Diário do Historiador: O Oriente Médio e o peso de dez mil anos de civilização, fé e conquista

Imagem gerada por IA pelo Flux Pro (fal.ai), a partir de prompt do Cafezinho. 14/04/2026 23:42

Há uma ironia cruel na expressão ‘Oriente Médio’: ela foi cunhada por um estrategista naval americano, Alfred Thayer Mahan, no alvorecer do século XX, para descrever uma região que existia muito antes de qualquer nação ocidental ter aprendido a escrever. O nome é novo, mas a terra é a mais antiga do mundo habitado, o berço simultâneo da agricultura, da escrita, da lei e das três maiores religiões monoteístas da humanidade.

Entre os rios Tigre e Eufrates, no território que os gregos chamariam de Mesopotâmia — ‘a terra entre os rios’ —, floresceu por volta de 3500 a.C. a civilização suméria, a primeira a registrar sistematicamente o conhecimento humano em tábuas de argila. Foi ali que surgiu o primeiro código de leis da história, o Código de Ur-Nammu, e depois o mais famoso, o Código de Hamurabi, da Babilônia, por volta de 1754 a.C., estabelecendo o princípio de que o poder político tem obrigações para com os governados.

O Egito antigo, ao longo do Nilo, construiu uma civilização paralela de grandeza comparável, erguendo pirâmides que desafiaram milênios e forjando um Estado centralizado sob os faraós por mais de três mil anos contínuos. Essas duas civilizações — mesopotâmica e egípcia — não viviam em isolamento: comerciavam, guerreavam e se influenciavam mutuamente através do corredor geográfico que hoje chamamos de Levante, a faixa costeira do Mediterrâneo oriental que abrange o atual Israel, Palestina, Líbano, Síria e Jordânia.

Foi nesse corredor que os cananeus, os fenícios e os hebreus construíram suas próprias histórias monumentais. Os fenícios inventaram o alfabeto fonético por volta de 1050 a.C., o sistema de escrita do qual derivam praticamente todos os alfabetos modernos do mundo ocidental. Os hebreus, por sua vez, desenvolveram o monoteísmo ético como sistema filosófico e religioso, um conceito revolucionário que abalaria as estruturas do pensamento humano para sempre.

A região conheceu ondas sucessivas de conquista e dominação, cada uma deixando camadas geológicas de cultura e conflito. Os assírios varreram o Levante com brutalidade no século VIII a.C., deportando populações inteiras como política de Estado. Os babilônios destruíram Jerusalém em 586 a.C. e levaram os judeus ao exílio, episódio que moldaria a identidade do povo hebreu de forma indelével e que ressoa até hoje na geopolítica da região.

O Império Persa, sob Ciro, o Grande, inaugurou em 550 a.C. um modelo de dominação radicalmente diferente: o respeito às culturas e religiões conquistadas, permitindo inclusive o retorno dos judeus à sua terra. Ciro é até hoje celebrado no Livro de Isaías como um instrumento divino, e a chamada ‘Declaração de Ciro’ é frequentemente citada como o primeiro documento de direitos humanos da história, uma distinção que o Al Jazeera e historiadores independentes reconhecem como marco civilizatório.

Alexandre, o Grande, chegou em 334 a.C. e em menos de uma década dissolveu o Império Persa, espalhando a cultura grega — o helenismo — por todo o Oriente Médio. Cidades como Alexandria, no Egito, tornaram-se centros de síntese entre o pensamento grego, egípcio, persa e judaico, produzindo a maior biblioteca da Antiguidade e um fervilhar intelectual sem precedentes. O helenismo não apagou as culturas locais, mas as amalgamou em algo novo e complexo.

Roma herdou o legado grego e dominou a região por séculos, mas foi em solo palestino que o Império Romano viveria sua maior transformação espiritual. O nascimento do Cristianismo no século I d.C., em uma província periférica chamada Judeia, gerou um movimento que em três séculos conquistaria o próprio coração de Roma, transformando o perseguidor em propagador da nova fé. A destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos em 70 d.C. dispersou os judeus pelo mundo em um êxodo que duraria quase dois milênios.

O século VII d.C. trouxe a transformação mais radical e duradoura que a região jamais experimentou: o surgimento do Islã. Nascido em Meca, na Península Arábica, com as revelações ao Profeta Maomé a partir de 610 d.C., o Islã unificou tribos árabes dispersas sob uma bandeira religiosa, política e militar de força extraordinária. Em menos de cem anos após a morte de Maomé, em 632 d.C., os exércitos islâmicos haviam conquistado a Pérsia, o Egito, o Levante, o norte da África e chegado às portas da Europa.

O Califado Abássida, com capital em Bagdá a partir de 762 d.C., inaugurou a chamada Idade de Ouro do Islã, um período de florescimento científico, matemático, filosófico e artístico que preservou e expandiu o conhecimento greco-romano enquanto a Europa Ocidental mergulhava na Idade das Trevas. Foram os sábios islâmicos que transmitiram Aristóteles, Ptolomeu e Euclides à Europa medieval, tornando possível o Renascimento. A álgebra, a astronomia, a medicina e a óptica devem ao mundo islâmico medieval contribuições que o Ocidente frequentemente esquece ou minimiza.

As Cruzadas, entre os séculos XI e XIII, introduziram uma nova variável de violência externa na região: exércitos cristãos europeus que, sob a bênção papal, marcharam para ‘libertar’ Jerusalém e massacraram judeus, muçulmanos e cristãos orientais com igual fervor. A Primeira Cruzada, em 1099, resultou em um banho de sangue em Jerusalém que os cronistas medievais descreveram com orgulho e que os historiadores modernos classificam como um dos maiores crimes de guerra da Idade Média. O trauma das Cruzadas permanece vivo na memória coletiva árabe e islâmica até hoje, reaparecendo na retórica política sempre que potências ocidentais intervêm militarmente na região.

O Império Otomano, a partir do século XIV, reunificou grande parte do Oriente Médio sob uma única autoridade política por quase seiscentos anos. Em 1517, o sultão Selim I conquistou o Egito e assumiu o título de Califa, tornando-se o guardião das cidades sagradas de Meca e Medina. O sistema otomano de ‘millets’ — comunidades religiosas autônomas — permitiu uma coexistência relativa entre muçulmanos, cristãos e judeus sob a mesma administração, um modelo de pluralismo pragmático que o colonialismo europeu posterior destruiria sistematicamente.

A Primeira Guerra Mundial foi o momento em que o Ocidente moderno redesenhou o Oriente Médio com régua e caneta, sem qualquer consideração pelos povos que ali viviam. A Declaração Balfour de 1917, emitida pelo governo britânico, prometeu uma ‘pátria nacional’ para o povo judeu na Palestina — um território que já era habitado por uma população árabe majoritária. O Acordo Sykes-Picot de 1916, secretamente negociado entre França e Grã-Bretanha, dividiu as ruínas do Império Otomano em esferas de influência europeias, criando fronteiras artificiais que cortaram tribos, famílias e comunidades ao meio. Essas duas decisões tomadas em gabinetes europeus plantaram as sementes de praticamente todos os conflitos que o Oriente Médio viveria no século seguinte.

A descoberta de petróleo em quantidades industriais — no Irã em 1908, no Iraque em 1927, na Arábia Saudita em 1938 — transformou a região de periferia colonial em epicentro da geopolítica global. O que antes era uma questão de rotas comerciais e rivalidades religiosas tornou-se uma questão de sobrevivência industrial para as potências ocidentais. O petróleo não criou os conflitos do Oriente Médio, mas os amplificou, financiou e internacionalizou de forma que tornaria qualquer solução local quase impossível sem a anuência das grandes potências.

Compreender o Oriente Médio de hoje exige, portanto, não apenas ler os jornais de ontem, mas percorrer dez mil anos de sedimentação histórica: impérios que nasceram e morreram, religiões que moldaram continentes, colonizadores que desenharam mapas sem perguntar aos colonizados e recursos naturais que transformaram a soberania em moeda de troca. A região não é um problema a ser resolvido pelo Ocidente — é uma civilização que precisa ser respeitada em sua profundidade e em seu direito inalienável à autodeterminação.

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