O Sistema Único de Saúde passa a oferecer de forma gradual o teste molecular de DNA do papilomavírus humano como método principal para o rastreamento do câncer do colo do útero.
A tecnologia representa uma das principais transformações no combate à doença no país ao permitir detecção do vírus de alto risco oncogênico antes do surgimento de lesões.
A medida foi anunciada pelo Ministério da Saúde com base nas Diretrizes Brasileiras de Rastreamento do Câncer do Colo do Útero após aprovação da Conitec e orientação técnica do Instituto Nacional de Câncer.
Diferentemente do exame citológico de Papanicolau, que exige repetição a cada três anos após dois resultados normais coletados com intervalo de um ano, o novo teste permite estender o intervalo para cinco anos quando o resultado for negativo.
O teste de DNA-HPV apresenta maior sensibilidade e precisão na identificação de tipos oncogênicos do vírus.
A implementação do programa de rastreamento organizado tem início em 12 estados e no Distrito Federal, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará, Bahia, Pará, Rondônia, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraná, Pernambuco e Minas Gerais.
Nessa fase inicial, o teste molecular será introduzido progressivamente e o método citopatológico tradicional continuará disponível como exame complementar para os casos em que o teste de HPV apresentar resultado positivo.
Os dados do INCA indicam a urgência da nova política, com estimativa de 17.010 casos novos da doença a cada ano no triênio 2023-2025 e taxa de incidência ajustada de 15,38 casos por 100 mil mulheres.
Estudo conduzido em Indaiatuba, no estado de São Paulo, entre outubro de 2017 e setembro de 2022, revelou que o teste molecular identificou lesões precursoras de alto grau em frequência até quatro vezes superior à citologia e permitiu a detecção de cânceres predominantemente em estágios iniciais, o que favorece o tratamento e aumenta as taxas de cura.
A iniciativa tem potencial para atingir cerca de 5,6 milhões de mulheres ao longo de cinco anos somente nos locais que iniciam a oferta.
O Ministério da Saúde estabeleceu a meta de disponibilizar o teste em todo o território nacional até dezembro de 2026, com capacidade de beneficiar cerca de 7 milhões de mulheres na faixa etária entre 25 e 64 anos a cada ano, conforme detalhou o portal do Ministério da Saúde.
O público-alvo contempla mulheres cisgênero, pessoas trans que possuem colo do útero, indivíduos intersexuais e pessoas não binárias com anatomia uterina compatível.
Entre os avanços está a inclusão da autocoleta, que permite a coleta do material pela própria interessada em ambiente domiciliar com posterior entrega na Unidade Básica de Saúde para análise laboratorial.
Essa modalidade busca superar barreiras de acesso em áreas remotas, populações vulneráveis ou entre aquelas que apresentam desconforto com o exame ginecológico convencional.
A nova tecnologia também reduz a necessidade de repetição de exames diante de resultados inconclusivos.
Apesar do potencial da nova política, o cenário atual é desafiador, uma vez que menos de 1 por cento dos municípios alcançam a cobertura de rastreamento de 80 por cento recomendada pela Organização Mundial da Saúde.
A articulação entre os entes federados, a capacitação de profissionais e a reorganização dos fluxos de atendimento serão determinantes para que o impacto corresponda às expectativas geradas pela incorporação da tecnologia.
Julio Cesar Teixeira, pesquisador da Universidade Estadual de Campinas e responsável pelo estudo de Indaiatuba, afirmou que o resultado negativo do teste molecular confere «com 100 por cento de certeza de que por cinco anos a mulher não terá uma lesão pré-cancerosa ou câncer de colo do útero».
A vacinação contra os tipos oncogênicos do HPV continua sendo ferramenta essencial de prevenção primária, e as diretrizes reforçam que o rastreamento não substitui a imunização, que segue recomendada especialmente para crianças e adolescentes, além de grupos específicos.
Com informações de metropoles.com.
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