Paleontólogos reclassificam fóssil do Araripe de pterossauro para peixe

Fóssil de um "pterossauro" brasileiro que está sendo reclassificado como peixe. (Foto: phys.org)

Um fóssil descoberto na formação do Araripe, no Ceará, foi reclassificado como parte de um grande peixe. A correção, publicada nos Anais da Academia Brasileira de Ciências, derruba a interpretação inicial que o tratava como um novo pterossauro.

O paleontólogo Rodrigo Pêgas, do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo, liderou o grupo responsável pela descrição original. Os pesquisadores haviam identificado o material como mandíbulas e dentes de dois pterossauros regurgitados por um dinossauro carnívoro.

O professor David Unwin, da Universidade de Leicester, e o pesquisador Roy Smith, da Universidade de Portsmouth, comandaram a equipe internacional de revisão. A nova análise concluiu que as supostas centenas de dentes eram, na verdade, filamentos branquiais típicos de peixes.

Os fragmentos ósseos não correspondiam a nenhuma estrutura conhecida do crânio de pterossauros. Esses elementos apresentavam textura e composição mineralógica diferentes das observadas em répteis voadores do Cretáceo.

Os cientistas compararam o espécime com outros fósseis de peixes da mesma bacia geológica, de 110 milhões de anos. Eles determinaram que o material representava uma arcada branquial colapsada de um peixe de grande porte.

O fóssil principal estava preservado junto de dois peixes menores na mesma placa de rocha. Essa associação reforçou a hipótese de um ambiente aquático comum, em vez de uma cena de regurgitação por dinossauro.

Conforme reportagem do Phys.org, a revisão remete a um erro clássico de 1939. Naquele ano, o paleontólogo Ferdinand Broili descreveu o suposto pterossauro Belonochasma, que décadas depois revelou-se um peixe.

O caso expõe como detalhes anatômicos sutis em fósseis fragmentados geram interpretações equivocadas. A velocidade da correção científica aumentou com a circulação digital de imagens e dados.

A descrição inicial do Bakiribu waridza ganhou notoriedade imediata entre paleoartistas e entusiastas. Ilustrações e uma página na Wikipédia foram criadas antes mesmo da publicação da reclassificação.

A equipe de Unwin submeteu o preprint apenas cinco semanas após o anúncio original. O trabalho passou pela revisão por pares e foi aceito pela Academia Brasileira de Ciências.

O grupo liderado por Pêgas recebeu convite para publicar resposta no mesmo volume da revista. Os pesquisadores optaram por não apresentar réplica ao estudo.

Os autores destacam que equívocos de identificação são inevitáveis na paleontologia, que lida com vestígios incompletos. O compartilhamento rápido de informações, porém, permite correções muito mais ágeis do que nas décadas passadas.

O episódio reforça a relevância da cooperação internacional na ciência dos fósseis. A bacia do Araripe segue revelando tesouros do Cretáceo que exigem exame constante e rigoroso.


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