USP alcança marco técnico com primeiro motor híbrido desenvolvido por estudantes brasileiros

Imagem gerada por IA pelo Flux Pro (fal.ai), a partir de prompt do Cafezinho. 17/04/2026 20:56

Depois de quase dez anos de pesquisa, em 4 de abril de 2026 estudantes do Projeto Jupiter da Escola Politécnica da USP lançaram o foguete Elara II, marcando o primeiro voo real — no Brasil — de um veículo universitário com motor híbrido (combustível sólido + oxidante líquido). O motor, chamado Nêmesis, começou a ser idealizado em 2016 com o protótipo Nelore, que foi testado estaticamente em Pirassununga em agosto de 2023. Relatou o Tempo.

Embora o Elara II não tenha alcançado o desempenho estimado — por conta de um erro no abastecimento de oxidante que deixou o nível abaixo do previsto —, todos os sistemas críticos funcionaram conforme o esperado: freios aerodinâmicos, mecanismos de recuperação com paraquedas e integridade estrutural da fuselagem. O pouso foi seguro, com danos mínimos, abrindo caminho para análise de dados essenciais à evolução do projeto.

O motor híbrido usa combustível sólido à base de parafina com negro de fumo, combinado a óxido nitroso (N₂O) como oxidante líquido. Dobrar essa abordagem tecnológica permite usufruir da robustez dos sistemas sólidos aliados ao controle operacional em voo típico dos motores líquidos. Desde 2015, o Projeto Jupiter já construía foguetes com motores sólidos, reservando o híbrido para desenvolvimento de maior complexidade tecnológica.

A dimensão desse avanço técnico se evidencia ao comparar com o foguete Pacífico (2024), cuja propulsão era inteiramente sólida: com 2,57 metros e 38 kg, ele atingiu cerca de 2.944 metros de altitude na competição Spaceport America Cup, categoria 10K Solid SRAD, com estrutura de fibra de vidro e componentes impressos em 3D — características que, antes, apareciam apenas em lançamentos menos complexos.

O Elara II foi projetado, construído e operado quase que totalmente pelos estudantes, mesmo sem um curso formal de engenharia aeroespacial na USP. Os preparativos incluíram uma campanha de mais de doze horas em Pirassununga — realizada durante o feriado de Páscoa — com suporte da Academia da Força Aérea, da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos da USP, e patrocínio de empresas como a Air Liquide.

O lançamento posiciona o Brasil para estrear na competição IREC (International Rocket Engineering Competition), no Texas, em junho de 2026, com ambição de levar veículos ainda mais sofisticados baseados em tecnologia híbrida. Para o Projeto Jupiter, esse será o momento de elevar o nível técnico da participação brasileira.

O valor desse feito vai além do voo: o sucesso parcial do Elara II mostra que a soberania tecnológica aeroespacial, antes promessa distante, pode se tornar realidade concreta nas universidades brasileiras. Construir motores híbridos internamente reduz dependência de importações, fortalece competências estratégicas, impulsiona inovações em propulsão, controle, recuperação e segurança. O legado técnico do Elara II pode acelerar o protagonismo do Brasil no Sul Global, para além de projetos estudantis — servindo demandas nacionais como satélites, defesa e serviços espaciais independentes.


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