Uma imagem capturada pelo satélite EO-1 da NASA em 4 de setembro de 2010 revela o Gee Lake, lago de aproximadamente 3,2 quilômetros de largura que divide de forma nítida a borda nevada do Barnes Ice Cap.
O glaciar localiza-se no centro da ilha de Baffin, território de Nunavut, no Canadá. O Barnes Ice Cap constitui o maior remanescente da Laurentide Ice Sheet, vasta camada de gelo que cobriu extensas áreas da América do Norte e atingiu seu máximo por volta de 20 mil anos atrás.
Conforme detalhou o portal LiveScience em reportagem sobre a imagem de satélite, o Barnes Ice Cap abrange superfície de cerca de 6 mil quilômetros quadrados.
Suas bordas expostas no verão exibem estrias escuras marcadas por correntes de derretimento que escavaram canais profundos no gelo ao longo dos milênios. Essas marcas lembram linhas de crescimento de uma concha.
O glaciologista Ted Scambos, da Universidade do Colorado e do Centro Nacional de Neve e Gelo, ressalta que, apesar das estrias, a superfície do glaciar permanece surpreendentemente plana e lisa.
As estrias tornam-se visíveis sobretudo durante o verão, quando a cobertura de neve diminui em relação ao inverno. Amostras extraídas do gelo indicam que partes do Barnes Ice Cap acumulam material desde cerca de 20 mil anos atrás, o que o posiciona como um dos glaciares mais antigos do Canadá.
Nessa época, ao final da última glaciação, a maior parte da Laurentide Ice Sheet já havia derretido e deixado o Barnes Ice Cap como um dos últimos fragmentos do imenso manto que reconfigurou o relevo do continente.
O Barnes Ice Cap perde atualmente poucos metros de gelo por ano, taxa ainda modesta. Cientistas alertam, porém, que o recuo deve acelerar caso as temperaturas continuem a subir.
Estudo publicado em 2017 projeta que boa parte do glaciar pode desaparecer nos próximos 300 anos se a tendência de aquecimento persistir. O Gee Lake, situado na borda sudeste, funciona como lacuna natural que expõe os processos de desgaste em curso no gelo milenar.
O derretimento da Laurentide Ice Sheet no passado gerou impactos de escala global. Entre eles destacam-se alterações nas correntes oceânicas, submersão de áreas costeiras e reajustes geológicos provocados pelo alívio do peso sobre a crosta terrestre.
A imagem de 2010 continua a ilustrar com clareza os mecanismos atuais de perda de gelo no Ártico canadense e os desafios enfrentados pelos reservatórios remanescentes diante do aquecimento contínuo.
Ted Scambos enfatiza a importância de acompanhar essas formações que preservam registros paleoclimáticos valiosos. O Barnes Ice Cap, com espessura de até 500 metros nas bordas expostas, oferece dados sobre condições ambientais de milênios atrás.
A presença do Gee Lake contra a borda nevada do glaciar transforma a paisagem ártica em laboratório visível dos processos que moldam o futuro dos mantos de gelo polares.
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