O conflito travado pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã eleva os preços de medicamentos e produtos farmacêuticos básicos em diversos países, com o custo de analgésicos como o paracetamol quadruplicando em algumas regiões desde o início das hostilidades, segundo o Al Jazeera.
Farmacêuticos no Reino Unido e na Índia relatam aumentos acentuados nos preços de remédios de balcão e anticoncepcionais como preservativos. Os valores subiram entre 20 e 30 por cento em farmácias britânicas, enquanto na Índia o aumento em certos analgésicos alcançou 96 por cento.
O pesquisador sênior do Middle East Council on Global Affairs Frederic Schneider aponta o bloqueio do Estreito de Ormuz como um dos principais responsáveis pela crise. Essa passagem responde por aproximadamente 20 por cento do petróleo e do gás natural liquefeito comercializado mundialmente.
Schneider detalhou que a indústria farmacêutica depende de insumos petroquímicos e de rotas logísticas que atravessam o Golfo Pérsico. Os produtos que necessitam de transporte refrigerado e de manipulação delicada são os mais prejudicados pela interrupção dessas cadeias.
O professor de logística da Universidade de Antuérpia Wouter Dewulf explicou que 35 por cento dos medicamentos e 90 por cento dos produtos vitais como vacinas viajam por via aérea. O conflito provocou o fechamento de espaços aéreos e cancelamentos de voos, o que elevou drasticamente o custo do frete.
Dewulf afirmou que ainda não há risco imediato de desabastecimento global de remédios. Ele advertiu, porém, para os atrasos nos envios, os redirecionamentos de rotas e o forte aumento dos custos logísticos que afetam principalmente os genéricos.
O paracetamol emergiu como um dos casos mais emblemáticos do impacto econômico da guerra. Representantes da Visakha Chemists Association na Índia reportaram disparada no preço da matéria-prima, o que pode levar a novos reajustes de até 40 por cento.
No Reino Unido, o presidente da National Pharmacy Association Olivier Picard revelou os números da alta de preços. Um lote com 100 comprimidos de 500 miligramas passou de 41 pence para 1,99 libra antes de recuar para 1,09 libra.
Schneider analisou as diferenças entre os países diante da crise de suprimentos. A China obtém insumos de outras regiões, enquanto a Índia depende criticamente das rotas do Golfo — e países como Sudão, Iêmen e Palestina apresentam extrema vulnerabilidade diante dos aumentos de preços.
A União Europeia dispõe de estoques estratégicos para até dez meses e de mecanismos de solidariedade entre seus membros. Os locais mais expostos seguem sendo o Líbano, a Palestina, o Irã e os territórios dependentes de assistência humanitária.
Nos países do Conselho de Cooperação do Golfo a situação se mantém estável até o momento, conforme indicam autoridades locais. Dewulf observou que os medicamentos geralmente recebem prioridade no transporte aéreo devido à maior rentabilidade que geram.
O especialista concluiu que a escalada de custos no Oriente Médio expõe a fragilidade das cadeias produtivas globais e a vulnerabilidade das populações mais pobres. A agressão militar dos EUA e de Israel contra o Irã cobra, assim, um preço silencioso e crescente sobre milhões de pessoas ao redor do mundo.
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