O acordo-quadro entre Washington e Teerã para encerrar o conflito no Irã, anunciado há apenas dois dias, já enfrenta um obstáculo que ameaça implodi-lo antes mesmo da assinatura prevista para esta sexta-feira. O governo iraniano exige a retirada completa das forças israelenses do sul do Líbano como condição para o cessar-fogo, demanda que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, rejeitou de imediato e por tempo indeterminado.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghtschi, vinculou diretamente o fim do conflito ao término da ocupação israelense em território libanês. Em declaração reproduzida pela televisão estatal iraniana, Araghtschi afirmou a diplomatas estrangeiros que a permanência de tropas de Israel no sul do Líbano constituiria uma violação expressa do entendimento firmado com os Estados Unidos.
Do lado israelense, a resposta veio em tom de recusa categórica. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, declarou que ele e Netanyahu mantêm uma “política clara” de preservar zonas de segurança não apenas no Líbano, mas também na Síria e na Faixa de Gaza, por um período que descreveu como “ilimitado”. A justificativa oficial é proteger a fronteira e as localidades israelenses contra o que chamam de “elementos jihadistas”.
Segundo apurou o portal tagesschau.de, Katz foi além ao afirmar que Israel rejeita qualquer retirada do Líbano “apesar da pressão existente e da pressão adicional que ainda virá”. Netanyahu já teria comunicado pessoalmente a decisão ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sinalizando que a aliança entre os dois países enfrenta um dos momentos mais delicados desde o início da ofensiva conjunta contra o Irã.
A situação no terreno confirma o impasse. Na noite anterior, as forças israelenses interceptaram dezenas de foguetes disparados pelo Hezbollah, que também empregou mísseis antitanque e morteiros contra tropas israelenses posicionadas na região. O Hezbollah reivindicou a autoria dos ataques, intensificando um ciclo de hostilidades que o acordo-quadro pretendia interromper.
A resistência de Netanyahu coloca Trump em posição desconfortável às vésperas de eleições legislativas cruciais nos Estados Unidos, marcadas para novembro. O presidente americano vê o acordo como uma cartada para recuperar popularidade, desgastada pelo aumento dos preços de alimentos e energia em decorrência do conflito. À margem da cúpula do G7 em Évian, na França, Trump criticou abertamente os ataques israelenses a Beirute e cobrou “mais responsabilidade” do premiê israelense no Líbano.
O próprio vice-presidente dos EUA, JD Vance, admitiu que o acordo-quadro não passa de “um documento muito genérico”, com cerca de uma página e meia de extensão. A indefinição sobre o que exatamente foi pactuado em relação ao Líbano — e se Israel chegou a ser consultado — apenas aprofunda a fragilidade do entendimento que Washington tenta costurar com Teerã.
A crise libanesa entrou na equação do conflito em março, quando o Hezbollah, grupo aliado do Irã, abriu uma frente de combate contra Israel logo após o início dos bombardeios americanos e israelenses em território iraniano. Israel respondeu com uma ofensiva terrestre no sul do Líbano, ocupando faixas que agora se nega a desocupar.
A insistência israelense em manter tropas além de suas fronteiras contraria o espírito do cessar-fogo que os negociadores americanos tentam consolidar. Isso oferece a Teerã um argumento jurídico e político para não avançar na desescalada. O acordo, que deveria ser assinado em poucos dias, caminha para se tornar letra morta antes de produzir qualquer efeito concreto sobre o terreno.
Com informações de TAGESSCHAU.


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