Cientistas identificaram o primeiro fóssil incontestável que confirma que os ancestrais dos mamíferos botavam ovos. Um embrião fossilizado de Lystrosaurus, com cerca de 250 milhões de anos, foi encontrado em um nódulo rochoso na Bacia do Karoo, na África do Sul. Ele revela detalhes até então desconhecidos sobre a reprodução em formas pré-mamíferas. A descoberta consta do artigo “The first non-mammalian synapsid embryo from the Triassic of South Africa”, publicado em PLOS ONE em 9 de abril de 2026.
O espécime, identificado como NMQR 3636, preserva um embrião dentro do ovo. Apresenta postura encolhida típica de embriões pré-eclosão, mandíbula inferior ainda aberta — o que indica que o animal não poderia se alimentar por conta própria — membros frágeis e pelve em início de formação. Essas características combinadas só aparecem em organismos que morreram antes de nascer, demonstrando que o ovo existiu. Embora o casco rígido não tenha sido fossilizado, os autores concluem que ele era de casca mole, no estilo de ovos de répteis ou dos únicos mamíferos atuais que põem ovos: os monotremados (ornitorrinco e equidnas). Uma descrição mais detalhada está no portal EarthSky.
Lystrosaurus viveu no fim do Permiano e início do Triássico, há aproximadamente entre 259 e 247 milhões de anos. Foi um sobrevivente da maior extinção em massa da história da Terra, o evento do fim do Permiano, ocorrido há cerca de 252 milhões de anos. Esse gênero herbívoro possuía bico córneo, dois dentes semelhantes a presas e corpo robusto. Habitou o supercontinente Pangeia, com fósseis encontrados hoje em regiões como África, Índia e Antártica, destaca a Britannica.
Os pesquisadores empregaram tomografia computadorizada com raios-X de alta resolução em sincrotron, no Europe Synchrotron Radiation Facility, na França. Estudaram o embrião sem danificar o nódulo, permitindo visualizar tridimensionalmente os ossos internos — incluindo mandíbula, pelve e membros — e avaliar o grau de desenvolvimento e o momento da morte do embrião dentro do ovo, conforme relata o The Conversation.
Analisando o tamanho do embrião em relação a estimativas de adultos de Lystrosaurus, os autores concluem que o ovo era relativamente grande. Essa característica, unida ao conteúdo nutritivo abundante (gema) e ao nível de desenvolvimento avançado do embrião, indica que os filhotes eram precociais: nasciam com certa autonomia para se mover, buscar alimento e escapar de predadores. Não eram amamentados como os mamíferos modernos. O formato do ovo, embora não preservado por completo, sugere que a casca era macia, o que ajudaria a evitar desidratação num ambiente de seca e calor extremos logo após a extinção em massa, detalha o ScienceDaily.
Além do significado biológico, esse fóssil esclarece um ponto crucial debatido há décadas: qual era o tipo de reprodução dos sinápsidos, grupo que inclui os mamíferos. Muitos cientistas acreditavam que viviparidade — dar à luz filhotes vivos — ou amamentação caracterizavam os primeiros mamíferos. Agora, esse achado demonstra que pôr ovos foi uma estratégia ancestral. Segundo a nova visão, viviparidade e produção de leite evoluíram muito depois, em linhagens específicas dentro dos mamíferos.
A importância paleobiológica do Lystrosaurus se reforça: ovos grandes, casca mole e filhotes precociais teriam ajudado esse animal a prosperar após o fim do Permiano, quando estima-se que entre 70% e 96% das espécies terrestres e marinhas foram extintas. Reproduzir jovem, em ritmo acelerado e com menor dependência parental parece ter sido a chave para enfrentar instabilidade climática e ecológica do período.
E daí? Esse achado muda radicalmente o entendimento sobre como mamíferos — humanos incluídos — surgiram de ancestrais que utilizavam ovos de casca mole. Revela que estratégias reprodutivas complexas, como ovo grande, desenvolvimento avançado pré-eclosão e precocidade, surgiram muito antes do que se pensava. Permite entender como adaptação em ambientes extremos foi possível. Na era da crise climática global atual, conhecer essas respostas biológicas ancestrais oferece pistas vitais sobre como espécies podem sobreviver mudanças rápidas.
Com informações de earthsky.org.