Em um ano de operação sistemática, a constelação satelital cooperativa do Brics cobriu mais de 27 milhões de km² e trocou 1,5 terabyte de dados climáticos entre países-membros, reforçando sua capacidade de monitoramento autônomo — sem depender de agências ou empresas ocidentais.
O bloco Brics Plus — composto por Brasil, China, Egito, Etiópia, Índia, Irã, Rússia, África do Sul e Emirados Árabes Unidos — formalizou, entre 27 e 29 de abril de 2025 em Brasília, novos compromissos práticos no uso pacífico do espaço com foco socioambiental e soberania digital. A declaração, vinculada à ONU, expande as atribuições das agências espaciais nacionais para cooperação regular e inteiração técnica.
Uma das iniciativas principais é a Constelação de Satélites de Sensoriamento Remoto (RSSC, na sigla em inglês). Operam atualmente seis satélites: dois chineses — Gaofen-6 e Ziyuan-III-02 —, o CBERS-4 (cooperativo Brasil-China), o Kanopus-V da Rússia, e os Resourcesat-2 e 2A da Índia.
No ano em que a RSSC passou a produzir e compartilhar dados de modo contínuo, China enviou 1,5 TB de imagens; mapeou 560.000 km² para a Rússia; e Roscosmos repassou 34.500 km² para Índia, após um tremor de terra. Estações terrestres em Cuiabá (Brasil), Shadnagar-Hyderabad (Índia), Sanya (China), Hartebeesthoek (África do Sul) e Moscou (Rússia) trabalham integradas para recepção, processamento e distribuição dessas informações.
Uma declaração prevista para a Cúpula do Rio, em 6-7 de julho de 2025, proposta no documento conhecido como Declaração de Rio, instituirá o Conselho Espacial do Brics. O novo órgão deverá formalizar instituições compartilhadas, estabelecer normas comuns e coordenar programas conjuntas como monitoramento climático, missões lunares e pesquisas em espaço profundo.
Há também grupos de trabalho dedicados a finalidades específicas. O Working Group on Astronomy realizará o 11º Workshop de Astronomia em outubro de 2025 em São José dos Campos (INPE-SP). Outro grupo, de Tecnologias Geoespaciais, vai focar no uso dos dados satelitais para gestão ambiental, prevenção de desastres e planejamento territorial integrado.
No plano nacional, o CBERS-6, satélite com radar desenvolvido em parceria Brasil-China, está projetado para operar em 2028, com aplicações previstas no monitoramento de secas e desmatamento. O SABIA-Mar, iniciativa voltada para gestão de recursos hídricos, deverá ser lançado em 2026. Ambos têm como alvo estratégico áreas como o bioma Amazônico.
Há programas educacionais vinculados ao espaço. O Mission ShakthiSAT reunirá 12.000 estudantes do sexo feminino de 108 países para curso global em STEM. Ao final das atividades teóricas, uma aluna de cada nação será convidada à Índia para estágio prático vinculado à ISRO. Prevê-se lançamento orbital ou lunar de carga útil em 2026.
Apesar dos avanços, persistem desafios estruturais: disparidades em capacidade tecnológica entre agências espaciais, insuficiência de financiamento público-industrial e barreiras à transferência de tecnologia. Também é necessário harmonizar padronizações técnicas e as legislações nacionais relacionadas ao uso do espaço.
Esses desenvolvimentos colocam o Brasil e seus parceiros do Brics em posição de protagonismo num espaço geopolítico multipolar. Dados climáticos independentes fortalecem políticas ambientais locais. A inclusão de milhares de mulheres em STEM gera impacto educacional internacional. E a constelação satelital compartilhada emerge como instrumento concreto de soberania tecnológica e cooperação sul-sul, abrindo caminho para redução de dependência externa e distribuição de poder global.
Com informações de www.elciudadano.com.