Uma múmia romana encontrada em Oxyrhynchus, a cerca de 160 quilômetros do Cairo, surpreendeu arqueólogos espanhóis e egípcios ao trazer, entre as camadas de linho, um fragmento do poema épico grego Ilíada. O achado, anunciado por pesquisadores da Universidade de Barcelona em cooperação com o Ministério de Antiguidades do Egito, oferece novas pistas sobre a circulação de textos clássicos no Mediterrâneo durante o domínio romano.
O fragmento foi identificado dentro de um complexo funerário datado entre os séculos I e II d.C., período em que o Egito fazia parte do Império Romano e ainda preservava fortes traços da cultura helenística. Segundo a Euronews, o texto contém versos reconhecíveis atribuídos a Homero, indicando que a obra circulava entre leitores cultos egípcios séculos depois de sua composição original.
O arqueólogo Josep Padró, diretor da missão, explicou que a múmia estava envolta em tecidos ornamentados e acompanhada de pequenas placas de ouro gravadas. O fragmento literário foi encontrado entre as camadas internas do linho, o que sugere que o texto tinha valor simbólico ou ritual. Para Padró, a presença da Ilíada em um contexto funerário demonstra a fusão entre a religiosidade egípcia e o imaginário heroico grego.
As escavações também revelaram máscaras mortuárias, papiros e objetos de madeira pintada, compondo um dos conjuntos mais bem preservados de Oxyrhynchus desde as grandes campanhas britânicas do início do século XX. O material está sendo analisado em laboratórios do Museu Egípcio de Barcelona, onde técnicas de espectroscopia e fotografia multiespectral vêm permitindo a leitura de fragmentos antes invisíveis. Os cientistas esperam recuperar cerca de 80% do texto, o que pode oferecer novas variantes linguísticas do grego antigo.
Segundo a arqueóloga egípcia Samira Abdel Rahman, do Conselho Supremo de Antiguidades, o achado reforça a posição do Egito como ponte entre as civilizações africana, grega e romana. Oxyrhynchus foi um dos principais centros de produção de papiros do mundo antigo, com mais de meio milhão de fragmentos já descobertos. O novo conjunto, porém, é o primeiro encontrado dentro de um corpo mumificado, o que amplia as interpretações sobre o uso simbólico da escrita na Antiguidade.
Os pesquisadores estimam que o fragmento tenha sido copiado por volta do ano 150 d.C., em caligrafia cursiva típica de escribas profissionais. O texto, de pouco mais de 12 centímetros, foi escrito com tinta à base de carbono e apresenta sinais de leitura ritualística, possivelmente associada à passagem da alma. A hipótese é reforçada pela presença de amuletos e inscrições em grego e demótico que mencionam proteção divina e coragem, temas centrais na epopeia homérica.
O Ministério da Cultura da Espanha anunciou que o projeto, financiado pela Fundação Ramón Areces, receberá nova rodada de recursos em 2026. O investimento total deve ultrapassar 2,3 milhões de euros, com foco em digitalização 3D e conservação preventiva. A meta é criar um acervo digital aberto, permitindo que pesquisadores de diferentes países estudem o material sem risco de deterioração física.
Especialistas em literatura clássica afirmam que a descoberta pode alterar a cronologia da recepção de Homero fora da Grécia. Para o professor Dimitrios Karalis, da Universidade de Atenas, o fato de o texto ter sido encontrado em um túmulo egípcio indica que a Ilíada circulava como obra espiritual, e não apenas escolar. Ele observa que o fragmento mostra como a cultura grega foi reinterpretada pelos povos do Nilo, incorporando valores locais de transcendência e vida após a morte.
O achado também reacende o debate sobre a repatriação de artefatos e o papel das potências europeias na arqueologia do Oriente. O Egito, que há décadas reivindica o retorno de peças levadas para museus ocidentais, agora assume protagonismo nas escavações conjuntas. A cooperação com universidades espanholas e italianas tem sido vista como exemplo de arqueologia multipolar, baseada em troca de conhecimento e respeito à soberania cultural.
Para os pesquisadores, a múmia de Oxyrhynchus é um testemunho raro da convivência entre tradições egípcia e grega, preservado por quase dois mil anos nas areias do deserto. O fragmento da Ilíada confirma que a literatura clássica não era apenas herança da Grécia, mas parte viva de um diálogo que atravessou fronteiras, idiomas e séculos.
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