Trabalhadores descobrem seis naufrágios medievais durante obras ferroviárias na Suécia

Ilustração editorial sobre Trabalhadores descobrem seis naufrágios medievais durante obras ferroviárias na Suécia. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

O que se iniciou como um projeto de modernização ferroviária na costa oeste da Suécia revelou-se uma viagem arqueológica às profundezas da Idade Média. Sob o solo de Varberg, onde escavadeiras deveriam apenas abrir caminho para trilhos e túneis, trabalhadores depararam-se com seis embarcações naufragadas, preservadas sob séculos de areia e lodo, datadas entre o século XIV e o XVII.

Segundo o grupo de consultoria arqueológica Arkeologerna, responsável pela supervisão científica do projeto, quatro dos navios pertencem ao final da Idade Média, um ao século XVII e outro ainda desafia a cronologia. As descobertas revelam que, onde hoje se ergue a cidade moderna, existiu outrora um porto fervilhante de comércio e defesa, ponto vital para o tráfego naval entre Varberg e Ny Varberg, nas rotas do mar Báltico.

A arqueóloga e gerente de projeto da Arkeologerna, Elisabet Schager, declarou que os naufrágios numerados como 2, 5 e 6 são os mais notáveis do conjunto. Eles foram encontrados na região central da cidade, sobre o que foi a antiga linha costeira medieval, onde o mar tocava muralhas e estaleiros agora soterrados pela urbanização contemporânea.

O Naufrágio 2 destacou-se por sua integridade estrutural, um raro exemplo de embarcação com partes do casco ainda conectadas após quase cinco séculos submersos. Construído em carvalho por volta da década de 1530, exibia o estilo clinker, técnica em que as pranchas se sobrepõem como escamas metálicas, conferindo ao navio resistência e leveza.

Os arqueólogos identificaram duas seções do casco de estibordo e madeiramentos dispersos, compondo o corpo da antiga embarcação. Em seu berghult — uma faixa protetora de madeira fixada externamente — foram detectados vestígios de fogo, o que levou à hipótese de que o navio tenha sido deliberadamente incendiado antes de afundar.

Essa pista incendiária sugere mais do que um acidente: pode tratar-se de um ritual de destruição, um ato de guerra ou uma tentativa de evitar que a embarcação caísse em mãos inimigas. A presença de fuligem e deformações térmicas nas pranchas reforça a narrativa de um fim trágico, envolto em simbolismo e violência marítima.

O Naufrágio 5, datado do século XVII, compartilha o mesmo DNA construtivo do Naufrágio 2, com carvalho local e técnica clinker. Os especialistas acreditam que essas embarcações navegavam entre as antigas cidades de Varberg e Ny Varberg, cruzando o Báltico em tempos de intensas disputas comerciais e marítimas.

O Naufrágio 6, por sua vez, rompeu o padrão técnico ao revelar o estilo caravelado, no qual as tábuas do casco são colocadas lado a lado, criando uma superfície lisa e aerodinâmica. Também feito de carvalho, apresentava um quilhão intacto com encaixes em ranhura, sinal inequívoco da influência holandesa que permeava os estaleiros do norte europeu no século XVI.

Apesar da precisão construtiva, o Naufrágio 6 ainda não pôde ser datado com exatidão. Contudo, sua sofisticação técnica indica um período de intenso intercâmbio naval entre a Suécia e as potências marítimas dos Países Baixos, quando o reino escandinavo consolidava sua presença nos mares do norte.

Os Naufrágios 3 e 4, ambos datados do século XIV, eram embarcações de fundo chato, típicas do comércio medieval de cabotagem. Elas transportavam mercadorias e matérias-primas ao longo da costa, conectando pequenos portos e vilas, num tempo em que o mar era a principal estrada da civilização nórdica.

As análises preliminares sugerem que esses navios podem oferecer novas informações sobre as rotas comerciais e os hábitos de navegação da época. Os arqueólogos esperam que estudos futuros revelem detalhes sobre as mercadorias transportadas, as técnicas de construção e o cotidiano dos marinheiros que cruzavam o mar do Norte.

Mais do que um achado isolado, o conjunto de Varberg reconfigura a compreensão da história portuária sueca. Sob o concreto da modernidade, emergem ecos de um passado marítimo que moldou a identidade do país, lembrando que o progresso também repousa sobre as ruínas de outrora.

Schager destacou que descobertas semelhantes vêm se multiplicando ao longo da costa oeste da Suécia, onde antigas zonas portuárias e leitos de rios agora jazem ocultos sob bairros e avenidas. O trabalho é conduzido em parceria com o Museu de Bohuslän, o grupo Visual Archaeology e o Cultural Environment Halland, em um esforço conjunto para preservar e documentar esse patrimônio submerso.

Os achados de Varberg somam-se a uma tendência crescente de revelações arqueológicas ligadas a obras de infraestrutura no país. Cada escavação, cada fundação aberta, parece despertar camadas adormecidas do tempo, expondo o diálogo entre o passado e o presente.

Em entrevista ao portal Popular Mechanics, Schager afirmou que o trabalho está longe de terminar e que novas descobertas podem surgir a qualquer momento. Segundo ela, o sítio ainda guarda segredos sobre a expansão marítima sueca e sobre as conexões culturais que moldaram o norte da Europa entre os séculos XIV e XVII.

O mistério que dorme sob as águas e agora desperta sob as ruas de Varberg é um lembrete de que o tempo não sepulta, apenas adormece. Cada prancha de carvalho, cada prego corroído pelo sal, é uma palavra de uma história ainda sendo escrita entre o ferro dos trilhos e o silêncio das marés.


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