Um aglomerado fóssil descoberto no sítio paleontológico de Bromacker, na Turíngia, na Alemanha, expõe detalhes da cadeia alimentar terrestre de cerca de 290 milhões de anos atrás, no início do período Permiano.
O material, antes classificado como coprólito, revelou-se na verdade um regurgitalito — ou vômito fossilizado — produzido por um predador sinapsídeo que apresentava dieta heterogênea e altamente oportunista.
O fóssil MNG 17001 mede cerca de cinco centímetros e contém 41 fragmentos ósseos, todos menores que dois centímetros, provenientes de no mínimo três espécies diferentes.
A microtomografia computadorizada permitiu identificar ossos de Thuringothyris mahlendorffae, de Eudibamus cursoris e de um diadectídeo ainda não classificado, como demonstra o estudo publicado na revista Scientific Reports e disponível no repositório acadêmico.
Os pesquisadores descartaram a natureza fecal do material pela disposição extremamente compacta e alinhada dos ossos, sem qualquer matriz sedimentar típica de coprólitos, e pelo baixo teor de fósforo — elemento que aparece em concentração elevada quando ocorre digestão intestinal completa.
Esses traços químicos e estruturais indicam claramente que o predador regurgitou o conteúdo após ingestão parcial.
Trata-se da evidência mais antiga registrada de vômito fossilizado em vertebrado terrestre. A presença simultânea de restos de múltiplas espécies no mesmo evento alimentar demonstra que o animal não se limitava a presas específicas, mas combinava pequenos répteis ágeis com vertebrados de porte médio ou grande, aproveitando inclusive carcaças conforme a oportunidade.
Esse comportamento é semelhante ao de predadores modernos como o dragão de Komodo e leões.
Os candidatos mais prováveis à autoria do regurgitalito são os sinapsídeos Dimetrodon teutonis e Tambacarnifex unguifalcatus, os maiores carnívoros conhecidos da fauna de Bromacker.
Ambos possuíam capacidade anatômica para capturar e processar presas variadas, desde pequenos tetrápodes até herbívoros mais robustos, o que se alinha perfeitamente com o conteúdo ósseo encontrado.
Luiz Arnaud Rebillard, paleontólogo do Museu de História Natural de Berlim, observou que a densidade compacta dos ossos levou a equipe a suspeitar imediatamente de material expelido pelo sistema digestivo, antes mesmo das análises detalhadas.
A preservação ocorreu em uma planície de inundação sazonal cujas condições favoreciam a fossilização rápida de eventos como a regurgitação — algo extremamente raro no registro terrestre antigo.
O achado oferece evidência direta de interações tróficas que o registro fóssil costuma obscurecer. Fragmentos parcialmente articulados permitem reconstruir com precisão quem consumia quem e revelam que os predadores dominantes do Permiano inicial adotavam estratégias flexíveis em vez de especializações rígidas.
Essa variabilidade alimentar adiciona complexidade significativa às reconstruções de ecossistemas pré-dinossauros.
O estudo reforça que comportamentos oportunistas de predação e possível carniçaria já estavam bem estabelecidos entre os sinapsídeos apex predators daquela época. O uso combinado de tomografia de microfoco e análises químicas ilustra o avanço metodológico da paleontologia contemporânea na extração de dados biológicos de vestígios aparentemente modestos.
O espécime continua guardado na Friedenstein Stiftung, em Gotha, após preparação no Museum für Naturkunde, em Berlim.
Com essa descoberta, os cientistas ganham nova compreensão sobre a dinâmica alimentar que moldou os ecossistemas terrestres ancestrais. O mundo do Permiano inicial mostra-se mais dinâmico do que se imaginava, com predadores capazes de ajustar rapidamente suas dietas conforme a disponibilidade de presas e de explorar nichos variados em um ambiente ainda em consolidação após a colonização plena dos continentes por vertebrados.
Com informações de olhardigital.com.br.
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