Aquecimento global intensifica incêndios florestais noturnos na América do Norte

Uma casa em chamas cercada por palmeiras durante um incêndio florestal. (Foto: phys.org)

Incêndios florestais na América do Norte mantêm alta intensidade durante as horas noturnas, e o aquecimento global é o principal responsável por eliminar o alívio que as noites antes proporcionavam.

Um estudo publicado na revista Science Advances mostra que o número de horas por ano com condições meteorológicas favoráveis a incêndios aumentou 36% nos últimos 50 anos. A Califórnia acumulou cerca de 550 horas adicionais de risco, enquanto partes do Novo México e do Arizona registraram até 2.000 horas extras.

O trabalho foi liderado por Kaiwei Luo, da Universidade de Alberta, conforme reportagem do portal Phys.org. Os cientistas constataram que a umidade noturna já não se recupera como antes e que as temperaturas mínimas sobem mais rápido do que as máximas diurnas.

Desde 1975, as noites de verão nos Estados Unidos continentais aqueceram 1,4 grau Celsius em média. Os dias registraram aumento de 1,2 grau Celsius, segundo dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica.

Essa diferença mantém o solo e a vegetação secos por mais tempo, tornando o combustível natural inflamável mesmo após o pôr do sol.

Casos recentes confirmam a nova realidade. O incêndio de Lahaina, no Havaí, começou pouco depois da meia-noite em 2023 e destruiu grande parte da cidade enquanto os moradores dormiam.

O mesmo padrão apareceu no fogo que atingiu Jasper, no Canadá, em 2024, e nos incêndios que devastaram Los Angeles em 2025. Todos apresentaram comportamento extremo durante a noite e dificultaram o trabalho dos bombeiros.

Xianli Wang, do Serviço Florestal do Canadá, resume o fenômeno com precisão: “Sob condições extremas, o fogo não dorme. Ele continua queimando ou reacende antes do amanhecer.”

O calendário de risco também se estendeu. O número de dias por ano com condições propícias a incêndios cresceu 44% desde a década de 1970, o equivalente a 26 dias adicionais de perigo anual.

A equipe analisou quase 9.000 incêndios de grande porte entre 2017 e 2023. Os pesquisadores cruzaram dados de satélite com modelos climáticos para correlacionar temperatura, vento, umidade e secura da vegetação.

Nos Estados Unidos, os incêndios florestais queimaram em média 28.500 quilômetros quadrados por ano entre 2016 e 2025. Essa área corresponde ao tamanho do estado de Massachusetts.

No Canadá, a área queimada na última década quase triplicou em relação à média da década de 1980. Jacob Bendix, da Universidade de Syracuse, avalia que o aquecimento global amplia o potencial destrutivo do fogo em todo o continente.

Os bombeiros enfrentam desafios extras nas operações noturnas. A visibilidade reduzida, o terreno irregular e a presença de animais selvagens em fuga aumentam o risco de acidentes.

Nicholai Allen, que atua no combate a incêndios e no desenvolvimento de ferramentas de prevenção, relatou ataques de ursos a colegas durante ações noturnas. A vigilância contínua se tornou essencial diante do novo padrão.

Os autores do estudo alertam que as florestas perdem a capacidade de recuperação durante a noite. A vegetação estressada acumula material inflamável e transforma as horas escuras em período de alto risco.


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