriel da Cachoeira. De acordo com ele, a proposta do edital vai além da produção acadêmica tradicional. “É um aprendizado de mão dupla. A iniciativa beneficia não apenas os alunos, mas também a universidade ao ampliar o olhar sobre os desafios brasileiros e promover uma ciência mais inclusiva e conectada à diversidade”, diz. “O edital valoriza o respeito às especificidades culturais e incentiva a criação de tecnologias adequadas às diferentes realidades, como é o caso de minha orientanda”, completa Tonetti.
Além da segunda edição do edital, a Unicamp se compromete a celebrar o Dia dos Povos Indígenas, promovendo discussões e eventos que valorizem a cultura e a história dos povos indígenas no Brasil.
Fonte: Unicamp.