O Irã intensifica negociações com o Paquistão para estabelecer novas rotas terrestres após cerca de 3 mil contêineres destinados à República Islâmica ficarem retidos no porto de Karachi. Documentos obtidos pelo Al Jazeera revelam que a medida responde a graves disrupções logísticas no Estreito de Ormuz.
As embarcações programadas para recolher as cargas não chegaram ao porto paquistanês. Não há previsão clara de quando o tráfego marítimo poderá ser normalizado em meio à escalada de tensões na região.
Donald Trump afirmou em rede social que o Irã estaria colapsando financeiramente e exigiu a reabertura imediata do estreito, considerado vital para o fluxo global de petróleo. A ofensiva naval norte-americana paralisou grande parte do tráfego de navios com destino a portos iranianos.
O analista financeiro Javed Hassan, conselheiro do Centro de Pesquisa e Estudos de Segurança (CRSS) em Islamabad, explicou que as restrições comprometem a capacidade de exportação e importação do Irã. Hassan observou que o país construiu uma arquitetura econômica resiliente após décadas de sanções impostas pelo Ocidente.
O especialista destacou que Teerã ainda dispõe de cerca de 170 milhões de barris de petróleo armazenados em navios fora do Golfo de Omã. Essa reserva pode sustentar as exportações iranianas por algumas semanas adicionais.
Hassan ressaltou que o Irã expandiu o uso de corredores terrestres e marítimos internos, especialmente pela Ásia Central e pelo Cáucaso. Acordos de troca e pagamentos em moedas locais com China, Rússia e Paquistão permitem contornar parte das restrições impostas pelo sistema financeiro dominado pelo dólar.
Empresários iranianos e paquistaneses discutem a criação de um corredor terrestre de 900 quilômetros entre os dois países. A proposta prevê que caminhões paquistaneses levem as cargas até a fronteira, onde veículos iranianos assumiriam o trajeto final.
O Irã se dispõe a pagar taxas adicionais a motoristas paquistaneses dispostos a cruzar o território iraniano. Essa alternativa implica custo mais elevado e tempo de viagem maior do que o transporte marítimo convencional.
Autoridades paquistanesas confirmaram as conversas sobre o corredor, mas afirmaram que o plano permanece em fase exploratória. A iniciativa poderia aliviar a sobrecarga no porto de Karachi, que acumula milhares de contêineres parados.
O Estreito de Ormuz oficialmente não está fechado. O Irã restringe o trânsito de embarcações associadas a países alinhados aos EUA e a Israel, enquanto libera navios de parceiros como Paquistão, Malásia e Iraque.
O deputado Hamidreza Haji-Babaei, segundo vice-presidente do Parlamento iraniano, afirmou que as primeiras receitas das taxas de passagem já foram depositadas no Banco Central do Irã. A confirmação demonstra que Teerã operacionalizou uma nova fonte de arrecadação apesar das pressões externas.
O presidente da Associação de Agentes de Navios do Paquistão, Mohammed Rajpar, informou que o prêmio de seguro de guerra subiu de 0,12% para cerca de 5% do valor das embarcações. Para um petroleiro avaliado em 100 milhões de dólares, isso gera custo adicional de 5 milhões por viagem.
O ex-embaixador paquistanês Jamil Ahmed Khan avaliou que as restrições prejudicam a economia iraniana, ainda dependente de exportações de petróleo e importações de alimentos e combustíveis. Khan reconheceu que a liderança em Teerã tende a priorizar a resistência nacional diante de uma ameaça percebida como existencial.
Javed Hassan avaliou que a estratégia iraniana não se baseia em cálculos econômicos convencionais, mas na sobrevivência política e estratégica. O analista lembrou que, em contextos de alta tensão, a capacidade de resistência prolongada revela-se mais determinante do que a força militar imediata.
Com informações de Al Jazeera.
Leia também: Irã assume o controle do Estreito de Ormuz e inverte o tabuleiro geopolítico
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