Um estudo publicado na revista PNAS demonstra que o gelo marinho da Antártica expandiu-se lentamente por décadas até sofrer uma inversão abrupta a partir de 2016.
Os pesquisadores Earle Wilson, Lexi Arlen e Ethan Campbell identificaram mudanças nos ventos e na salinidade que liberaram calor acumulado no oceano e provocaram retração sustentada. A equipe utilizou dados de quase duas décadas obtidos por flutuadores Argo, que medem temperatura e salinidade em profundidade.
Até 2016, o aumento das precipitações tornava as águas superficiais mais doces e favorecia a formação de gelo. A partir daquele ponto, ventos mais intensos e deslocados passaram a afastar essas águas frias do continente antártico.
Correntes profundas e quentes puderam então emergir à superfície e acelerar o derretimento. Earle Wilson, oceanógrafo polar da Universidade de Stanford, descreveu o evento como uma liberação violenta de calor acumulado sob o gelo.
A inversão nos fluxos atmosféricos e oceânicos interrompeu o ciclo anterior de expansão gradual. O cientista climático Zachary Labe afirmou que tanto o aquecimento atmosférico quanto o oceânico explicam a mudança súbita observada desde 2016.
O trabalho reforça o papel central da estratificação salina e dos gradientes térmicos na regulação do gelo polar. O gelo marinho atua como escudo protetor para as plataformas de gelo flutuantes ao longo da costa.
Sem essa cobertura, as ondas e correntes erodem as plataformas e aceleram o fluxo de gelo terrestre para o mar. Caso toda a massa de gelo da Antártica derretesse, o nível global dos oceanos subiria cerca de 60 metros.
Essa elevação inundaria vastas áreas costeiras e deslocaria centenas de milhões de pessoas em todo o planeta. O estudo registrou diferenças regionais claras entre os setores do continente.
No mar de Weddell e na Antártica Oriental, o aquecimento das águas profundas e o enfraquecimento da barreira salina facilitaram a transferência de calor para a superfície. No setor do Pacífico, as águas profundas esfriaram e ganharam maior estabilidade.
Esses contrastes indicam que os mecanismos variam conforme a dinâmica local de cada região. Os autores reconhecem que ainda não se sabe se a retração atual será permanente.
Modelos climáticos precisarão incorporar os novos dados para projetar se o gelo pode recuperar-se em alguns períodos ou se a perda continuará. Wilson observa que oscilações naturais podem ocorrer, mas a tendência de longo prazo aponta para redução contínua conforme as temperaturas globais sobem.
Os pesquisadores defendem a expansão do monitoramento internacional na atmosfera e no oceano antártico. Redes de observação mais densas são necessárias para acompanhar as transformações rápidas e seus efeitos no nível do mar.
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