DNA de tumba de 5 mil anos revela que peste pode ter dizimado os primeiros agricultores da Europa

Ilustração editorial sobre DNA de tumba de 5 mil anos revela que peste pode ter dizimado os primeiros agricultores da Europa. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Há cinco milênios, no coração da Europa neolítica, comunidades agrícolas florescentes desapareceram em silêncio, deixando para trás florestas que retomaram os campos e túmulos megalíticos esquecidos sob a terra. O que antes parecia um enigma arqueológico começa agora a ser decifrado pela ciência genética, que revela nas ossadas sinais de uma catástrofe biológica de proporções continentais.

Pesquisadores da Universidade de Copenhague analisaram o DNA de 132 indivíduos sepultados em Bury, a cerca de 50 quilômetros de Paris, e encontraram rastros de microrganismos mortais. A descoberta, publicada na revista Nature Ecology & Evolution, indica que uma onda de doenças infecciosas, incluindo a peste, pode ter aniquilado parte fundamental dos primeiros agricultores europeus, abrindo espaço para novas populações que transformariam o continente.

O geneticista Martin Sikora, da Universidade de Copenhague, explicou que a tumba de Bury contém duas histórias separadas por séculos e marcadas por rupturas genéticas profundas. O DNA extraído dos dentes mostrou que os primeiros sepultamentos ocorreram entre 3200 e 3100 a.C., em uma época em que uma extensa rede familiar vivia e morria sob rituais cuidadosamente preservados.

Essas famílias, no entanto, foram atingidas por forças invisíveis que corroeram sua vitalidade. As ossadas revelam uma mortalidade elevada entre jovens e adultos em plena idade produtiva, um padrão que sugere o impacto de uma epidemia devastadora infiltrada no cotidiano agrícola do Neolítico.

A arqueóloga Laure Salanova, do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, destacou que a distribuição das mortes não corresponde à de uma comunidade saudável. As análises genéticas detectaram fragmentos de Yersinia pestis — a bactéria da peste — e de Borrelia recurrentis, causadora da febre recorrente transmitida por piolhos, duas presenças que denunciam uma tragédia infecciosa de longa duração.

Esses microrganismos, preservados nos dentes dos primeiros sepultados, indicam que o contágio se espalhava entre humanos e animais domésticos. A convivência estreita nas aldeias e o compartilhamento de recursos agrícolas podem ter acelerado a disseminação, levando a uma mortalidade tão intensa que desarticulou o tecido social e genético da região.

Após esse colapso, o silêncio tomou conta da paisagem e as florestas voltaram a dominar os campos abandonados. Estudos de pólen realizados nos arredores de Paris confirmam uma regressão agrícola, em que a natureza retomou territórios antes moldados pelos arados humanos, como se apagasse as marcas de uma civilização extinta.

Séculos depois, a tumba voltou a ser usada, mas por um povo completamente diferente. A equipe de Sikora identificou que os novos ocupantes provinham do sul da França e da Península Ibérica, portando tradições funerárias e códigos genéticos sem qualquer relação com os antigos agricultores.

Enquanto os primeiros enterravam seus mortos estendidos e lado a lado, os recém-chegados preferiam posições encolhidas, com os corpos flexionados, como se dormissem dentro da pedra. Essa mudança ritual revela uma nova ordem simbólica, em que os laços de sangue foram substituídos por vínculos culturais e hierarquias sociais, refletindo transformações amplas no modo de habitar e morrer.

O arqueogeneticista Frederik Seersholm, também da Universidade de Copenhague, afirmou que a quebra genética entre as duas fases é total, como se uma população inteira tivesse sido substituída. Para ele, o colapso de Bury representa uma miniatura da transição continental que marcou a passagem do Neolítico para a Idade do Bronze, quando migrações e doenças redesenharam o mapa humano da Europa.

Essa substituição coincide com um período de retração das atividades agrícolas no noroeste europeu, evidenciando o impacto prolongado das epidemias. As antigas redes de parentesco dissolveram-se, e o vazio demográfico abriu caminho para fluxos migratórios vindos do sul, que trouxeram novas línguas, crenças e tecnologias.

O estudo reforça a hipótese de que a peste já circulava milhares de anos antes das grandes pandemias históricas, como a Peste Negra do século XIV. A presença de Yersinia pestis em fósseis tão antigos demonstra que a relação entre humanos e patógenos moldou, desde cedo, a genética e o destino das civilizações.

De acordo com o portal ZME Science, a descoberta oferece uma nova perspectiva sobre o declínio neolítico: uma conjunção de doenças, colapso social e deslocamentos populacionais. O silêncio das tumbas, agora decifrado pelo DNA, revela que a peste não foi apenas uma tragédia medieval, mas uma força ancestral que remodelou a trajetória humana na Europa.

Os cientistas acreditam que Bury é apenas o início de uma série de achados genéticos que emergirão das tumbas europeias. Cada fragmento ósseo e cada dente fossilizado guarda a assinatura microscópica de uma era em que a humanidade travava, pela primeira vez, uma guerra invisível contra o império das doenças, uma batalha que ainda ecoa nas mutações silenciosas de nosso próprio sangue.


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