Uma equipe internacional de cientistas demonstrou que pequenas cavidades inseridas em materiais podem tornar os alvos de fusão nuclear mais estáveis quando submetidos a ondas de choque intensas.
O estudo publicado na revista Physical Review Letters revela como essas estruturas microscópicas reduzem a formação de instabilidades que comprometem experimentos de confinamento inercial. O fenômeno estudado é a instabilidade de Richtmyer-Meshkov, que surge quando uma onda de choque atravessa a interface entre dois materiais de densidades diferentes.
Pequenas irregularidades nessa fronteira geram jatos de material em alta velocidade que prejudicam a simetria e a eficiência do processo. O físico Jergus Strucka, primeiro autor do trabalho e atualmente no European XFEL, explicou que a equipe utilizou algoritmos de aprendizado de máquina para otimizar alvos tridimensionais capazes de neutralizar essa instabilidade.
O pesquisador detalhou que o alvo redesenha a onda de choque tanto no espaço quanto no tempo à medida que ela atravessa o material. Em vez de um único impacto, as cavidades fragmentam a pressão em uma sequência de pulsos menores que chegam em momentos ligeiramente diferentes.
Essa redistribuição de energia enfraquece a onda e reduz significativamente a formação de jatos instáveis. A abordagem enfrentou o desafio da fabricação em escala micrométrica, superado com impressão 3D em polímeros e moldagem em gelatina.
Os pesquisadores depositaram a estrutura gelatinosa sobre uma fina lâmina de cobre e aplicaram um pulso elétrico de altíssima intensidade. O pulso gerou uma onda de choque que atravessou a gelatina e encontrou as cavidades antes de atingir a superfície ondulada.
Dane Sterbentz, coautor do estudo e pesquisador do Lawrence Livermore National Laboratory, destacou que o efeito funciona como uma instabilidade inversa. Ao modificar o pulso de pressão enquanto ele passa pelas cavidades, cria-se uma segunda onda que atua contra o jateamento instável.
Esse mecanismo de compensação reduz o crescimento das perturbações e melhora a estabilidade geral do material. Os resultados têm implicações diretas para o avanço da fusão por confinamento inercial, que exige simetria extrema durante a implosão.
A tecnologia pode elevar o rendimento de experimentos conduzidos no National Ignition Facility e no Omega Laser Facility, na Universidade de Rochester, em Nova York. Qualquer assimetria durante a ignição diminui a eficiência e a produção de energia.
O princípio físico descoberto permite aplicações além da fusão nuclear. Áreas como engenharia de materiais, extração de petróleo e gás e setores de defesa podem se beneficiar do controle preciso da propagação de ondas de choque.
O artigo, intitulado Passive Freeze-Out of the Richtmyer-Meshkov Instability e destacado pelo portal Phys.org, reforça o papel da inteligência artificial e da manufatura aditiva na ciência dos materiais. A combinação de modelagem computacional avançada com experimentação de alta precisão permite projetar estruturas que manipulam fenômenos físicos fundamentais com precisão micrométrica.
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