Os Estados Unidos mostram que o esforço para desafiar a supremacia chinesa no mercado de terras-raras ultrapassa a mineração, pois o obstáculo central é reconstruir capacidade técnica e científica perdida ao longo de décadas. Especialistas apontam que o país sofre com erosão de know-how industrial e formação educacional incapaz de suprir profissionais exigidos por uma cadeia produtiva altamente especializada.
Marina Zhang, professora do Australia-China Relations Institute da University of Technology Sydney, é direta: “reconstruir uma cadeia de suprimento de terras-raras é fundamentalmente um desafio de capital humano”. A afirmação se insere no contexto de uma Washington empenhada em preencher lacunas tanto na extração quanto no processamento desses minerais críticos.
Relatórios recentes apontam que os EUA produziram cerca de 51.000 toneladas de terras-raras (equivalente óxido) em 2025, posicionando-se atrás da China, que extraiu aproximadamente 270.000 toneladas. Apesar disso, a dependência americana de importações para compostos e metais refinados segue alta, principalmente dos elementos pesados. O processamento global continua concentrado em solo chinês. ([everycrsreport.com](https://www.everycrsreport.com/reports/IF13171.html?utm_source=openai))
Outro entrave significativo é o tempo de licenciamento. Nos EUA, obter aprovações regulatórias para novos projetos de mineração costuma levar entre sete e dez anos ou mais — frequentemente chegando a quase três décadas desde a descoberta até a produção comercial. ([csis.org](https://www.csis.org/analysis/developing-rare-earth-processing-hubs-analytical-approach?utm_source=openai))
No campo educacional e de mão de obra, há escassez grave de especialistas em engenharia de minas, metalurgia, processamento químico e áreas correlatas. Entre 2016 e 2023, o número de graduados em engenharia mineral nos EUA caiu 39%. Especialistas afirmam que há uma lacuna crítica de pessoas capazes de operar unidades de separação química de terras-raras, produção de ímãs, sinterização, controle de qualidade, entre outros processos específicos. ([niskanencenter.org](https://www.niskanencenter.org/building-a-domestic-critical-mineral-workforce-through-immigration/?utm_source=openai))
Para enfrentar esse déficit, o governo federal e empresas privadas anunciam iniciativas substanciais: em janeiro de 2026, o Departamento de Comércio firmou com a USA Rare Earth um compromisso para liberar quase US$1,6 bilhão em fundos federais, além de US$1,5 bilhão de capital privado, para expandir capacidades de mineração, processamento e manufatura de ímãs magnéticos. A Vulcan Elements planeja construir uma fábrica de ímãs na Carolina do Norte capaz de gerar cerca de 1.000 empregos diretos. ([investors.usare.com](https://investors.usare.com/news-releases/news-release-details/usa-rare-earth-announces-letter-intent-us-government-access-16?utm_source=openai))
Investimentos estratégicos recentes incluem US$1 bilhão em projetos de minerais críticos para reforçar processamento de terras-raras no país, financiamentos de demonstração para refino, reciclagem e produção magnética, além de acordos entre o Pentágono e empresas privadas para garantir compras futuras e estimular estabilidade para investidores. ([rareearthexchanges.com](https://rareearthexchanges.com/news/u-s-unveils-nearly-1-billion-critical-minerals-investment-to-bolster-rare-earth-and-battery-supply-chains/?utm_source=openai))
Mesmo com esses esforços, especialistas alertam que medidas emergenciais — tarifas, incentivos fiscais ou programas pontuais — não serão suficientes se não houver coerência estratégica duradoura. A supremacia chinesa não reside apenas nos recursos minerais mas no controle acumulado sobre tecnologia, refino, especialização profissional e infraestrutura. Os EUA enfrentam o risco de repetir um modelo em que exportam minério bruto, retornando ao mercado já desmembrado: falta de agregação de valor mantida ao estrangeiro, o que fragiliza setores essenciais como defesa, energia renovável, saúde e semicondutores.
Em resumo, a disputa por protagonismo global em terras-raras é também uma corrida de capital humano, domínio tecnológico e políticas de longo prazo. Quem quiser controlar o futuro verá que não basta minerar — é preciso treinar, investir e sustentar conhecimento especializado.
Com informações de www.scmp.com.