124 especialistas assinaram um manifesto em setembro de 2023 classificando a Integrated Information Theory como pseudociência — mas o neurocientista Christof Koch continua defendendo que a consciência talvez não seja produto do cérebro, e sim um componente fundamental da realidade, conforme reportagem do ScienceDaily.
Koch identifica três lacunas graves no paradigma materialista: incapacidade de explicar experiências subjetivas como quase-morte, estados místicos ou lucidez terminal; dúvidas levantadas pela física sobre a natureza da “realidade”; e o desafio de reduzir a consciência apenas a mecanismos neurais. Ele propõe revisitar teorias como o idealismo e o panpsiquismo, que veem a consciência como parte inerente ao cosmos.
Ele defende explicitamente a Integrated Information Theory (IIT), modelo que atribui consciência a qualquer sistema com elevado grau de informação integrada. Essa teoria abre possibilidade de existência de consciência em sistemas não biológicos, não apenas no cérebro.
Críticos como John Searle e Scott Aaronson afirmam que a IIT conduz a conclusões contraintuitivas: sistemas artificiais ou arranjos simples de componentes lógicos poderiam ter valores muito altos de Φ (phi), métrica de integração de informação, tornando algumas máquinas potencialmente mais “conscientes” que seres humanos — ideia considerada incompatível com observações comuns.
No manifesto de 2023, os 124 especialistas argumentaram que a teoria carece de base empírica resistente e de métodos independentes de verificação. Defensores respondem que já existem estudos estimando Φ em pessoas em coma, sob anestesia ou em sono profundo. Eles sustentam que a IIT permite previsões testáveis, embora sometida a desafios metodológicos.
Um aspecto técnico crítico envolve a medição de Φ em cérebros humanos. Como o cérebro possui cerca de 86 bilhões de neurônios e trilhões de conexões, o número de partições necessárias ao cálculo cresce de forma exponencial. Pesquisadores dependem, portanto, de aproximações e modelos simplificados, o que limita a precisão dos valores obtidos.
Em levantamento PhilPapers com filósofos de língua inglesa, cerca de 51,9 % mantêm visões materialistas/physicalistas da mente, enquanto aproximadamente 32,1 % sustentam perspectivas não-fisicalistas. Dentre estas, cerca de 25 % favorecem formas de panpsiquismo. Ou seja, o materialismo permanece majoritário, mas não absoluto.
Koch e seus colaboradores aceitam que fenômenos como experiências fora do corpo, morte clínica e estados alterados de consciência sugerem que existe mais do que o observado por tecnologias como eletroencefalografia ou ressonância magnética. Essa persistência de fenômenos anômalos motiva reexaminar teorias antigas que concebem a consciência como parte intrínseca da realidade.
A IIT já apresenta aplicações clínicas relevantes: avaliação de pacientes em estado vegetativo ou sob anestesia, por meio de medidas aproximadas de integração de informação, permite estimar níveis de consciência distribuída. Esses indicadores ajudam em decisões médicas complexas.
Se a consciência for elemento fundamental da realidade, esse reconhecimento exige mudanças nas prioridades científicas, éticas e políticas. Desafia-se a base do materialismo que sustenta as ciências cognitivas, a psiquiatria, a inteligência artificial — além de sistemas legais que consideram como seres conscientes apenas organismos biológicos. Para culturas do Sul Global, cosmologias tradicionais podem ganhar nova legitimidade frente ao cientificismo ocidental. Direitos de não humanos e regulações da IA terão de se repensar sob novas responsabilidades conceituais.