MST cobra virada econômica e critica duramente juros altos que travam reforma agrária

João Paulo Rodrigues, coordenador nacional do MST, em foto de arquivo. (Foto: cartacapital.com.br)

O coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra João Paulo Rodrigues afirmou que a política de juros altos e o orçamento limitado paralisam a reforma agrária no Brasil.

Em entrevista ao portal CartaCapital, o dirigente defendeu que o governo precisa promover uma virada econômica para garantir recursos à desapropriação de terras e ao apoio às famílias no campo.

A atual gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva registrou avanços em políticas sociais e na recuperação de programas desmontados anteriormente. No entanto, o setor agrário segue em situação crítica, de acordo com o líder do MST.

Cerca de 10 mil famílias foram assentadas desde 2023, o que o movimento considera insuficiente diante da demanda histórica acumulada. Seriam necessários 15 bilhões de reais para resolver o passivo de famílias acampadas há mais de uma década, enquanto o orçamento atual é de apenas 500 milhões.

Rodrigues critica especialmente a política monetária do Banco Central, que mantém a taxa Selic em patamar elevado. Para o dirigente, essa decisão impede investimentos produtivos e reduz a capacidade do Estado de financiar políticas estruturais.

Embora o presidente do BC, Gabriel Galípolo, seja uma pessoa de confiança do governo, suas justificativas para manter os juros elevados não convencem o MST. “Dá qualquer sinal de instabilidade e mantém o juro alto. Isso é um absurdo”, disse Rodrigues.

O baixo investimento em setores organizados como sindicatos, comunidades indígenas e quilombolas também merece críticas do movimento. Rodrigues defende o retorno do imposto sindical como forma de fortalecer a estrutura dos trabalhadores rurais.

Ele critica ainda a falta de recursos para políticas de alfabetização e mecanização agrícola. Menos de 5 por cento dos agricultores familiares têm acesso a maquinário, o que o dirigente considera inaceitável em um governo de esquerda.

Para o MST, a reforma agrária deixou de ser tratada como solução e passou a ser vista como problema. Essa percepção resulta da criminalização promovida pela direita e do recuo da esquerda em defender o tema.

O dirigente argumenta que ocupar terras é um instrumento legítimo de luta social. O governo dispõe de instrumentos legais para avançar na reforma agrária sem depender do Congresso Nacional.

O problema, segundo Rodrigues, é a falta de dinheiro e de decisão política para priorizar o campo. O movimento também prepara estratégia eleitoral para ampliar sua representação institucional no país.

Atualmente o MST conta com três deputados federais, todos do PT, e pretende dobrar esse número nas próximas eleições. São 18 pré-candidatos em todo o país para assembleias estaduais e para a Câmara dos Deputados.

A prioridade imediata segue sendo a reeleição do presidente Lula. Rodrigues projeta já o debate sobre o futuro político da esquerda até 2030.

Ele defende a formação de novas lideranças e a construção de um projeto de transição para o período pós-Lula. “Temos que organizar um novo time de segunda e terceira geração. Não adianta achar que há sucessão natural”, afirmou o dirigente.

O desafio central é recolocar a reforma agrária no centro do debate progressista. A medida visa transformá-la novamente em símbolo de desenvolvimento e justiça social.


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