Encontro internacional discute transformações do trabalho e seus impactos sociais

Às vésperas do Dia do Trabalhador, o 3º Encontro Internacional de Psicologia Social do Trabalho – Memória, história, transformações e futuro do trabalho, propõe uma pergunta direta: há, de fato, o que comemorar? “As últimas décadas foram de retrocesso quando se fala em condições de trabalho”, afirma a professora Vera Lucia Navarro, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto e uma das coordenadoras do evento.

O encontro será realizado nos dias 29 e 30 de abril, no Auditório Paula Souza, na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, em São Paulo, em formato presencial. Posteriormente, as discussões serão disponibilizadas no canal da FSP-USP no YouTube. A proposta é reunir pesquisadores brasileiros e estrangeiros para analisar as transformações do mundo do trabalho e suas consequências sociais e subjetivas.

A iniciativa é do GT Trabalho e Processos Organizativos da Contemporaneidade, vinculado à Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia (Anpepp), coordenado por Vera Navarro e criado em 2006 por iniciativa da professora Leny Sato, do Instituto de Psicologia da USP. Hoje, o coletivo reúne 28 pesquisadores de instituições públicas e privadas de diferentes regiões do Brasil, além de integrantes de países como Colômbia, Chile, Uruguai e Estados Unidos. Essa composição confere ao grupo um caráter interinstitucional e transnacional, ampliando as possibilidades de análise sobre o mundo do trabalho contemporâneo. “A inserção internacional favorece o intercâmbio de perspectivas teóricas, metodológicas e empíricas, além de possibilitar análises comparativas sobre dinâmicas do trabalho em diferentes contextos”, destacam os organizadores.

O grupo se consolidou como espaço coletivo de produção científica, articulando pesquisa, debate teórico e reflexão política. “O foco principal tem sido as análises em torno das transformações do mundo do trabalho contemporâneo, marcado pela intensificação do trabalho, pela plataformização, pelo avanço da racionalidade neoliberal e pelo desmonte de políticas públicas e destruição de direitos trabalhistas”, explica Vera. O objetivo, segundo ela, é compreender “as consequências disso tudo para os trabalhadores, com destaque às consequências psicossociais”.

Conquistas e retrocessos

Segundo Vera, os efeitos do retrocesso nas condições do trabalho já são evidentes. “O adoecimento psíquico relacionado ao trabalho está em expansão no País, tomando proporções epidêmicas.” A docente acrescenta que transtornos mentais e comportamentais figuram entre as principais causas de afastamento laboral, com sucessivos recordes de licenças médicas.

A escolha do tema do encontro, que articula memória, história, transformações e futuro do trabalho, reforça essa perspectiva. Ao recuperar a dimensão histórica das relações laborais, o debate busca compreender como conquistas sociais acumuladas ao longo do tempo convivem, hoje, com processos de precarização e perda de direitos. A realização do evento na semana do primeiro de maio não é casual, mas um gesto simbólico que recoloca o trabalho no centro da reflexão crítica.

Entre os fenômenos analisados, a saúde mental ocupa lugar central. O avanço do adoecimento psíquico relacionado ao trabalho atravessa diferentes categorias profissionais e alcança também o ambiente universitário. “Todas as categorias profissionais estão expostas a este tipo de adoecimento”, afirma a coordenadora.

No interior das universidades, a intensificação das atividades tem impactado docentes, servidores técnicos e estudantes. Estes últimos, especialmente na pós-graduação, passam a ser cada vez mais reconhecidos como trabalhadores, diante das exigências de produtividade, das condições de pesquisa e das pressões institucionais. Relatos de sobrecarga, falta de infraestrutura e situações de assédio moral integram esse cenário, ampliando o debate sobre saúde psíquica no meio acadêmico.

O encontro também se configura como espaço de circulação de pesquisas. Até o momento, são mais de 218 inscritos, com 53 trabalhos selecionados para apresentação em sessões simultâneas ao longo do primeiro dia. A proposta, diz Vera, “é promover o intercâmbio entre pesquisadores e consolidar uma agenda comum de investigação”.

A programação inclui, além das sessões de comunicação oral, três mesas temáticas no segundo dia. Entre os temas, estão os impactos das crises globais sobre a classe trabalhadora, as transformações das subjetividades na América Latina e a relação entre trabalho, políticas públicas e metabolismo social. A presença de pesquisadores estrangeiros reforça o caráter internacional do encontro e amplia o diálogo com outras realidades.

O Grupo de Trabalho da Anpepp tem parceria com o Programa de Pós-Graduação em Psicologia da FFCLRP, o Programa de Pós-Graduação em Psicologia e Sociedade da Unesp de Assis e o Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública da FSP.

Também fazem parte da Comissão Organizadora os professores Maria Deborah Cabral de Sousa, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Andreia Garbin, da FSP, Cassiano Ricardo Rumin, do Centro Universitário de Adamantina (FAI), e Matheus Fernandes de Castro, da Unesp.

Programação

29 de abril
9h às 9h30 – Cerimônia de abertura com participação de Vera Lucia Navarro, Maria Deborah Cabral de Sousa e Andreia Garbin;
10h às 12h – Sessões de comunicação oral;
14h às 16h – Sessões de comunicação oral;
16h às 18h – Roda de conversa sobre atividades do grupo de trabalho.

30 de abril
9h30 às 12h – Mesa-redonda sobre crises globais e desafios para a classe trabalhadora;
14h às 16h – Mesa-redonda sobre transformações do trabalho e produção de subjetividades na América Latina;
16h às 18h – Mesa-redonda sobre trabalho, políticas públicas e metabolismo social.

Fonte: Jornal da USP

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