Uma nova pesquisa publicada na revista Science contesta a idade tradicionalmente atribuída ao sítio arqueológico de Monte Verde, no sul do Chile, e propõe que o local seja milhares de anos mais jovem do que se acreditava.
Em vez dos 14.500 anos defendidos por décadas como evidência de ocupação humana precoce nas Américas, o estudo liderado por Todd A. Surovell e Claudio Latorre sugere idade entre 8.200 e 4.200 anos antes do presente, o que situaria a ocupação no Holoceno Médio.
A reavaliação geológica baseou-se em amostras de sedimentos coletadas em nove locais ao longo do riacho Chinchihuapi, próximo ao sítio.
Os pesquisadores identificaram uma camada distinta de cinzas vulcânicas conhecida como Lepúe Tephra, datada de aproximadamente 11 mil anos, que aparece consistentemente abaixo dos depósitos associados à ocupação humana de Monte Verde II.
Conforme detalhou o portal Phys.org em reportagem sobre o tema, essa sobreposição indicaria que a atividade cultural ocorreu após a deposição da tephra e não durante o fim da última Era Glacial, como sustentava o consenso anterior.
As datações por radiocarbono em madeira, turfa e materiais orgânicos dos estratos superiores reforçam a cronologia mais recente.
Se confirmada, a tese altera profundamente o papel de Monte Verde no debate sobre as rotas de migração humana para o continente. O sítio deixaria de servir como pilar central das hipóteses de povoamento pré-Clóvis e de migração costeira desde a Ásia, que teriam contornado as barreiras glaciais durante o Pleistoceno tardio.
A proposta enfrenta críticas diretas de arqueólogos que conduziram as escavações originais. Tom Dillehay, principal investigador do sítio desde os anos 1970, afirma que vasta evidência cultural sustenta os 14.500 anos, incluindo artefatos, camadas arqueológicas intactas e amostras de madeira diretamente relacionadas à presença humana.
Ele rejeita a interpretação de que os materiais mais antigos resultem de mistura ou redeposição por processos naturais.
Especialistas externos questionam ainda a estratégia de amostragem do novo estudo. As análises concentraram-se em sedimentos adjacentes ao núcleo principal do sítio e não necessariamente nas camadas culturais escavadas pela equipe original.
Persistem dúvidas sobre se a camada de cinzas Lepúe Tephra cobria de forma uniforme toda a paisagem de Monte Verde, o que seria essencial para validar que toda a ocupação humana ocorreu após sua deposição.
Descoberto no final da década de 1970, Monte Verde ganhou projeção internacional ao apresentar datações anteriores à cultura Clóvis da América do Norte. Os achados incluíam lanças de madeira, bases de fogueira, pegadas humanas e utensílios preservados em excelente estado pelas condições úmidas do terreno pantanoso.
Essas evidências ajudaram a consolidar a ideia de que grupos humanos já habitavam a América do Sul há pelo menos 14.500 anos.
Caso a nova cronologia prevaleça, outros sítios arqueológicos como Cooper’s Ferry, no Idaho, e Debra L. Friedkin, no Texas, assumem posição central no debate sobre o povoamento das Américas. Os modelos que privilegiam migração interior por corredores livres de gelo ganhariam força em detrimento das rotas costeiras defendidas com base em Monte Verde.
A discussão permanece aberta e depende de testes independentes adicionais, especialmente datações diretas nas camadas arqueológicas centrais e mapeamento detalhado da distribuição da tephra vulcânica na região.
O caso demonstra a natureza dinâmica da pesquisa arqueológica, onde novas técnicas de análise sedimentar e refinamento de datações podem levar à revisão de interpretações estabelecidas. Pesquisadores de ambos os lados concordam que mais investigações serão necessárias para esclarecer definitivamente a sequência de ocupação humana em Monte Verde e suas implicações para a compreensão do processo de colonização do continente americano.
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