Cientistas do Oriente Médio e da Malásia desenvolveram método de pirólise que transforma fibras superficiais de palmeira-dátil em bio-óleo com composição promissora para uso energético.
O estudo publicado na ACS Omega detalha o aproveitamento de biomassa antes descartada e projeta aplicação sustentável em escala global a partir das cerca de 150 milhões de palmeiras-dátil existentes no mundo.
Conforme detalhou o portal Phys.org em sua cobertura do trabalho, os pesquisadores focaram nas DPSFs — sigla em inglês para date palm surface fibers —, material rico em celulose, hemicelulose e lignina, abundante em regiões cultivadas como os Emirados Árabes Unidos.
As análises termogravimétricas aplicadas a diferentes taxas de aquecimento, de 10 a 40 graus Celsius por minuto no intervalo entre 20 e 750 graus Celsius, permitiram mapear o comportamento térmico completo das fibras.
Na faixa ativa da pirólise, entre aproximadamente 364 e 394 graus Celsius, registrou-se perda de massa entre 56 e 61 por cento, diretamente associada à decomposição da celulose e da hemicelulose. Os cálculos indicaram ainda energia de ativação média de 152 quilojoules por mol, sinal de estrutura estável e elevada cristalinidade no material analisado.
A produção experimental ocorreu em reator de quartzo sob fluxo de nitrogênio, com aquecimento não isotérmico até 400 graus Celsius na taxa de 40 graus Celsius por minuto, seguido de etapa isotérmica.
A caracterização do óleo condensado por cromatografia gasosa acoplada a espectrometria de massas revelou composição aproximada de 42,28 por cento de compostos alifáticos, 38,68 por cento de aromáticos e 13,47 por cento de furânicos e outros oxigenados. Os compostos aromáticos principais incluem benzeno, tolueno e p-xileno, enquanto o furfural se destaca como o furânico dominante.
Os autores afirmam que o processo pode operar como carbono-neutro porque o carbono liberado na eventual combustão do bio-óleo corresponde ao volume fixado pelas próprias palmeiras durante o crescimento via fotossíntese.
Cada palmeira-dátil produz em média 20 quilos de resíduo lignocelulósico por ano, somando sementes, folhas, frondes e as fibras superficiais. O total mundial de aproximadamente 150 milhões de árvores, incluindo 42 milhões somente nos Emirados Árabes Unidos, representa volume expressivo de matéria-prima hoje subutilizada.
O manejo atual desses resíduos gera impactos ambientais negativos. A queima direta em campos agrícolas libera material particulado, dióxido de carbono e óxidos de nitrogênio, agravando a poluição atmosférica e problemas respiratórios nas comunidades próximas.
Embora as fibras sejam leves e de coleta relativamente simples no topo das árvores, os sistemas de logística e descarte ainda demandam investimentos elevados em muitas regiões.
A viabilidade econômica da produção de bio-óleo a partir das DPSFs depende de variáveis como custos de mão de obra, consumo de nitrogênio e eficiência na cadeia de suprimento do material.
Como o trabalho permanece em fase experimental, os pesquisadores recomendam análises tecno-econômicas aprofundadas e a execução de pilotos industriais para quantificar rendimentos reais, custos operacionais e retorno financeiro em escala maior.
Essa linha de pesquisa se integra diretamente às políticas de gestão de resíduos e energias renováveis dos Emirados Árabes Unidos, que preveem redução drástica do envio de material a aterros e queimadas até 2031, além de diretrizes específicas para produção de biocombustíveis derivados de resíduos agrícolas.
O aproveitamento sistemático das fibras superficiais de palmeira-dátil pode reduzir emissões poluentes, fomentar nova cadeia produtiva e contribuir para uma matriz energética mais diversificada e de menor impacto ambiental em regiões áridas onde o cultivo da palmeira é tradicionalmente intenso.
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