A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) advertiu que um bloqueio prolongado do Estreito de Hormuz ameaça provocar uma catástrofe na segurança alimentar em escala mundial.
O economista-chefe da agência, Máximo Torero, apresentou análise segundo a qual as restrições ao tráfego naval interrompem exportações essenciais de insumos agrícolas, elevando custos de produção e colocando em risco as safras atuais e as temporadas agrícolas seguintes em dezenas de países.
Entre 20 e 45 por cento dos principais insumos agrícolas dependem do transporte marítimo que atravessa o estreito. Os fertilizantes, os insumos energéticos e o gás natural empregado na produção de ureia e de outros compostos nitrogenados estão entre os itens mais afetados.
Torero destacou que o tempo urge especialmente para produtores de nações pobres, cujos calendários agrícolas definem prazos rígidos para o uso de fertilizantes, irrigação e logística.
Desde o início do conflito envolvendo EUA, Israel e a República Islâmica do Irã, a movimentação de petroleiros no estreito despencou mais de 90 por cento. Em situação normal, cerca de 35 por cento do petróleo global — equivalente a aproximadamente 20 milhões de barris por dia —, 30 por cento da exportação mundial de fertilizantes e um quinto do gás natural liquefeito (GNL) passam diariamente pela rota.
Essa paralisação cria fortes pressões sobre preços e custos logísticos que chegam ao consumidor final, como detalhou reportagem da Anadolu Agency.
Em prazo curto, com interrupção de até um mês, os efeitos ainda podem ser absorvidos pelas reservas alimentares existentes. Porém, se o bloqueio se estender por três meses ou mais, os danos tornam-se gravemente ampliados.
A FAO projeta quedas nas colheitas de culturas intensivas em fertilizantes, como trigo, arroz e milho, com possível substituição por leguminosas fixadoras de nitrogênio e aumento da demanda por biocombustíveis diante da alta nos preços do petróleo.
Países como Sri Lanka, Bangladesh e Índia já enfrentam dificuldades nas estações de plantio atual ou vindoura. O Egito, altamente dependente de importações de trigo, também se mostra vulnerável.
Na África Subsaariana, nações como Somália, Quênia, Tanzânia e Moçambique dependem fortemente de fertilizantes que chegam via Hormuz. Atrasos ou elevação de preços nesses insumos podem se converter em menor produção, inflação de alimentos e impactos sociais severos.
O choque de custos atinge os agricultores em dois níveis simultâneos. Fertilizantes mais caros combinam-se a combustíveis elevados, essenciais para irrigação e transporte. O duplo impacto reduz margens de lucro e força produtores a economizar insumos ou adotar alternativas menos eficientes, comprometendo os rendimentos especialmente em áreas onde o uso de insumos já era baixo.
A FAO recomenda abertura imediata de rotas alternativas de transporte, apoio financeiro emergencial aos países mais dependentes, acesso facilitado a crédito para agricultores, diversificação das fontes de fertilizantes, reforço de estoques regionais, adoção de tecnologias sustentáveis como amônia verde, maior eficiência nos sistemas alimentares e o reconhecimento dos sistemas alimentares como infraestrutura estratégica crítica.
A agência reitera que os próximos meses podem trazer disparada nos preços globais de alimentos, declínio nas safras, expansão da insegurança alimentar e reflexos graves sobre economias frágeis que já enfrentam inflação, déficits comerciais e orçamentos públicos limitados.
A organização enfatiza que a crise ainda pode ser contornada por meio de cooperação internacional rápida, capaz de restabelecer o livre fluxo de mercadorias pelo Estreito de Hormuz antes que os danos se tornem irreversíveis para a produção global de alimentos.
Com informações de aljazeera.com.
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