Arqueólogos descobrem trecho da Ilíada dentro do abdômen de múmia egípcia da era romana

Ilustração editorial sobre Arqueólogos descobrem trecho da Ilíada dentro do abdômen de múmia egípcia da era romana. (Ilustração: Cafezinho / Flux Pro)

Em uma revelação que mistura arqueologia, literatura e mistério, pesquisadores da Universidade de Barcelona encontraram um fragmento da Ilíada de Homero dentro do abdômen de uma múmia egípcia da era romana. O achado ocorreu em Al Bahnasa, ao sul do Cairo, local correspondente à antiga cidade greco-romana de Oxirrinco, célebre por abrigar um dos maiores conjuntos de papiros já descobertos no Egito.

O corpo, datado de cerca de 1.600 anos, foi encontrado em um complexo funerário composto por três câmaras de calcário, todas pertencentes ao período de dominação romana sobre o Egito, entre 30 a.C. e 640 d.C. Dentro do corpo, uma folha de papiro cuidadosamente enrolada trazia versos do Livro II da epopeia homérica, o mesmo em que o poeta descreve o catálogo das naus gregas rumo à guerra de Troia.

O professor de línguas clássicas, românicas e semíticas da Universidade de Barcelona, Ignasi-Xavier Adiego, afirmou que o conteúdo surpreendeu a equipe por fugir do padrão mágico ou ritualístico comum a outros papiros encontrados em múmias. Segundo ele, a presença de um texto literário como a Ilíada dentro de um corpo embalsamado representa um gesto simbólico singular, talvez um eco espiritual de devoção à cultura helênica em meio à transição cultural egípcia.

Adiego destacou ainda que, embora papiros gregos sejam frequentemente encontrados em Oxirrinco desde o final do século XIX, é inédito localizar um exemplar literário diretamente incorporado ao processo de mumificação. Até então, os pergaminhos descobertos em contextos funerários traziam fórmulas mágicas, invocações ou orações destinadas à proteção da alma no além, e não fragmentos poéticos de uma epopeia.

Os arqueólogos acreditam que o papiro tenha sido inserido deliberadamente durante o embalsamamento, talvez como amuleto de sabedoria ou símbolo de status intelectual. A hipótese reforça a ideia de que, na era romana, o Egito havia se tornado um caldeirão cultural onde o grego clássico e as tradições locais coexistiam em uma teia espiritual e política complexa, unindo dois mundos sob o mesmo manto funerário.

O fragmento, analisado sob luz infravermelha e técnicas de imagem multiespectral, revelou caligrafia precisa em grego antigo, preservada por resinas e envoltórios de linho. A equipe planeja agora decifrar integralmente o trecho para determinar se se trata de uma cópia conhecida ou de uma variação textual inédita do poema de Homero, o que poderia redefinir parte da tradição manuscrita da literatura clássica.

Desde 1992, a Missão Arqueológica de Oxirrinco, liderada pela Universidade de Barcelona, vem desenterrando vestígios que redefinem a compreensão sobre a fusão entre o mundo grego e o egípcio. O projeto já trouxe à tona centenas de papiros, templos e artefatos que revelam a intensidade cultural dessa cidade, que outrora foi um centro administrativo e espiritual de primeira grandeza no vale do Nilo.

O caso reacende o debate sobre o papel da literatura na vida e na morte da Antiguidade, sugerindo que o amor por um texto podia ultrapassar a existência física. Alguns estudiosos aventam que o morto, talvez um intelectual ou sacerdote helenizado, tenha desejado levar consigo a epopeia como guia simbólico para a travessia ao além, uma espécie de mapa poético para o pós-vida.

De acordo com reportagem da Scientific American, outros corpos encontrados no mesmo sítio continham rolos de papiro, mas nenhum apresentava referências à Ilíada ou a qualquer outro texto literário grego. Isso reforça a singularidade do achado, que aproxima a poesia épica de um gesto funerário que atravessa tempo, religião e civilização, transformando o corpo em urna simbólica de memória e palavra.

Para os cientistas, o episódio é mais do que uma curiosidade arqueológica: é um lembrete de que a literatura molda não apenas as ideias dos vivos, mas também os rituais dos mortos. O papiro escondido no ventre da múmia talvez seja, simbolicamente, o coração de um império onde o verbo e o espírito se confundiam na eternidade, ecoando o desejo humano de que nenhuma história se perca para sempre na areia.

Os estudos continuam em andamento nos laboratórios da Universidade de Barcelona e do Museu Egípcio do Cairo, com a colaboração de especialistas espanhóis e egípcios em paleografia e conservação. A expectativa é que novas análises químicas revelem a origem do papiro e o tipo de tinta utilizado, o que poderá oferecer pistas sobre o ateliê onde o texto foi copiado e seu possível proprietário original.

Entre o pó das tumbas e o brilho das letras, a descoberta reacende o fascínio pelo poder imortal da palavra escrita. No silêncio milenar de Oxirrinco, a voz de Homero ressurge, gravada não em pedra, mas na carne embalsamada de um morto que, ao que tudo indica, quis levar consigo o cântico dos heróis.


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